segunda-feira, 7 de março de 2011

“Revolução árabe” anuncia novas tragédias

A grande incógnita é saber qual força política vai liderar o processo de mudanças, se grupos nacionalistas ou islâmicos.

Por José Arbex Jr.

A revolução árabe” começou a ser deflagrada em 17 de dezembro, por um singular mas trágico incidente: Mohammed Bouazizi, 25 anos, vendedor ambulante de hortaliças, ao ter as suas mercadorias apreendidas pela polícia (cena, aliás, bastante comum em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais brasileiras), foi levado ao desespero e imolou-se em fogo, na localidade de Sidi Buzid (perto de Túnis). O auto sacrifício incendiou o país: manifestações de revolta na capital, cidades e vilarejos derrubaram o ditador Zine Ben Ali (no poder desde novembro de 1987), expulso finalmente da Tunísia em 14 de janeiro. Foi o sinal para que grandiosas manifestações eclodissem sem aviso na Argélia, na Jordânia, no Iêmen e, sobretudo, no Egito. Centenas de milhares de jovens, trabalhadores e trabalhadoras, donas de casa, intelectuais, artistas e pequenos comerciantes saíram às ruas contra odiosas ditaduras e monarquias. Em 1 de fevereiro, no Cairo, Alexandria e outras cidades, pelo menos 1 milhão exigiram a renúncia imediata de Ho ni Mubarak, há três décadas um servo fiel das determinações da Casa Branca. O espectro da revolta sacode o Oriente Médio e o norte da África e cria imensas indagações sobre os novos cenários geopolítico, econômico e financeiro do mundo contemporâneo.

À primeira vista, o grandioso tsunami árabe é inexplicável. Assume a aparência de um evento fortuito, que tenderá a desaparecer com a mesma rapidez com que eclodiu. Nada poderia ser mais equivocado. Se o sacrifício de um jovem ambulante é capaz de incendiar uma região inteira do planeta, isso se deve a determinações profundas, inconscientes, muitas vezes invisíveis, mas que se combinam de forma explosiva e imprevisível em determinados momentos históricos. Ninguém controla ou domestica a história, diria grande revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo, cujas análises sobre a Revolução Russa oferecem a chave para entender o que acontece hoje no Oriente Médio. Quem diria, até o final de novembro de 2001, que, em menos de quinze dias, uma multidão enfurecida, incluindo senhoras de classe média, muito bem vestidas, saquearia supermercados e bancos em Buenos Aires, e expulsaria os inquilinos eleitos da Casa Rosada? Ou quem afirmaria, em outubro de 1989, que em 9 de novembro cairia o Muro de Berlim? Os manifestantes rabes, principalmente os jovens, não reclamam apenas reformas econômicas. Manifestam uma revolta incontrolável contra regimes que, durante décadas, oprimiram, torturaram, perseguiram, assassinaram os seus opositores, além de terem devotado uma submissão canina a um sistema imperialista que construiu um imenso edifício de preconceito, ódio e segregação ao mundo árabe e islâmico.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A maior desgraça brasileira

Três séculos de escravidão vincam até hoje os comportamentos da sociedade brasileira. Por Mino Carta. Imagem: Rover Viollet/AFP

Três séculos de escravidão vincam até hoje os comportamentos da sociedade brasileira

Escrevi certa vez que se Ronaldo, o Fenômeno, se postasse na calada da noite em certas esquinas de São Paulo ou do Rio, e de improviso passasse a Ronda, seria imediata e sumariamente carregado para o xilindró mais próximo. Digo, o mesmo Ronaldo que foi ídolo do Brasil canarinho quando adentrava ao gramado. Até Pelé, creio eu, nas mesmas circunstâncias enfrentaria maus bocados, embora se trate de “um negro de alma branca”.

Aí está: o protótipo do preto brasileiro, o modelo-padrão, está habilitado a representar e orgulhar o Brasil ao lidar com a redonda ou ao compor música (popular, esclareça-se logo), mas em um beco escuro­ será encarado como ameaça potencial. Muitos, dezenas de milhões, acreditam em uma lorota imposta pela retórica oficial: entre nós não há preconceito de raça e cor. Pero que lo hay, lo hay. Existem provas abundantes a respeito e a reportagem de capa desta edição traz mais uma, atualíssima. Na origem, obviamente, a escravidão, mal maior da história do Brasil.

Há outros, está claro. A colonização predatória, uma independência sequer percebida pelo povo de então, uma república decidida pelos generais, avanços respeitáveis enodoados por chegarem pela via da ditadura de Vargas. E o golpe de 1964, último capítulo do enredo populista comandado por uma elite que, como diz Raymundo Faoro, quer um país de 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo. Enfim, um esboço de democratização pós-ditadores fardados ainda em andamento.

A desgraça mais imponente são, porém, três séculos de escravidão e suas consequências. A herança da trágica dicotomia, casa-grande e senzala, continua a determinar a situação do País, dolorosamente marcada pela desigualdade. Há quem pretenda que o preconceito à brasileira não é racial, é social, mas no nosso caso os qualificativos são sinônimos: o miserável nativo não é branco.

A escravidão vincou profundamente o caráter da sociedade. De um lado, os privilegiados e seus aspirantes, herdeiros da casa-grande, e os empenhados em chegar lá, e portanto ferozes e arrogantes em graus proporcionais. Do outro lado, a maioria, em boa parte herdeira da senzala, e portanto resignada e submissa. De um lado uma elite que cuidou dos seus interesses em lugar daqueles do País, embora o Brasil represente um patrimônio de valor inestimável, de certa forma único. Do outro, a maioria conformada, incapaz de reação porque, antes de mais nada, tolhida até hoje para a consciência da cidadania.

O povo brasileiro traz no lombo a marca do chicote da escravidão que a minoria ainda gostaria de usar, quando não usa, e não apenas moralmente. Aqui rico não vai para a cadeia, superlotada por pobres e miseráveis, e não se exigem desmedidos esforços mentais para localizar a origem dessa situação medieval. Trata-se simplesmente de ler um bom, confiável livro de história.

Será possível constatar que afora o devaneio de alguns poetas e a reflexão de alguns pensadores, o maior problema do Brasil, a desigualdade gerada pela escravidão, nunca foi enfrentado com o ímpeto e a determinação necessários. Nos anos de Lula, agredido por causa do invencível preconceito pela mídia nativa, na sua qualidade de perfeita representante dos herdeiros dos senhores de antanho, a questão foi definida com nitidez. Mas se o diagnóstico foi correto, os remédios aviados foram insuficientes. Poderia ser de outra maneira? Melhorar a vida das classes mais pobres não implica automaticamente a conquista da consciência da cidadania, que há de ser o objetivo decisivo.

CartaCapital confia na ação da presidenta Dilma e acredita que seu governo saberá dar prosseguimento às políticas postas em prática pelo antecessor e empenhar-se a fundo no seu próprio programa de erradicação da miséria. Sem esquecer que o alvo principal fica mais adiante.

Silvio Santos e a farra com o dinheiro público


Para entender o rolo do Banco PanAmericano, cuja conta quem está pagando, é você!

A novela do Banco PanAmericano está longe do fim e recentemente novos episódios vieram a público. Descobriu-se que a fraude no banco é maior do que a inicialmente calculada. A Caixa Econômica Federal (CEF) vai injetar ainda mais dinheiro na instituição e os bens dados como garantia por Silvio Santos foram liberados porque um novo comprador entrou na jogada: o Banco BTG Pactual. Veremos que, nessa verdadeira farra com o dinheiro público, os banqueiros se ajudam a si mesmos e quem paga a conta são os trabalhadores!


Silvio Santos e o papel da ideologia burguesa

A imagem do empresário e apresentador de TV, Silvio Santos, sempre foi associada à de um homem pobre e trabalhador que, por seu esforço e inteligência, passou de camelô a milionário. Esse tipo de história serve para alimentar a ilusão no povo de que é possível ficar rico, mesmo nascendo pobre, bastando apenas ter vontade e ambição. Também alimenta a idéia de que o capitalismo é um sistema justo, pois apesar das dificuldades “naturais” da vida, oferece oportunidades para todos, basta – claro! – saber aproveitá-las.

Essa ideologia é típica da burguesia que busca, dessa forma, dissimular a realidade, transformando a exceção em regra. Afinal, os milhões de camelôs brasileiros nunca serão mega-empresários, por mais que se esforcem e acreditem nisso. Não porque o povo é burro e não têm competência para o “mundo dos negócios” e sim porque a riqueza de poucos é a miséria de muitos. Essa é a regra.

Por falar nisso, em todo esse esquema, a felicidade e o sucesso são considerados como recompensas pelo esforço individual travado na concorrência com os demais indivíduos e, por outro lado, a tristeza e o fracasso como falta de sorte e incompetência do sujeito que não soube alcançar a vitória. A vida em sociedade, na verdade, torna-se uma grande competição, onde é necessário derrotar o rival, seja para sobreviver, seja para vender mais, para conseguir uma vaga na faculdade ou um emprego.

Mas, as condições de vida em comum de grande parte da população nos bairros pobres e, principalmente, as condições de exploração nos centros industriais desenvolvem na classe trabalhadora um sentido que contradiz essa idéia individualista.

Se é necessária a união e a coordenação de esforços individuais para produzir um bem, por exemplo, também é para sair da situação injusta em que a maioria se encontra. Essa é a base material em que se apóia a solidariedade de classe, que se expressa de maneira mais ardente nas grandes lutas sociais do povo trabalhador.


O rombo

Em fevereiro o Fundo Garantidor de Crédito destinou mais R$ 1,3 bilhão ao Banco PanAmericano porque uma nova auditoria constatou que o rombo, causado por inúmeras fraudes financeiras, é ainda maior do que o calculado pelo Banco Central no final do ano passado. Esse dinheiro se soma aos R$ 2,5 bilhões já emprestados ao Silvio Santos em novembro/2010. Como garantia, o animador de auditório, ofereceu parte do patrimônio do SBT e outras empresas.


Oiê! Quem quer dinheiro?

Dois grandes movimentos foram responsáveis por salvar o Banco PanAmericano: a compra realizada pela Caixa Econômica Federal (CEF) em 2009 de 49% das ações com direito a voto na instituição e o empréstimo (em duas etapas) de quase R$ 4 bilhões feito pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Assim, o FGC assumiu definitivamente o lugar do Proer, um programa criado na época do Fernando Henrique Cardoso para, justamente, salvar os bancos com problemas. De 1995 a 2001 (ano em que o programa foi encerrado), o Proer destinou mais de R$ 45 bilhões para resgatar bancos que quebraram. O dinheiro do Proer vinha do Banco Central e o caso mais exemplar foi o do Bamerindus, que recebeu bilhões para pagar credores, mas deixou na mão milhares de pequenos poupadores.

Em 2008, durante a crise financeira, Lula elogiou o Proer, mas ao invés de criar um programa semelhante, operou uma metamorfose no FGC. Afinal, o objetivo original desse fundo é o de garantir que os correntistas e depositantes de bancos que viessem a quebrar pudessem sacar e resgatar suas aplicações, no valor de até R$ 60 mil por pessoa – coisa que nunca aconteceu, no entanto.

O patrimônio do FGC é formado por contribuições compulsórias dos bancos. Todo mês, as instituições financeiras calculam o saldo médio de todo tipo de depósito e transferem o equivalente a 0,0125% desse volume na conta do FGC.

Mas, segundo o próprio diretor executivo do FGC, Antonio Carlos Bueno, existe uma fonte de receita bem maior: “Arrecadamos R$ 150 milhões por mês, mais R$ 200 milhões de receita financeira com título público federal”. Quer dizer, foi o povo que ajudou a pagar a fatura do PanAmericano, mesmo quem não tem conta em banco, pois o dinheiro usado no resgate é dinheiro público vindo da CEF e do Tesouro Nacional!

Os trabalhadores têm que ficar espertos, porque está aberto o precedente para que mais bancos sejam salvos com dinheiro público, que deveria ser usado, por exemplo, para salvar a educação e a saúde!


A Caixa Econômica Federal

Com o estouro da crise financeira em 2008, uma das medidas adotadas pelo governo Lula foi a de orientar os bancos públicos (BNDES, BB e CEF) a correr riscos maiores para elevar o volume de crédito em circulação.

Mas, para isso, os próprios bancos públicos precisavam se fortalecer. O BNDES contou com um aporte do caixa do Tesouro Nacional, o BB comprou 50% da BV Financeira, pertencente ao Grupo Votorantin do empresário Antônio Ermírio de Moraes e a CEF, além dos subsídios governamentais recebidos para o programa “Minha Casa, Minha Vida”, comprou 49% das ações com direito a voto do Banco PanAmericano.

Evidentemente, não houve nenhuma orientação “estatizante”, muito menos “social” nessas medidas. Trata-se de fazer valer a lógica do mercado, onde o maior engole o menor e, ainda por cima, com o patrocínio do governo. Antônio Ermírio de Moraes e Silvio Santos agradecem até agora o socorro dado pelo poder público aos seus negócios...

Quando a CEF comprou o PanAmericano, pagou R$ 750 milhões e meses depois, revelou-se a fraude. Aliás, a fraude só veio à tona em novembro de 2010, logo após as eleições presidenciais (claro, pois imagine se isso estoura em pleno segundo turno, como a Dilma iria se safar?), mas o Banco Central já desconfiava de que algo estava errado em 2007, quando em uma auditoria extra percebeu indícios de fraude e abriu uma investigação.

A direção da CEF ao comprar o PanAmericano em 2009, no mínimo, deveria se atentar seriamente para a saúde financeira da instituição antes de fechar o negócio. Quando um trabalhador vai comprar um carro usado, por exemplo, ele leva o veículo para ser vistoriado por um mecânico de sua confiança, mesmo que o carro à venda seja de um amigo ou parente. A CEF contratou uma auditoria “meia-boca”, confiou no Silvio Santos e deu no que deu: um rombo bilionário!

(Mas, atenção! Como explicamos, o que está por trás desse comportamento da direção da CEF é a política do governo Lula de socorrer os bancos para evitar um abalo no sistema financeiro nacional, sob o contágio da crise mundial).

Depois disso, a CEF resolveu entrar de cabeça na administração do negócio, com profissionais dos mais gabaritados e caros de sua estrutura e, agora, anunciou mais R$ 8 bilhões para sanear o PanAmericano “no médio e longo prazo”...


O BTG e o pacto dos banqueiros

Na lógica do mercado, quem compra algo desvalorizado e depois vende valorizado, ganha muito dinheiro. Por isso, para os banqueiros, essa era uma boa hora para comprar o PanAmericano. Depois de toda ajuda que recebeu, o banco já não está tão ameaçado, mas encontra-se desvalorizado e seu dono tem o interesse em vendê-lo.

É aí que entra o Banco BTG Pactual, do banqueiro André Esteves. Ele ofereceu R$ 450 milhões e levou pra casa 51% das ações com direito a voto do Banco Panamericano. Com R$ 300 milhões a menos do que a CEF pagou, adquiriu o controle acionário da companhia e tem até 17 anos para pagar!

O acordo envolveu também a transferência de obrigações frente ao FGC. Segundo o jornal Valor Econômico, “pela engenharia montada, Silvio Santos conseguiu quitar essa dívida com o FGC apresentando ao fundo o recebível de 17 anos dos mesmos R$ 3,8 bilhões que tem contra o BTG Pactual. O BTG, na prática, passa a dever ao fundo garantidor. Mas a conta parece não fechar, porque os R$ 3,8 bilhões são desembolsados pelo FGC no presente, enquanto o recebível do BTG tem valor presente de apenas R$ 450 milhões. Por esse raciocínio, o FGC parece estar pagando a maior parte do rombo”.

Por trás desse acordo, encontra-se um pacto entre os banqueiros, pois BB, Itaú e Bradesco, além de serem os maiores controladores do FGC estão envolvidos no rolo do PanAmericano. Afinal, a fraude consistia na venda de carteiras (“direitos creditícios”) a outros bancos, mas que continuavam contabilizadas como ativos do PanAmericano ou então na venda de uma mesma carteira a bancos diferentes, inflando assim os resultados e deixando um monte de dúvidas no ar: se as carteiras realmente existem, quem é que fica com os direitos creditícios, etc. E assim, os rentáveis fundos de investimento do PanAmericano transformaram-se em “ativos podres” e o medo do contágio tomou conta do sistema financeiro nacional.

Por isso, dias antes do acordo entre o BTG e Silvio Santos, “Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco, Lázaro de Mello Brandão, presidente do conselho de administração do Bradesco, e Roberto Setubal, controlador e presidente do Itaú, foram pessoalmente à sede do FGC, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para discutir o novo resgate do PanAmericano, em encontro de cerca de duas horas e meia”, informa o jornal Valor.

Como se vê, quando a situação aperta, os banqueiros se ajudam mutuamente para preservar seus interesses, claro, tudo feito com dinheiro e apoio do governo federal.


Estatização dos bancos sob controle dos trabalhadores

Um trabalhador do BB fez o seguinte comentário a respeito dessa farra dos banqueiros: “É aquela velha história, quando lucra, vai para o bolso do empresário; quando dá prejuízo, o contribuinte paga. Tinha é que por na cadeia os fraudadores, vender o SBT e as outras empresas para cobrir o rombo”.

Sim, mas nada disso foi feito. Mais uma vez, os banqueiros saíram ilesos e beneficiados pelo Estado, que mostra seu verdadeiro papel: ser o “comitê central de negócios da burguesia”. Aos trabalhadores, resta pagar a conta dessa folia, situação que só mudará, de fato, com uma transformação revolucionária do país.

O caso do Banco PanAmericano é emblemático para percebermos de que maneira o sistema financeiro atua para manter os privilégios da classe dominante sobre os trabalhadores e a prática parasita sobre as finanças públicas. Bilhões de reais que tanto fazem falta para a saúde e a educação, são injetados rapidamente para encobrir crimes de colarinho branco.

É preciso lutar para que os trabalhadores tomem o poder político e invertam a lógica do sistema financeiro: ao invés dos bancos usarem o Estado, o Estado usará os bancos para promover o desenvolvimento das forças produtivas e o atendimento das reivindicações populares. A estatização dos bancos sob controle dos trabalhadores centralizará o crédito nas mãos do Estado e a revolução socialista erguerá um Estado dos trabalhadores.

Lula e sua sucessora, escolheram governar em aliança com a burguesia, por isso, são tão solícitos aos banqueiros. Já com as centrais sindicais, o governo Dilma prefere atacá-las e empurrar goela abaixo um reajuste medíocre do salário mínimo. Quer dizer que injetar dinheiro nos bancos pode, já para os trabalhadores, não pode? Esse, com certeza, não é o “rumo certo”.

Andrea Matarazzo: “É claro que Alckmin é da Opus Dei”

Andrea Matarazzo, reconhecido como “peso-pesado” do PSDB, acreditava que a ligação entre Alckmin e o grupo político de direita Opus Dei era clara, apesar do candidato tucano à presidência sempre negar. Documento divulgado pelo Wikileaks mostra que o então secretário de Subprefeituras recebeu o cônsul Christopher McMullen em seu escritório em 14 de junho de 2006.
por Natalia Viana em seu blog

“Como um católico conservador (“é claro” que Alckmin é membro da Opus Dei, apesar das suas negativas, opinou Matarazzo, apesar de não ser um dos líderes do grupo), Alckmin tem uma certa postura direitista no seu estilo de governar, o que ajuda a explicar por que ele tem o apoio de um segmento tão grande do empresariado”, relata o telegrama.

Nesse momento, o telegrama nota que a conversa é interrompida por um telefonema em que Matarazzo trata rapidamente com um líder GLBT detalhes da parada gay de São Paulo.

Terra de ninguém

O ex-embaixador do Brasil na Itália e ex-chefe da SECOM presidencial de Fernando Henrique Cardoso é identificado como sendo descendente de uma das famílias mais ricas do Brasil. “Passo metade do meu dia nessa terra de ninguém”, disse ele referindo-se ao centro de São Paulo.Matarazzo era, na época, nada menos que subprefeito da região Sé.

Matarazzo mostrava-se insatisfeito com a escolha de seu partido por Alckmin e personifica bem o choque de culturas existente no PSDB mencionado por Lembo quando McMullen o encontrou em março daquele ano.

De acordo com Matarazzo, Serra tinha uma visão nacional, ao contrário de Alckmin que preferia ater-se a uma perspectiva macroeconômica ortodoxa. De acordo com ele ainda, a reeleição de Alckimin para o Palácio dos Bandeirantes foi conquistada devido a méritos de Mário Covas, que já haveria colocado as contas do estado em harmonia. O já falecido ícone do PSDB, confidenciou Matarazzo, teve Geraldo como seu vice a contra-gosto. “Alckmin começou o Rodoanel e não terminou”, ilustrou o secretário.

Matarazzo faz pouco da carreira política de Alckmin que, segundo ele, havia sido prefeito de Pindamonhangaba, deputado federal e vice de Covas. O telegrama observa que o tucano “desatentamente ou por outro motivo” não contabilzou um legislatura como deputado estadual na AL-SP e que nas duas vezes em que Alckmin havia sido eleito para a Câmara Federal, o médico de Pindamonhanagava esteve entre os mais votados do partido.

Serra

Em contraponto a Geraldo, Matarazzo apresenta Serra como um político nacional que já havia sido depudato federal, senador, duas vezes ministros, duas vezes ministro e autor de duas emendas constitucionais. O candidato tucano à presidência em 2002 e 2010 sabia que se Alckmin ganhasse, suas chances de chegar à presidência estariam acabadas aos 64 anos de acordo com Andrea. Diante deste mesmo cenário, o secretário ainda confabula um eventual desligamento de Aécio Neves do PSDB, a fim de nutrir suas aspirações presidenciais.

O baixo-clero do PSDB que apoiava Alckmin teria muita habilidade política na Assembléia Legislativa paulista, mas não em um nível nacional, descreve Matarazzo. Para ele, o “choque de gestão” de Alckmin não significaria nada para o pobre e rural Nordeste. Reforçando suas análises, o magnata apresentou números do crescimento de venda de eletrodomésticos na região.

O telegrama termina com a observação de que, apesar da insatisfação do tucano com a escolha de Alckmin, Matarazzo não mencionou a desistência de Serra frente ao candidato mais jovem mesmo tendo preferência expressiva dentro do partido. Desde que saiu da prefeitura da capital paulista para ser o candidato de seu partido ao governo do estado, havia tornado-se invisível e foi operado de uma hérnia. As pesquisas mostravam que ele seria eleito no primeiro turno e preferiu ser discreto para não abalar o cenário favorável.

terça-feira, 1 de março de 2011

A Líbia no grande jogo da nova divisão da África

Fogem da Líbia não apenas famílias que temem pelas suas vidas e imigrantes pobres de outros países norte-africanos. Há dezenas de milhares de "refugiados" que estão a ser repatriados pelos seus governos por meio de navios e aviões: são principalmente engenheiros e executivos de grandes companhias de petróleo.

Por Manlio Dinucci*

Não só a ENI, a qual realiza cerca de 15% das suas vendas a partir da Líbia, mas também outras multinacionais européias – em particular, a BP, Royal Dutch Shell, Total, Basf, Statoil, Repsol. Centenas de empregados da Gazprom foram também forçados a deixar a Líbia e mais de 30 mil trabalhadores chineses da sua companhia de petróleo e de construção. Uma imagem simbólica de como a economia Líbia está interconectada com a economia global, dominada pelas multinacionais.

Graças às suas ricas reservas de petróleo e gás natural, a Líbia tem uma balança comercial positiva de US$27 mil milhões por ano e um rendimento per capita médio-alto de US$12 mil, seis vezes maior que o do Egito. Apesar de fortes diferenças entre rendimentos altos e baixos, o padrão de vida médio da população da Líbia (apenas 6,5 milhões de habitantes em comparação com os cerca de 85 milhões no Egito) é, portanto mais elevado do que o do Egito e de outros países da África do Norte. Testemunho disso é o fato de que cerca de um milhão e meio de imigrantes, principalmente norte-africanos, trabalha na Líbia. Uns 85% das exportações líbias de energia vão para a Europa: a Itália em primeiro lugar com 37%, seguida pela Alemanha, França e China. A Itália também está em primeiro lugar em exportações para a Líbia, seguida pela China, Turquia e Alemanha.

Esta estrutura agora explodiu devido ao que pode ser caracterizado não como uma revolta das massas empobrecidas, tal como as rebeliões no Egito e na Tunísia, mas como umas guerra civil real, em consequência de uma divisão no grupo dominante. Quem quer que seja que tenha feito o primeiro movimento explorou o descontentamento contra o clã Kadafi, que prevalece especialmente entre as populações da Cirenaica e entre jovens nas cidades, num momento em que toda a África do Norte tomou o caminho da rebelião. Ao contrário do Egito e da Tunísia, contudo, o levantamento líbio foi planeado previamente e organizado.

As reações na arena internacional também são simbólicas. Pequim disse estar extremamente preocupada acerca dos desenvolvimentos na Líbia e apelou a "um rápido retorno à estabilidade e normalidade". A razão é clara: o comércio sino-líbio experimentou crescimento forte (cerca de 30 por cento só em 2010), mas agora a China verifica que toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, da qual importa quantidades crescentes de petróleo, foram postas em causa. Moscovo está numa posição semelhante.

O sinal de Washington é diametralmente oposto: o presidente Barack Obama, que quando confrontado com a crise egípcia minimizou a repressão desencadeada por Mubarak e apelou a uma "transição ordenada e pacífica", condenou o governo líbio em termos inequívocos e anunciou que os EUA está a preparar "o conjunto completo de opções que temos disponíveis para responder a esta crise", incluindo "ações que possamos empreender por nós próprios e aquelas que possamos coordenar com os nossos aliados através de instituições multilaterais". A mensagem é claro: há a possibilidade de um intervenção dos EUA/Otan na Líbia, formalmente para interromper o banho de sangue. As razões também são claras: se Kadafi for derrubado, os EUA seriam capazes de fazer ruir toda a estrutura das relações econômicas com a Líbia, abrindo o caminho para multinacionais com base nos EUA, até agora quase totalmente excluídas da exploração das reservas de energia na Líbia. Os Estados Unidos poderiam então controlar a torneira de fontes de energia sobre as quais a Europa depende amplamente e que também abastecem a China.

Trata-se de acontecimentos no grande jogo da divisão dos recursos africanos, pelos quais uma confrontação crescente, especialmente entre a China e os Estados Unidos, está a verificar-se. A potência asiática em ascensão – com a presença na África de cerca de 5 milhões de administradores, técnicos e trabalhadores – constrói indústrias e infraestrutura, em troca de petróleo e outras matérias-primas. Os Estados Unidos, que não podem competir a este nível, podem utilizar a sua influência sobre as forças armadas dos principais países africanos, as quais são treinadas através do Africa Command (Africom), o seu principal instrumento para a penetração do continente. A Otan agora também está a entrar no jogo, pois está prestes a concluir um tratado de parceria militar com a União Africana, a qual inclui 53 países.

A sede da parceria da União Africana com a Otan já está em construção em Adis Abeba: uma estrutura moderna, financiada com 27 milhões de euros da Alemanha, batizada "Edifício paz e segurança".

A verdade sobre o atual levante revolucionário na Líbia

Seguindo os passos da Tunísia e do Egito, o povo líbio se levanta contra o regime de seu país, exigindo a saída do atual líder Muammar Khadafi. Isso tem sido visto de diferentes pontos de vista em todo o mundo. Particularmente na América Latina há muita confusão sobre o que realmente está acontecendo. Acreditamos que seja necessário explicar a nossa posição sobre esta matéria, porque alguns meios de comunicação têm abordado a questão como se o governo de Khadafi fosse um governo revolucionário e estivesse enfrentando uma rebelião orquestrada pelo imperialismo.

O caráter do regime de Khadafi


Longe de ser um governo anti-imperialista, Khadafi compactuou em várias ocasiões com o imperialismo mundial, reunindo-se e assinando acordos com Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e Blair. Ele também recebeu visitas do rei espanhol Juan Carlos, representando os empresários da Espanha.

Em 1993-94, Khadafi introduziu as primeiras leis que faziam parte de um giro econômico no sentido da abertura do mercado. Durante uma década, quase nada foi feito nesse sentido. Mas, confrontado com as dificuldades econômicas em 2003, o processo se acelera. Em troca de leis que preparavam as privatizações e uma maior abertura ao investimento de capital estrangeiro, o regime iniciou uma reconciliação com o imperialismo e logo deu resultados.

Em setembro de 2003, a ONU suspendeu todas as sanções econômicas contra a Líbia, em troca de um pacote econômico que incluía planos para privatizar 360 empresas estatais e, em 2006, a Líbia inclusive solicitou a entrada na Organização Mundial do Comércio. Em 2008, a própria Condoleezza Rice (ex-Secretária de Estado dos EUA) disse que a Líbia e os Estados Unidos compartilhavam de interesses comuns, como “a luta contra o terrorismo, o comércio, proliferação nuclear, África, direitos humanos e democracia”.

Hoje, todas as grandes multinacionais do petróleo estão operando na Líbia: a British Petroleum, Exonn Mobil, Total, Repsol, entre outras. Por outro lado, é interessante notar que Khadafi se tornou dono de 5% das ações da Fiat, como resultado da abertura do país para os capitalistas italianos.

Tudo isso deixa claro que este regime está mais próximo dos interesses capitalistas e imperialistas do que dos interesses de seu próprio povo e da revolução. Como declarou o companheiro deputado do PSUV pelo estado de Bolívar, Adel El-Zabay, que é de origem árabe: “Khadafi já não é mais o líder anti-imperialista do passado e enfrenta com massacres um verdadeiro clamor popular”.


O caráter da revolta na Líbia

Essa revolta tem as mesmas causas que a da Tunísia e do Egito. O resultado da abertura de acordos de Khadafi com o imperialismo foi um desastre econômico para a maioria da população, apesar da riqueza petrolífera do país. A Líbia é um país com 30% de desemprego e um custo de vida cada vez mais elevado. Alimentos básicos, como arroz, farinha e açúcar encareceram cerca de 85% nos últimos 3 anos. Este é o motivo real que levou à revolta popular que existe na Líbia. Por esta razão Khadafi apoiou Ben Ali e Mubarak contra a insurreição revolucionária do povo da Tunísia e do Egito.

Inspirado por seus irmãos no resto do mundo árabe, trabalhadores, jovens e pobres na Líbia se levantaram contra uma ditadura que revela seu verdadeiro caráter. O levante que começou em Benghazi, a segunda maior cidade do país, tem se espalhado para muitas regiões do território nacional.

Khadafi respondeu com violência brutal, e assim como durante a revolta popular do “Caracazo”, usou o exército contra a população civil desarmada. Além disso, também tem utilizado mercenários contra o povo. O fato de que Khadafi foi forçado a pagar mercenários é a prova de que não confiava em seus próprios soldados. Em Benghazi, o exército passou para o lado do povo e isso tem se repetido em outras cidades. É difícil estimar o número de mortos, mas sabemos que só em Benghazi já foram mortas mais de 230 pessoas. A repressão atingiu um nível tão cruel que foi utilizada a força aérea para bombardear os manifestantes.

Sem dúvida, o imperialismo nessa situação vai tentar fazer valer os seus interesses. Somos contra qualquer intervenção imperialista na Líbia. São justamente os imperialistas que venderam armas a Khadafi, fizeram acordos de negócios para explorar a riqueza petrolífera do país e o utilizaram como uma barreira de contenção contra a “imigração clandestina” na Europa. O imperialismo não está interessado no destino do povo da Líbia, mas apenas nos recursos naturais do país.