sábado, 5 de fevereiro de 2011

A origem do mito da estagnação econômica na cidade de Bebedouro

Em um tempo muito remoto, ainda no início do século XX, já era perceptível a descrença por parte de alguns munícipes, acerca de um futuro progressista para Bebedouro. Ao revisitarmos Bebedouro das décadas de 1910 e 1920 achamos algumas explicações que podem dar resposta à origem dessa mitificação da apatia predominante em diferentes períodos históricos.

A visão derrotista que se formou sobre o futuro da cidade parece estar diretamente ligada com uma visão romântica da fundação da cidade, de um passado hipoteticamente mais correto, onde o progredir era regra e a crise era exceção. Como uma hipótese, o mito teria origem em meados das décadas de vinte e trinta, quando os homens desgostosos com a política degenerada e suas eternas intrigas entre facções se somavam às fraudes e à corrupção. Tudo isso fora adicionada com a grave decadência da economia que sustentava a cidade, a crise iniciada na década de 1930 se arrastou por anos, fazendo com que muitos desacreditassem no futuro.

É interessante destacar, que esse mito havia sido incutido à mentalidade dos bebedourenses, não apenas as classes baixas, que sentiam a tutela dos grandes proprietários rurais no campo e mesmo na cidade, com a predominância do ruralismo arcaico. A aristocracia por sua vez, sentia a sensação de estagnação sempre que seus objetivos eram obstruídos pelas disputas entre facções, somado ao limitado poder público, com sua estrutura política administrativa impotente. As disputas pessoais entre grandes proprietários e coronéis, as intrincadas querelas que exigiam muito desgaste de força e prestígio e a política de intimidação barrava os novos empreendimentos.

Esses aspectos fizeram surgir uma sensação de sonho perdido e desencantamento, um negativismo que daria origem gradualmente a algo aceito indiscutivelmente como verdadeiro. Aquelas visões derrotistas só perderiam força na década de 1960, quando a euforia trazida com a laranja, nova monocultura dominante iriam disseminar uma sensação de progresso, época de grandes construções e modernizações na infra-estrutura. A laranja traria a mesma sensação quando fomos movidos pelo café, aquela mesma sensação de início do século em que nada poderia deter a prosperidade e os tempos áureos.

A laranja transformou Bebedouro novamente na capital do progresso, o centro disseminador da prosperidade, os milhares que correram para cá vinham fugindo da obscuridade do atraso e da miséria de suas longínquas localidades, atraídos e guiados pela estrela guia do progresso que apontava e guiava os aventureiros para a luminosidade da “Califórnia dos trópicos” que os acolhia como terra natal. O desacreditado sentimento de atraso dos anos de ruína e perpetuado em campo fértil nas décadas seguintes, já não passava de letra morta, algo que havia sido enterrado com os antigos que o havia criado e acreditado nele. Foi nesse período que se transformou em mito, ao ser questionado pelas novas gerações que já não sentiam o mesmo sentimento de atraso no processo, a verdade de uma geração muito freqüentemente torna-se o mito da geração seguinte.

Mas quando à mãe laranja agonizou, a derrocada veio com força irresistível, o foco de luz se apagou, sobreveio um período de trevas deixando no povo uma sensação de meninos abandonados ou órfãos. Renasceu vigoroso o velho estigma adormecido, ressurgia enfurecido do mais repugnante e abominável sepulcro: a antiga ideologia da inadequação da cidade para o progresso, seu eterno destino a fatalidade ao infindável retardamento e atraso.

Os mitos a que estivemos presos é fruto da estrutura ruralista arcaica, que em sua total estagnação não tem meios de por si só se desenvolver; não tem luz própria, é totalmente dependente ao exterior e de suas oscilações.

A resposta para a eliminação destes mitos é uma ação construtiva, que coloque a cidade em um caminho não de rápido enriquecimento e progresso, mas um caminho construtivo. Para isso, valorizar a diversidade econômica, não confiando seu destino a um único produto chave, tornando-a independente da caduca mentalidade ruralista colonial para se integrar às novas tendências da sociedade moderna.

Professor Jorge Cardoso

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