sábado, 12 de fevereiro de 2011

Queda de Mubarak estimula luta por democracia na Argélia e Iêmen

A vitória do povo egípcio contra o ditador Hosnin Mubarak, que renunciou ao poder nesta sexta-feira (11), estimulou manifestações pela democracia em pelo menos dois países árabes neste final de semana: Argélia e Iêmen.

EFE
Polícia tenta conter manifestantes na Argélia
Na Argélia, milhares de pessoas desafiaram o estado de emergência em vigor há quase 20 anos, e saíram às ruas gritando palavras de ordem contra o presidente Abdelaziz Bouteflika e exigindo melhores condições de vida e maior liberdade. No Iêmen, milhares ainda ocupam o centro da capital, Sanaa, reclamando a saída imediata do ditador Ali Abdullah Saleh.

Repressão

Em Argel, o governo já tinha reprimido com brutalidade uma manifestação que comemorava a queda de Mubarak no Egito, no dia anterior, e voltou a jogar a polícia contra os opositores. Centenas de pessoas foram detidas. Helicópteros estão sobrevoando a área central da cidade, enquanto veículos blindados e barreiras impedem a passagem de ônibus com mais manifestantes. Cerca de 20 mil policiais estão trabalhando na operação.

A capital da Argélia já havia registrado confrontos entre manifestantes e policiais em janeiro deste ano, em meio a protestos contra o desemprego, os preços dos alimentos e as más condições de moradia. Os protestos populares são proibidos na Argélia devido a um estado de emergência que dura desde a guerra civil de 1992.

A mesma história

A situação no país não é muito diferente do Egito. O ditador Bouteflika, 73 anos, aliado dos EUA, comanda o país desde 1999 por meio de um regime repressivo. O desemprego é alto, especialmente entre os jovens, as carências sociais se multiplicam (verifica-se uma série crise no setor habitacional) e há uma insatisfação generalizada na sociedade, contida até agora a ferro e fogo.

Reuters
Protestos no Iêmen são inspirados pela queda de Mubarak
No Iêmen, onde os jovens lideram os protestos, a história se repete. Ali Abdullah Saleh, outro fiel aliado do imperialismo estadunidense, está há 32 anos no poder. Os ativistas, que pediam uma revolução no país árabe, chegaram a entrar em confronto hoje com um grupo de mercenários do ditador, em frente à Universidade de Sanaa. Há relatos de que as forças de segurança também se envolveram no enfrentamento.

O governo de Saleh é acusado de corrupção e concentração de poder em torno de seu clã. O partido governista, o Congresso Geral do Povo, tem ampla maioria no Parlamento. O velho ditador assumiu a Presidência da República Árabe do Iêmen (ou Iêmen do Norte) em 1978, por meio de um golpe militar. Em 1990, ele tornou-se presidente da nova república, criada a partir a fusão entre os Iêmens do Norte e do Sul.

Festa e preocupação no Egito

O povo está em festa por todo o Egito neste sábado (12). A derrocada de Hosni Mubarak, depois de 18 dias de protestos que encantaram o mundo e relançaram as luzes da revolução no palco da história, é comemorada com justiça como uma grande vitória.

Mas os líderes dos protestos continuam em estado de alerta na Praça Tahrir, de onde pretendem sair só depois que o processo de transição à democracia estiver melhor definido, assegurando a participação dos civis.

Militares

Afinal, ao cair fora Mubarak transferiu o poder aos chefes militares que literalmente até ontem sustentavam o ditador.

As sinalizações dos generais e os compromissos com a democracia ainda não são convincentes. As primeiras declarações do Comando Militar procuram acalmar e agradar Israel e EUA, anunciando respeito aos acordos internacionais formados pelo país, o que inclui o controverso tratado de paz com Israel.

Já os acenos ao povo e à oposição foram tênues e dúbios. Os líderes do protesto exigem um compromisso mais explícito dos militares com a democratização do país e querem, de imediato, o fim do estado de emergência e dos tribunais militares, a libertação de todos os presos políticos e o desmantelamento do aparelho repressivo.

Barricadas

Na praça Tahrir, ponto principal de concentração dos protestos iniciados em 25 de janeiro, centenas de pessoas continuavam acampadas neste sábado. Milhares de manifestantes passaram a noite no local, comemorando a saída do presidente.

O Exército egípcio começou neste sábado a retirar as barricadas dos acessos à praça, removendo carros queimados que serviam de barreiras. As Forças Armadas mantêm tanques e veículos blindados nas ruas, principalmente em frente aos prédios do governo e de outras instalações importantes.

O clima é de festa e comemoração. Muitas bandeiras do Egito podem ser vistas nas janelas dos prédios e penduradas em árvores. O comércio voltou a abrir normalmente e o policiamento foi retomado, com a circulação de viaturas nas ruas do Cairo.

Reformas em debate

As emissoras de TV locais já realizam debates discutindo o futuro político do Egito, assim como as reformas que o Conselho das Forças Armadas - que assumiu o controle do país após a saída de Mubarak - pode realizar.

Diversos grupos já propõem mudanças na Constituição, nos artigos referentes ao processo político e às liberdades civis. A forma de governo do país - com a definição entre presidencialismo e parlamentarismo - também deve entrar em discussão.

Já Mubarak continua com sua família em seu palácio no resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, sob forte esquema de segurança montado pelo Exército. Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne, ainda não se sabe se o ex-presidente permanecerá no Egito. Também é incerto o futuro do vice-presidente, Omar Suleiman, e de outros civis que mantiveram seus cargos do governo anterior.

Por enquanto, não se sabe quais serão os próximos passos do novo governo. Mas os militares prometeram encerrar o estado de emergência que vigora no país há 30 anos.

Derrota dos EUA e Israel

Os Estados Unidos, que gostam de se apresentar com a máscara de campeões da democracia, manobram para controlar os acontecimentos e ainda desfrutam de forte influência no seio das Forças Armadas. O primeiro comunicado do Comando Militar, garantindo respeito aos tratados internacionais firmados por Sadat e Mubarak, revela isto.

Mas a poderosa onda de protestos que agita o mundo árabe e o Oriente Médio tem a um só tempo um caráter democrático e antiimperialista. Não condizem com os interesses do império. Como disse neste sábado o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Said Jalili, a queda do ditador Hosni Mubarak demonstra o “fracasso dos Estados Unidos e do sionismo [de Israel] na região”.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A origem do mito da estagnação econômica na cidade de Bebedouro

Em um tempo muito remoto, ainda no início do século XX, já era perceptível a descrença por parte de alguns munícipes, acerca de um futuro progressista para Bebedouro. Ao revisitarmos Bebedouro das décadas de 1910 e 1920 achamos algumas explicações que podem dar resposta à origem dessa mitificação da apatia predominante em diferentes períodos históricos.

A visão derrotista que se formou sobre o futuro da cidade parece estar diretamente ligada com uma visão romântica da fundação da cidade, de um passado hipoteticamente mais correto, onde o progredir era regra e a crise era exceção. Como uma hipótese, o mito teria origem em meados das décadas de vinte e trinta, quando os homens desgostosos com a política degenerada e suas eternas intrigas entre facções se somavam às fraudes e à corrupção. Tudo isso fora adicionada com a grave decadência da economia que sustentava a cidade, a crise iniciada na década de 1930 se arrastou por anos, fazendo com que muitos desacreditassem no futuro.

É interessante destacar, que esse mito havia sido incutido à mentalidade dos bebedourenses, não apenas as classes baixas, que sentiam a tutela dos grandes proprietários rurais no campo e mesmo na cidade, com a predominância do ruralismo arcaico. A aristocracia por sua vez, sentia a sensação de estagnação sempre que seus objetivos eram obstruídos pelas disputas entre facções, somado ao limitado poder público, com sua estrutura política administrativa impotente. As disputas pessoais entre grandes proprietários e coronéis, as intrincadas querelas que exigiam muito desgaste de força e prestígio e a política de intimidação barrava os novos empreendimentos.

Esses aspectos fizeram surgir uma sensação de sonho perdido e desencantamento, um negativismo que daria origem gradualmente a algo aceito indiscutivelmente como verdadeiro. Aquelas visões derrotistas só perderiam força na década de 1960, quando a euforia trazida com a laranja, nova monocultura dominante iriam disseminar uma sensação de progresso, época de grandes construções e modernizações na infra-estrutura. A laranja traria a mesma sensação quando fomos movidos pelo café, aquela mesma sensação de início do século em que nada poderia deter a prosperidade e os tempos áureos.

A laranja transformou Bebedouro novamente na capital do progresso, o centro disseminador da prosperidade, os milhares que correram para cá vinham fugindo da obscuridade do atraso e da miséria de suas longínquas localidades, atraídos e guiados pela estrela guia do progresso que apontava e guiava os aventureiros para a luminosidade da “Califórnia dos trópicos” que os acolhia como terra natal. O desacreditado sentimento de atraso dos anos de ruína e perpetuado em campo fértil nas décadas seguintes, já não passava de letra morta, algo que havia sido enterrado com os antigos que o havia criado e acreditado nele. Foi nesse período que se transformou em mito, ao ser questionado pelas novas gerações que já não sentiam o mesmo sentimento de atraso no processo, a verdade de uma geração muito freqüentemente torna-se o mito da geração seguinte.

Mas quando à mãe laranja agonizou, a derrocada veio com força irresistível, o foco de luz se apagou, sobreveio um período de trevas deixando no povo uma sensação de meninos abandonados ou órfãos. Renasceu vigoroso o velho estigma adormecido, ressurgia enfurecido do mais repugnante e abominável sepulcro: a antiga ideologia da inadequação da cidade para o progresso, seu eterno destino a fatalidade ao infindável retardamento e atraso.

Os mitos a que estivemos presos é fruto da estrutura ruralista arcaica, que em sua total estagnação não tem meios de por si só se desenvolver; não tem luz própria, é totalmente dependente ao exterior e de suas oscilações.

A resposta para a eliminação destes mitos é uma ação construtiva, que coloque a cidade em um caminho não de rápido enriquecimento e progresso, mas um caminho construtivo. Para isso, valorizar a diversidade econômica, não confiando seu destino a um único produto chave, tornando-a independente da caduca mentalidade ruralista colonial para se integrar às novas tendências da sociedade moderna.

Professor Jorge Cardoso

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Regime pró-EUA de Mubarak agoniza: protesto reúne 2 milhões

Parece que os dias do regime ditatorial de Hosni Mubarak estão contados. A manifestação convocada pela oposição pela democratização do Egito reuniu cerca de 2 milhões de pessoas nesta terça-feira (1) na Praça Tahrir e em seus arredores, no centro do Cairo, ultrapassando a meta de 1 milhão estabelecida pelos organizadores, de acordo com a TV árabe Al-Jazeera.

Houve protesto também em Alexandria, segunda maior cidade do país, e Suez. As forças de oposição marcharam unidas e negaram o diálogo proposto pelo governo (sempre sob orientação dos EUA), depois de se sentir encurralado e verificar que o recurso à repressão acabou se revelando um tiro pela culatra.

Um povo sem medo

A ONU estima que 300 pessoas foram mortas e mais de 3 mil ficaram feridas ao longo dos últimos dias em que a ira contra o ditador invadiu as ruas. São os mártires da rebelião. O governo também censurou a TV Al-Jazzera, prendeu jornalistas, decretou toque de recolher proibiu a internet e praticou outras patifarias.

Mas nada disto foi suficiente para impedir a massiva adesão popular à “marcha de 1 milhão”, que para agradável surpresa dos organizadores e desespero de Mubarak praticamente dobrou de tamanho. O povo não teve medo. Ignorou o toque de recolher e continuou ocupando as ruas do Cairo. O governo mudou de tática e o Exército se comportou com civilidade desta vez. Fiel aos conselhos de Washington, não reprimiu o protesto e provavelmente evitou o pior com isto.

EUA de saia justa

O imperialismo estadunidense ficou numa tremenda saia justa diante do infortúnio do seu fiel e submisso aliado no Oriente Médio. O mesmo se pode dizer em relação a Israel, cujo governo enviou nervosas mensagens a Barack Obama implorando apoio ao ditador do Egito, que faz o jogo sujo dos algozes do povo palestino na região.

Os EUA cultivam a falsa imagem de defensores da democracia e dos direitos humanos no mundo. Não ficaria bem se Obama fizesse declarações públicas em defesa aberta do aliado ditador. Daí as manobras algo desesperadas e dúbias de Washington, com pressões de bastidores e declarações moderadas que reclamam mais democracia e menos repressão, sem retirar o apoio ao ditador. Ao mesmo tempo, registra-se uma grande fuga de cidadãos norte-americanos residentes no Egito, receosos de virar alvo fácil da ira popular, como ocorreu no curso da revolução iraniana de 1979, apesar das circunstâncias diferentes.

Manobras do imperialismo

A última ordem do império para o regime, anunciada nesta terça-feira, no calor da manifestação dos 2 milhões, determina que Mubarak não deve se candidatar à reeleição na próxima eleição presidencial, que deve ocorrer em setembro. Obediente, o ditador anunciou à noite que não mais disputará a presidência. Populares que permaneciam concentrados no centro da capital comemoraram a novidade, mas deixaram claro que querem Mubarak fora imediatamente e que a luta continua.

A oposição já havia anunciado repetidamente que não aceita outra solução fora da renúncia imediata do presidente, criação de um governo de transição e a convocação de eleições livres, refletindo com fidelidade o anseio popular. “A única coisa que aceitaremos dele (Mubarak) é que pegue um avião e se vá”, disse o advogado Ahmed Helmi, de 45 anos, um entre os dois milhões de egípcios entrevistado na Praça Tahrir pela Al-Jazzera.

Novo Oriente Médio

A onda de protestos contra o presidente Hosni Mubarak começou no dia 25 de janeiro, na sequencia da rebelião que derrubou o ditador da Tunísia, Ben Ali, outro fiel aliado do imperialismo americano e europeu.