sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Carlos Lungarzo: Democracia analfabeta

Eu sou de um país onde a palavra dada é sempre negociável em função das ofertas do mercado. [...] Entre nós, a palavra dada serve para elevar o preço da triação. Somos um país mercador que faz comércio com tudo, desde o patrimônio artístico até os presos políticos.

Por Carlos A. Lungarzo*

Erri De Luca (escritor italiano): A palavra dada é negociável? in Vargas, F.: La Véritè sur Cesare Battisti (v. Hamy, 2004)

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Democracia, na linguagem política moderna, já não significa o mesmo que a palavra que lhe deu origem na antiga Grécia (demos kratia = poder do povo), assim como a química tampouco continua sendo o estudo das substâncias vindas do Egito. O mundo muda, e conceitos tradicionais adquiriram significados mais específicos.

Atualmente, são poucos os países que não se consideram democráticos. Desde o invadido e esfacelado Iraque, atacado por imperialismos e terrorismos de todos os estilos, até Canadá, Estados Unidos, repúblicas africanas, etc. quase tudo é democrático. Afinal, “democracia” em sentido formal, significa eleições pluri-partidárias, periódicas, com voto universal para os adultos. Em algumas democracias, como no Brasil, a Constituição faz questão de salientar que fica “eliminada” a censura, mas isso não é o entendimento de todos os governos democráticos.

Aliás, uma democracia pode existir com poucos livros, poucos escritos, e poucos escritores. É o que descobriram em 15 de novembro umas sumidades intelectuais da que fora, há muito tempo, a iluminada e liberal República de Veneza.

Novas Fogueiras

Em 2004, quando, em função de um pacto preexistente entre a França e a Itália, implementado pelo ministro neofascista Castelli, o governo Chirac decidiu mergulhar na lama a honra do povo francês traindo as promessas de Mitterrand aos refugiados, uma onda de protestos agitou a França e uma menor, restrita a intelectuais, também a Itália. Na península, as reações se refletiram numa lista de escritores, artistas e outros ilustrados que criticavam a extradição de Battisti pedida pela Itália, e proclamavam sua solidariedade com o perseguido.

No dia 12 de fevereiro de 2004, foi publicado um abaixo assinado no jornal La Repubblica, de centro-esquerda moderada, com uma lista de mais de 1500 nomes de italianos que pediam a manutenção de Cesare na França e repudiavam o pedido de extradição. A revista Carmilla Online publicou a lista dos primeiros 1500. Entre aqueles assinantes havia numerosos intelectuais, especialmente escritores, jornalistas e comunicadores, mas também cinegrafistas, artistas e pesquisadores.

Aquelas adesões dos setores esclarecidos, justamente no país onde Cesare era perseguido e onde o obscurantismo se tinha tornado quase absoluto, enfureceu os linchadores, que sempre consideraram todos aqueles intelectuais arrogantes e desafiadores, que questionavam um valor sacralizado: o direito à vingança. Mas foi apenas na 3ª. semana de janeiro de 2011, depois de conhecer-se a decisão do Brasil de reter Battisti, que os mais termocefálicos pensaram aplicar uma vendetta massiva sobre aqueles intelectuais.

Como nas épocas da Inquisição, os linchadores entenderam que não seria possível queimar fisicamente todos aqueles escritores, mas, então, era possível queimá-los simbolicamente, como fazia às vezes o Santo Ofício quando não conseguia capturar os hereges. Naquela época, o método era jogar os retratos dos perseguidos nas fogueiras. Para as autoridades culturais da Veneza atual, a solução é estigmatizar os livros dos escritores que assinaram aquela lista.

Em 15 de junho foi lançada a iniciativa de um boicote contra as obras dos escritores que assinaram a lista em favor de Cesare, 11 anos antes. O autor foi um conselheiro do município de Martellago, no Veneto, certo Paride Costa, membro do partido de direita Povo della Libertà, e foi entusiastamente adotada pelo assessor de Cultura de toda a província de Veneza, Raffaele Speranzon. Ele disse que proporá a todos os assessores de cultura da região, as seguintes medidas:

Os escritores que assinaram a lista de 2004 devem ser declarados pessoas não gratas.

A retirada de todos seus livros das bibliotecas provinciais.

Esses escritores não poderão ser convidados a eventos culturais nem palestras nem seus livros poderão ser comprados por órgãos públicos.

Speranzoni reconhece que ele não possui poder de coerção sobre todos os municípios, mas os que não obedecerem, deverão arcar com as conseqüências. (Quais?)
Estas medidas não pretendem valer apenas para Veneza. O ilustrado assessor de cultura quer que sejam adotadas em todo o Veneto. Se ele tiver sucesso, mais de 4 milhões de habitantes estarão vivendo, como 70 anos antes, o que talvez não seja uma mudança tão radical. Não se estima, ainda, se ele pretende estender a iniciativa a todo o país.

É bom que Speranzoni tenha feito esta advertência, para que fiquemos bem informados: “Não fazemos isto por espírito de vingança”. Ainda bem. Muitos já estávamos pensando erradamente!

Entre os punidos está o ganhador do prêmio Strega, o maior prêmio literário da Itália, Tiziano Scarpa (n. 1963), que o recebeu em 2009, por seu notável livro Stabat Mater, uma deliciosa ambientação barroca de um romance intimista, onde uma órfã internada com as freiras conhece o famoso compositor Antonio Vivaldi. Além de descrever os delicados sentimentos da menina sepultada no convento, Scarpa revive os ambientes místicos da Veneza com uma beleza própria dos clássicos da modernidade.

Também está no Index o grande pensador Giorgio Agamben, um dos que mantêm algumas faíscas acessas naquela névoa que invadiu a outrora riquíssima cultura italiana. Mas há muitos outros da primeira linha do pensamento peninsular atual: Massimo Carlotto, Valerio Evangelisti, Cacucci, Dazieri, Genna, Loredana Lipperini, De Michele, Nanni Balestrini, Vauro, Lello Voce, Raimo, Philopat, Moresco, Quadruppani e muitos outros. Não falta, obviamente, o engenhoso e pitoresco conjunto Wu Ming (os sem nome ou também, os vários nomes, de acordo com o tom do mandarim usado), esse quinteto divertidíssimo de escritores “anônimos” que assinam com seus nomes verdadeiros, e que revolucionaram o estilo literário e comportamental dos escritores. Deles, o Wu Ming 1, Roberto Bui, escreveu também um longo artigo em defesa de Battisti, que foi publicado por Fred Vargas.

Paride Costa, o conselheiro que promoveu a ideia abraçada por Speranzoni não quer ser um intolerante ou um fanático. Para mostrar sua excepcional apertura de espírito, ele adverte que não quer atacar os autores que se distanciaram da lista de apóio a Cesare. Ou seja, se alguém assinou a lista, mas depois se afastou dela, como fez Roberto Saviano, autor de um Best-seller sobre a Camorra, pode ser “perdoado”. Costa, como bom cristão, é sensível ao arrependimento e à humilhação alheia.

Aliás, os defensores da livre opinião não devem desesperar-se. Eles ficarão sem ler algo como 200 grandes escritores, mas poderão ler várias vezes Minha Luta, de Aldolf Hitler, os as memórias de Mussolini, que não serão retirados das prateleiras.

A medida mereceu a rápida adessão de Franco Maccari, líder do sindicato nacional de policiais (COISP), uma das corporações trabalhistas mais poderosas da Europa. Para quem não lembra o artigo em que falei dele, Maccari é aquele que propós a possibilidade de declarar guerra ao Brasil. Maccari vai mais longe que Costa e Speranzoni, e propõe que todos os cidadãos colaborem, e nenhum deles compre livros de nenhum daqueles monstruosos hereges. Maccari é um homem de caráter e não fica só nesse conselho. Propõe reuniões em todos os municípios para informar o público e advertir ao Brasil que Itália não se deixa assustar. Ele considera injusto que Battisti seja chamado de “terrorista”. Mas, é pelos motivos opostos aos nossos. Ele acha que é um simples assassino. Não sei se foi involuntário, mas Maccari teve um ato falho: parece que o termo “terrorista” é elogioso para ele, o que não deveria surpreender. Lamentavelmente, a polícia italiana pratica terrorismo.

Para não demonstrar parcialidade, os novos inquisidores também colocarão no Index os escritores franceses que assinaram aquela lista, ou mesmo os que assinaram uma similar na França. Como disse o Dante: Guai a voi, anime prave; non isperati mai veder lo cielo! “Coitados de vocês, depravados. Nunca verão o paraíso”. Como se percebe, em seguida, os inquisidores estão assanhados: ninguém se salva. Os pais de adolescentes devem tirar da cabeça a idéia de presentear seus filhos com a versão italiana do divertido Lucky Luke contro Pinkerton, de Daniel Pennac.

Pânico dos Liberais

Liberais de centro e até de direita entraram em paranoia, como o prova o assessor de cultura Cosimo Moretti, do Partito Democratico. Claro que ele quer extraditar Battisti, mas chama a esta medida “um delírio” e disse que nos devolverá à Idade Média. A reacionária revista sensacionalista Panorama, também abre espaço para muitos liberais. Por que?

A proposta de Costa, Speranzon e outros mostra o lado realmente inquisitorial e bárbaro da grande vendetta contra Battisti.

Também justifica as afirmações do Brasil de que Battisti corre sérios riscos na Itália.

Como fez notar Massimo Carlotto, ele próprio colocado na lista negra, muitas destas reações “liberais” críticas são fingidas. No fundo, eles tentam se vingar dos escritores progressistas, mas divergem apenas desses métodos brutais, que os coloca em ridículo na frente de quase toda Europa. Segundo o escritor, os escritores proscritos já estão desaparecendo das prateleiras.

Podemos imaginar os linchadores mais lúcidos na intimidade, dizendo: “Accidenti! Agora que precisamos convencer o Brasil de que nossa sociedade é civilizada, estes fascistas idiotas nos metem num novo problema”.

O pior para os linchadores foi que ninguém se retratou. Vários escritores que não tinham assinado, disseram que eles estavam dispostos a qualquer risco para combater o que chamaram “censura imbecil e fascista”. Os que tinham assinado, só aumentaram sua indignação.

A Causa do Conflito

Observemos bem a natureza desta iniciativa. Os inquisidores venezianos não propõem desterrar livros que podem “fazer a cabeça” do povo com idéias subversivas ou marxistas. Aliás, de todos estes autores, apenas alguns escrevem assuntos realmente ideológicos. A maioria escreve romances de diverso tipo, thrillers policiais, literatura de recriação, e até textos para crianças.

Esta censura não se propõe apenas impedir a propaganda de Battisti. Ela vai além: quer punir atravês de suas obras aqueles que se manifestaram apoiando Cesare. Se eles fossem, em vez de escritores, fabricantes de macarrão, os inquisidores exigiriam que ninguém coma massa de sua marca.

De todos os atos descabidos que nos últimos anos foram implementados contra Battisti, este é o mais ilustrativo. Trata-se de uma vingança aberta, sem maquiagem.

Se todos aqueles hereges morassem num pequeno feudo controlado pela Cosa Nostra, seria mais fácil para os inquisidores: poderiam, talvez, matar vários deles. Mas, como na Veneza isso não é tão fácil, tenta-se matar o pensamento.

Imaginamos que a maioria dos magistrados não apoiará esta idéia, mas até o momento de escrever esta matéria (20/01/2011, 15:11) não encontramos nenhuma manifestação na mídia Italiana. Se eles criticam, poderemos ter uma pista de que a justiça italiana não é cúmplice deste rogo medievale.

Entretanto, não pensamos que Cesare Battisti esteja em risco por causa dos juízes. Eles já fizeram seu trabalho. O verdadeiro risco de Cesare são os milhares de funcionários e dignitários sedentos de sangue que sugerem medidas como esta ou outras. Os que, aqui, no Brasis inquisidores mais humanos, mas evitaria um trabalho duplo: lidar com sua perversidade e com sua hipocrisia ao mesmo tempo.

* Carlos A. Lungarzoé professor aposentado da Unicamp e militante da Anistia Internacional
l, tem o extremo cinismo de dizer que Battisti não corre perigo na Itália, deveriam ter, pelo menos uma vez, um mínimo de decência é dizer: “Se ele for linchado, merece!”. Isso não faria nosso

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