sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Rede Brasil Atual: Veja e Globo incitam militares contra Dilma

Um debate entre colunistas de veículos da imprensa convencional promovido na quinta-feira (23) pelo Clube Militar no Rio de Janeiro serviu como reunião de “preparação” dos setores mais conservadores da sociedade brasileira, informa Maurício Thuswohl, da Rede Brasil Atual.

Eles pediram “vigilância” aos militares sobre um eventual governo de Dilma Rousseff (PT), em virtude do que consideram ser ameaças à democracia e à liberdade de expressão. Na opinião dos mensageiros da grande mídia, esses supostos riscos se tornariam mais concretos em caso de vitória da candidata à Presidência Dilma Rousseff, da coligação nas próximas eleições.

Organizado com o apoio do Instituto Millenium sob o tema “A Democracia Ameaçada — Restrições à Liberdade de Expressão”, o debate com os representantes da grande mídia atraiu muito mais público do que a palestra do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, realizada no começo do mês no Clube da Aeronáutica. Participaram do debate os jornalistas Merval Pereira, da Rede Globo, Reinaldo Azevedo, blogueiro e colunista da revista Veja, e Rodolfo Machado Moura, diretor de Assuntos Legais da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Composta em sua maioria por militares da reserva, a plateia ouviu dos debatedores conselhos de prudência e vigilância em relação a um eventual terceiro governo consecutivo de esquerda no Brasil. Entre as “ameaças” citadas, o destaque foi para o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (III PNDH), para as mudanças na produção cultural e para as conferências setoriais realizadas pelo governo Lula.

Segundo Moura, a Abert monitora atualmente cerca de 400 propostas legislativas para o setor de comunicação — e 380 dessas iniciativas são contrárias aos interesses da entidade. O dirigente citou uma série de medidas do governo Lula que “preocuparam a Abert” nos últimos oito anos, como as propostas de criação do Conselho Nacional de Jornalismo e da Agência do Cinema e Áudio Visual (Ancinav), além do PNDH e da realização das conferências setoriais.

Merval Pereira — que disse ter escrito mais de 2 mil colunas nesses oito anos, quase todas contra o PT ou o governo Lula — anunciou o lançamento de um livro com uma coletânea de cerca de 200 artigos seus “sobre o aparelhamento do Estado”, entre outros temas. Porta-voz privilegiado da TV Globo, Merval foi direto ao ponto e decretou o que pensa a emissora da família Marinho: “O Lula e o grupo que o cerca sabem que existe limite para eles. A sociedade já havia dado os limites do PT, e o PT não pode ultrapassar esses limites”.

A mídia como partido de oposição

Fiel ao seu estilo ultradireitista, Reinaldo Azevedo mostrou-se mais duro e até raivoso nas críticas ao ato contra o “golpismo midiático”, realizado na quinta-feira (23) em São Paulo pelos movimentos sociais. Mas, sobre a manifestação no Clube Militar no Rio de Janeiro, foi só elogios. “Quem diria, um sindicato defendendo a censura e o Clube Militar defendendo a democracia. Os senhores — que no passado fizeram a ditadura e deram o golpe — agora querem democracia.”

Na parte mais razoável de seu discurso, Azevedo admitiu que a grande mídia substituiu a oposição mo Brasil. “O Lula, quando diz que a imprensa é o verdadeiro partido de oposição no Brasil, tem razão à sua maneira”, reconhece o blogueiro da Veja. “A oposição nesse tempo foi tão mixuruca, tão despolitizada e tão vagabunda que sobrou para a imprensa não fazer oposição — mas defender o Artigo 5º da Constituição. Não é que exista uma imprensa de direita para um governo de esquerda.”

O Instituto Millenium foi o organizador, em 1º de março deste ano, do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão — um encontro para debater temas semelhantes em São Paulo. Na ocasião, diferentes expoentes da mídia conservadora apresentaram acusações contra o governo Lula, o PT e outros atores sociais. O encontro, na visão de analistas, serviu para organizar a mídia para a cobertura das eleições.

Sem panfleto, ato contra golpismo e baixaria do PiG vira onda

O auditório Vladmir Herzog, no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ficou pequeno para as mais de 500 pessoas que participaram, na quinta (23), do ato "contra o golpismo e a baixaria midiática e pela liberdade de expressão", promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Em meio à muvuca, repórteres da Folha, do Estadão e do SBT, entre outros, acompanharam, sem nenhum tipo de restrição, o ato – que estes mesmos veículos haviam acusado de ser “contra a imprensa”.


Altamiro Borges (Miro), o presidente da Barão, leu o documento “Pela ampla liberdade de expressão” e convidados de movimentos sociais e partidos de esquerda deram o seu recado na atividade. O movimento, que começou na internet e não contou com panfletos de mobilização, se tornou uma onda que não para de crescer na rede.

Entre os golpes midiáticos já promovidos em campanhas eleitorais está o de 2006. Lula disputava a reeleição com folga e tudo indicava que ganharia a disputa já no primeiro turno.

Três dias antes da eleição, em 29 de setembro, o Jornal Nacional então decide omitir a queda do avião da Gol, ocorrida às três e meia da tarde por conta de uma colisão com o jato Legacy, para informar mais um de seus factoides fabricados, especialmente, para as eleições: imagens de uma montanha de dinheiro apreendido das mãos de “aloprados” petistas que pretendiam comprar um suposto dossiê anti-tucanos. Claro que até hoje absolutamente nada foi provado sobre esse factoide muito útil para levar a disputa de 2006 para o segundo turno.

O ato desta quinta alerta para esse tipo de movimentação golpista e baixa, ações já bem conhecidas da mídia, especialmente, em retas finais de eleições em que seu candidato não tem mais chances de vencer.

Em entrevista, Lula não foge da raia e peita os golpistas

Quem achava que o presidente Lula iria ficar intimidado com os constantes ataques --vindos até de aliados-- que o acusam de autoritário por criticar os abusos da imprensa, devem ficar surpresos com o tom aguerrido que o presidente adotou em entrevista ao portal Terra. Lula não fugiu da raia, voltou a apontar os ímpetos golpistas da imprensa a da elite direitista que tentaram derrubá-lo em 2005 e agora voltam a se movimentar para impedir a eleição de Dilma no primeiro turno.

Na entrevista exclusiva dada ao Terra e publicada desde a manhã desta quinta-feira (23), o presidente Luis Inácio Lula da Silva aborda um tema delicado. Ao recordar o ano de 2005 e o chamado "Mensalão", o presidente da República deixa claro que, no seu entender, adversários pensaram em derrubá-lo do poder. À pergunta sobre se teria sido uma "tentativa de golpe", Lula esquiva-se de repetir as expressões "golpe" e "derrubar", mas diz com todas as palavras: "Eles não sabiam da força que eu tinha na rua. Eu reuni o governo aqui e eu disse: "olhe, vocês fiquem aqui porque essa gente vai me enfrentar é na rua (bate na mesa)". Eu não sei se a intenção era essa... não quero tratar isso de forma, eu diria, pequena. Eu acho que eles não foram mais adiante de medo de não saber o que iria acontecer. E acho que não foram mais adiante porque (achavam que) já tinham me desgastado demais".

Se alguma dúvida restar sobre o que quer dizer Lula, e a percepção, ou informações que guardou daqueles dias, leia-se um pouco mais do que disse o presidente na conversa com o Terra: "Eu acho que nós tivemos muita, mas muita, muita dificuldade em 2005. Foi um momento em que os setores conservadores deste País tentaram repetir Getúlio Vargas, tentaram repetir João Goulart, tentaram repetir Juscelino (Kubitschek). Porque mostra-se a parte boa de Juscelino, mas não mostra que diziam: "Juscelino não pode ser presidente", "se for, não pode ganhar, não pode tomar posse" e "se tomar posse, a gente derruba". Era assim que eles falavam!"

Para Lula, imprensa tem candidato e partido

Na conversa exclusiva de uma hora com o Terra no Palácio do Planalto, Lula, provocado, esmiúça o que pensa da mídia e sobre a mídia. Diz que, de alguma forma, o país tem, terá que discutir e legislar - no Congresso, ele ressalva - sobre o assunto. Para definir como percebe o olhar da chamada grande mídia, Lula resume: "Eles têm preconceito, até ódio..."

A ênfase, a contundência no julgamento e comentários quando o tema é este, mídia, são permeadas por gestos e palavras que mostram um presidente da República disposto e pronto para o próximo comício.

Para Lula, críticas à falta de liberdade na área de comunicação, mais do que injustas, não têm sentido. Ele diz duvidar que outros países tenham mais liberdade de informação do que o Brasil: "Nesse momento do Brasil, falar em falta de liberdade de comunicação? Eu duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui. Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo".

O presidente se mostra disposto a um duro embate com setores da mídia: "A verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais".

"No Brasil - foi o Cláudio Lembo que disse isso para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada", cobra Lula.

Caso Erenice

O chamado "Caso Erenice" irrompeu na cena da sucessão presidencial há duas semanas e, há uma semana, levou à queda a Chefe da Casa Civil da presidência da República, Erenice Guerra. Pela primeira vez desde então o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz claramente o que pensa acerca do episódio e dos seus desdobramentos. Nesta segunda parte da entrevista exclusiva ao Terra, Lula avança: "(...)Se alguém acha que pode chegar aqui e se servir, sabe, cai do cavalo. Porque a pessoa pode me enganar um dia, pode me enganar, sabe, mas a pessoa não engana todo mundo todo tempo. E quando acontece, a pessoa perde".

Ainda a respeito do rumoroso assunto, disse Lula: "O que aconteceu com a Erenice é que ela jogou fora uma chance extraordinária de ser uma grande funcionária pública deste País".

O presidente faz ressalvas, no entanto, quanto à extensão das responsabilidades de Erenice Guerra no episódio. Vale-se, para tanto, de metáfora gastronômica. Lembra que "uma feijoada trem trezentas coisas", e que é preciso saber o que é feijão, o que caldo, o que é carne seca... e por ai afora.

O presidente também aponta a revolução que a internet vem provocando na maneira como as pessoas se informam. E anuncia: "...pode ficar certo de que eu serei um internauta vigoroso a partir de 1° de janeiro".

Sobre José Serra, o adversário de sua candidata na eleição presidencial, o presidente comenta: "está hoje na situação em que eu estive nas duas eleições que perdi". E admite que foi muito difícil ser um candidato contra o Plano Real, em 1994.
O que acontece muitas vezes é que uma crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática. Ou seja, como se determinados setores da imprensa estivessem acima de Deus e ninguém pudesse ser criticado. Escreveu está dito, acabou e é sagrado, como se fosse a Bíblia sagrada. Não é verdade. A posição de um presidente é tomada como ser humano, jornalista escreve como ser humano, juiz julga como ser humano. Ou seja, temos um padrão de comportamento e julgamento e, portanto, todos nós estamos à mercê da crítica. No Brasil - , e foi o Cláudio Lembo que disse para o Portal Terra -, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido, que falasse. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes fica explícita no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro. Tiveram assim em outros momentos. Acho que seria mais lógico, mais explícito. Mas, eles preferem fingir que não têm lado e fazem críticas a todas as pessoas que criticam determinados comportamentos e determinadas matérias.

...

Nesse momento do Brasil, falar em falta de liberdade de comunicação....? Nesse momento do Brasil! Eu duvido, duvido. Eu quero até que vocês coloquem em negrito isso aqui: Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo. Agora, a verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse País. A verdade é essa. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais...

Sobre valores democráticos

Eu acho que, sinceramente, as pessoas deveriam olhar para o Brasil e olhar para os outros países. E todo o mundo deveria agradecer a Deus o Brasil ser do jeito que ele é, o Brasil ter o governo que ele tem e ter o povo que tem. Eu lembro que o João Roberto Marinho, quando voltou da eleição do México passada, numa conversa que teve comigo falou: "Ô presidente, eu estava no México e foi de lá que eu aprendi a valorizar a democracia no Brasil. Porque, aqui no Brasil, todo mundo acata o resultado. Lá no México, eu vi um milhão de pessoas na rua contra o resultado eleitoral". Ou seja, aqui no Brasil nós não corremos esse risco. Porque esse País tem um outro jeito de exercitar a democracia. E a democracia ela só será exercitada - vocês estão lembrados que eu dizia quando era líder sindical ainda -, democracia não é o povo ter o direito de gritar que está com fome, democracia é o povo ter direito de comer. Nós estamos chegando lá, estamos chegando lá, então as pessoas, sabe, que talvez tenham problemas ideológicos, problemas de preconceito, ou seja, que não admite que...meus queridos, vejam o que vai acontecer amanhã, sexta-feira; a Bovespa, que tinha ódio de mim, e quando tinha medo de mim ela tinha apenas 11 mil pontos, hoje já chegou a 72 (mil pontos), já chegou a 68 (mil pontos). Ou seja, acima dos 60 mil pontos. E vai exatamente um presidente da República, que tanta gente tinha medo, fazer a maior capitalização da história da humanidade. Ouso dizer: nunca antes na história do planeta Terra houve uma capitalização da magnitude do que vai acontecer na sexta-feira, sabe, com a minha presença.

Sobre a oposição

Eles (a oposição) confundem populismo com popular. Eles não sabem o que é popular porque eles nunca tiveram perto do povo. Essa gente, essa gente que não gosta de mim, na época das eleições até sorri pros pobres, até fazem promessa pros pobres, mas depois das eleições... o pobre passa perto deles um quilômetro. Então, sabe, isso é uma confusão maluca entre o populismo e o popular. O que é o populismo? É um cara, sabe, que não tem nada a ver com ninguém e aparece fazendo promessas, aparece fazendo política demagógica. Não é o nosso caso. Todas as políticas minhas são decididas, Bob... Já foram 72 conferências nacionais, conferências que começam lá no município, vai para o Estado e vem pra cá. Algumas conferências participaram 300 mil pessoas até chegar na conferência nacional. E aí nos decidimos as políticas públicas. Então eles...obviamente eu acho que tem muita gente incomodada e eu não tenho culpa, eu não tenho culpa. Sabe, tirar deles incomodou muita gente no Brasil. A Coroa Portuguesa durante muito tempo ficou incomodada por conta daqueles que diziam que era preciso mudar. Ficaram incomodados até com Dom Pedro quando ele quis mudar. Por que não ficar comigo?

Sobre a reforma política

A reforma política não é uma coisa do presidente da República. A reforma política é uma coisa dos partidos políticos. E do jeito que os partidos se comportam parece que a gente tem um monte de partidos , todos criticando, sabe, a legislação que regulamenta a política no Brasil. Todo mundo quer uma reforma política, mas ninguém mexe. Porque desagrada a muita gente. Então, veja, eu mandei duas propostas de reforma, de coisas que precisariam mudar para poder melhorar a política brasileira e que não foi votado. Nós mandamos, por exemplo, a regulamentação do financiamento de campanha, para acabar com o financiamento privado e ficar com financiamento público, que na minha opinião é a forma mais honesta de se fazer campanha neste País, a fidelidade partidária... porque o que é o ideal? É você ter partido forte para você negociar com partido. Isso faz parte da democracia. Quando você faz coalizão com partido político você estabelece regras nesta coalizão, você partilha um poder com essa coalizão. Agora, do jeito que está é quase que impossível, porque a direção dos partidos não representa mais os partidos. O líder da bancada não representa mais a bancada, ou seja se criou grupos de deputados, grupos por região, grupos...ou seja, e está muito difícil para eles próprios...então, o que eu acho? Quando eu deixar a presidência, eu quero, primeiro dentro do PT, convencer o PT da necessidade de fazer uma reforma política, convencer os partidos da base aliada do governo da necessidade de se fazer uma reforma política neste País pra que a gente não fique com legenda de aluguel, como nós temos agora.

Sobre a eleição de 2010

Fazer o sucessor é uma das prioridades de qualquer governo para dar continuidade a um programa que você acredita que vai acontecer. Imagina se entra no Brasil para governar alguém que resolve querer voltar e privatizar a Petrobrás? (pausa) Onde vai o pré-sal? Ou alguém que resolva não mudar a lei e permitir que a lei do petróleo continue a mesma? A gente sabendo...o contrato de risco é quando a gente corre riscos. Mas quando a gente sabe onde tá bichinho do ouro preto, por que a gente vai fazer contrato de risco? Então, nós temos que se apoderar desta riqueza a bem do povo brasileiro, é um patrimônio do povo, não é um patrimônio da Petrobrás. Então, nós temos medo de que este País sofra um retrocesso. Por isso que eu tenho candidato. Seria inexplicável para a sociedade se eu entrasse numa redoma de vidro e falasse: olha, aconteça o que acontecer nas eleições, o presidente da República não pode dar palpite. Mas nem para escolher o Papa acontece isso.

...O que eu acho extremamente importante é que nesse processo eleitoral, a gente precisa primeiro ter muita cautela. Esse é o momento de um time que está ganhando de dois a zero. O adversário está dando botinada, está chutando no peito, está chutando na canela, o juiz não está apitando falta e nós não podemos perder a cabeça, porque o que eles querem é expulsar alguém do nosso time, para a gente ficar em minoria. Então, agora é muita cautela, vamos fazer troca de passes entre nós, vamos fazer a bola correr. Como dizia o Parreira, quando estava dirigindo o Corinthians, nós vamos ficar dominando a bola, ou seja, o tempo que a gente estiver com a bola é o tempo que a gente não toma gol...

Sobre Erenice Guerra

Eu sempre admito de que muitas vezes tem coisas que você tem que investigar. Agora, porque eu comecei falando da feijoada? Porque a feijoada tem ingredientes, você quando vai na panela de feijoada, você tem o feijão e tem lá trezentas coisas para escolher. O que eu acho é que toda notícia de denúncia ela vem como se fosse uma feijoada. Depois que você faz um processo de investigação, escolhe o que você quer ali, você vai perceber que a quantidade de coisas, você vai perceber o que é cada um. Tem coisa que tem dimensão séria, tem coisa que é boato, especulação, tem coisa que não tem profundidade. Então, qual é o papel de um presidente da República? Ou seja, na hora que você sabe de uma situação dessa, a primeira coisa que você faz é criar uma sindicância interna, ou seja, a CGU, a Casa Civil começa a investigar e a Polícia Federal abre inquérito. A partir desse momento, o presidente da República fecha a boca, certo? Porque, a partir daí, não pode ter mais nenhuma influência do governo no processo de investigação. Quando tiver resultado de todas as pessoas darem depoimento, aí você então comunica a sociedade o que aconteceu de fato e de direito.

Sobre a importância da internet

O povo tem acesso à informação que ele não tinha antes. Hoje, eu acho que a internet joga um papel extraordinário. Eu digo pelos meus filhos.

...Serei um internauta vigoroso a partir do dia 1º de janeiro.

...Acho que o Twitter é uma escravização. Tem gente que acorda duas horas da manhã para ficar tuitando. Tem gente que levanta para falar: ai, acordei, perdi o sono. O que eu tenho a ver com isso? Vai dormir, pô!

... Acho que as pessoas não estão entendendo ainda o que aconteceu na comunicação nesse País. Lá em casa, ninguém compra mais jornal. Em casa, a molecada toda lê o que tiver que ler na internet, em tempo real, sem ter que esperar: "ah, vamos ver o que vai acontecer amanhã ou depois de amanhã". São 68 milhões de brasileiros que acessam a internet. Um quarto das residências brasileiras que já tem computador. A tendência natural é isso crescendo de uma forma tão rápida, que daqui a pouco serão 150 milhões brasileiros... é por isso que o governo se interessou tanto na questão da banda larga. Porque você sabe que no Brasil é assim... todo mundo fala que vai resolver o problema, mas todo mundo só quer cuidar daquilo que tem rentabilidade. Então vamos fazer as coisas no Rio de Janeiro, vamos fazer em São Paulo, nas capitais, cidades grandes, mas quando vai se afastando e não tem rentabilidade, as pessoas não querem. Por exemplo, veja se não fosse o programa Luz Para Todos... ele está custando ao governo federal talvez o investimento de quase R$ 14 bilhões. Que governo doido iria fazer um programa Luz Para Todos se não fosse o meu? Quem das pessoas que governaram esse País estavam preocupadas em levar luz para uma aldeia indígena? Então, nós fizemos um investimento, que é o seguinte: nós já colocamos mais de 1,1 milhão km de fio neste País. Já colocamos 6 milhões de postes neste País. Já colocamos mais de um milhão de transformadores. Às vezes uma ligação custa R$ 10 mil, mesmo assim... muita gente diria: "Lula, você é louco. Gastar R$ 10 mil para atender um cara que está lá não sei onde!". Esse "cara" é tão brasileiro quanto quem mora em Copacabana ou mora na avenida Paulista. Ele tem direitos. E se a iniciativa privada não faz porque não é rentável, o governo tem de fazer. Então, esse "cara" vai ter internet. Daqui a pouco a gente vai ter numa tribo indígena de qualquer lugar deste País um cidadão (bate na mesa simulando um teclado de computador) navegando. Sabe? Vendo o portal Terra...

Sobre o Bolsa Família

Eu acho normal, não fico com raiva quando o cidadão de classe média, seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo ou em Belo Horizonte, tomando seu uísque com os amigos critica o Bolsa Família de assistencialista. Eu acho normal. Ele dá de gorjeta o Bolsa Família. Agora para uma pessoa que está com fome, R$ 100, meu filho... Quando a gente determina que 30% da alimentação escolar tem de ser comprada no local, o que acontece naquele município? Uma revolução!

Sobre José Serra

Eu, para ser muito sincero, poderia dizer para vocês que o Serra está hoje na situação que eu estive nas duas eleições que perdi. O Serra foi candidato contra mim em 2002 quando o povo queria mudança e eu era mudança e ele, situação. Agora, ele quer mudança quando o povo quer continuidade.

Sobre a América Latina

Em 1990, eu tinha perdido as eleições para o (Fernando) Collor, mas eu tinha me convencido que nós tínhamos criado uma força política importante no Brasil. E resolvi propor a convocação de uma reunião de toda a esquerda na América Latina. Tinha regiões em que se discutia muito que a única saída era pela via armada, tinha lugares que começavam a discutir mais fortemente a democracia... O dado concreto é que nós fizemos uma reunião em junho de 1990, no Hotel Danúbio, em São Paulo, eu lembro que era Copa do Mundo, era um sucesso, lembro que a única coisa que unia os argentinos era o Maradona. E lembro de países pequenos que tinham 18 organizações de esquerda, que foram para a reunião. Treze, doze, quatorze. E essas pessoas não conversavam entre si. Ali nós começamos a estabelecer um debate sobre a necessidade das pessoas acreditarem que pela via democrática era possível chegar ao poder. Eu era a prova de que era possível chegar ao poder pelas eleições diretas. Nós criamos o Foro de São Paulo. De lá para cá, todos os países da América Latina e América Central, com exceção de Cuba que já tinha seu regime anterior, chegaram ao poder pela via eleitoral. Todos. O mais recente foi El Salvador, que o Mauricio Funes chegou ao poder. O Evo Morales... você quer bem maior para a Bolívia do que um índio ser presidente da República? Antes era eleita gente que nem sequer falava a língua deles! Eram loiros de olhos azuis. De repente, você elege um companheiro como o Evo Morales, que crescem as reservas, cresce o PIB, cresce a distribuição de renda... Por quê? Porque ele tem vínculo com aquele povo e sabe que tem que cuidar da parte mais pobre. Então, eu acho que houve um avanço excepcional na América Latina. Também acho que a rotatividade no poder é importante. Defendo isso porque acho importante a prática democrática. Se vai ser dois mandatos, três mandatos, quatro mandatos, cinco mandatos... Nenhum americano hoje se queixa do (Franklin) Roosevelt ter sido presidente quatro vezes. Ninguém.

...O maior parceiro comercial do Brasil hoje não é a Europa, não é os Estados Unidos, é a América Latina como um todo. Então o que acontece, nós fizemos um trabalho de diversificar as relações e a América do Sul está se fortalecendo. Quanto tempo você acha que a França conseguiu chegar ao que é, que a Alemanha chegou ao que é? Nós demos passos importantes. A economia chilena cresce, a Argentina cresce, o Uruguai cresce, o Paraguai cresce... Todo mundo está crescendo.

Sobre a crise de 2005

Eu acho que nós tivemos muita, mas muita, muita dificuldade em 2005. Foi um momento em que os setores conservadores deste País tentaram repetir Getúlio Vargas, tentaram repetir João Goulart, tentaram repetir Juscelino (Kubitschek). Porque mostra-se a parte boa de Juscelino, mas não mostra que diziam: "Juscelino não pode ser presidente", "se for, não pode ganhar, não pode tomar posse" e "se tomar posse, a gente derruba". Era assim que eles falavam!
Terra - O senhor compreende hoje, então, que em 2005 havia uma tentativa de golpe?....
Tinha uma diferença... tinha uma diferença... Eles não sabiam da força que eu tinha na rua. Eu reuni o governo aqui e eu disse: "olhe, vocês fiquem aqui porque essa gente vai me enfrentar é na rua (bate na mesa)". Eu não sei se a intenção era essa... não quero tratar isso de forma , eu diria, pequena. Eu acho que eles não foram mais adiante de medo de não saber o que iria acontecer. E acho que não foram mais adiante porque já tinham me desgastado demais.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Para FHC as massas colocam a democracia em risco

Em entrevista a O Estado de S. Paulo, o ex-presidente tucano expõe o temor que a participação popular na política causa em líderes da oposição conservadora, como ele.

Por José Carlos Ruy

O debate político vai deixando cada vez mais claro o udenismo do PSDB, com ênfase no núcleo paulista do tucanato. Um aspecto dele ficou claro na entrevista que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu a O Estado de S. Paulo no domingo (19), onde expõe com clareza seu desprezo contra a massa e, simultaneamente, o temor de uma democratização mais profunda que assegure seu maior protagonismo.


Entre 1945 e 1965 a UDN (União Democrática Nacional) foi o partido do grande capital, dos banqueiros, dos aliados do imperialismo norte-americano e de amplos setores conservadores da classe média.

Seu programa tinha a mesma marca neoliberal do PSDB, se opunha ao desenvolvimento industrial e à incorporação dos trabalhadores à política. Defendia a integração subordinada do Brasil à divisão internacional do trabalho e às ordens do imperialismo norte-americano. Na oposição aos presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart (que lutaram para desenvolver e democratizar o país e afirmar a soberania nacional) a UDN destacou-se em campanhas de mídia movidas à base de denúncias de falcatruas, como as que a oposição promove hoje contra o governo Lula. Elas deram à UDN o mesmo caráter “moralista” que distingue seus atuais descendentes agrupados no PSDB e aqueles que giram em seu entorno.

A UDN foi a responsável direta pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, no clímax de uma campanha que acusava o presidente de estar imerso num “mar de lama”, e pela deposição do presidente João Goulart, em 1964, acusado de montar uma “republica sindicalista”, de corrupção e, também, de comprometer a neutralidade e a imponência do cargo.

O caráter golpista e reacionário da UDN foi reconhecido por Afonso Arinos de Melo Franco que, embora líder daquela agremiação, era um democrata e um homem de bem. “Por trás da luta pela legalidade e contra Getúlio, de quem fui porta-voz, havia” disse ele em uma citação lembrada pela reportagem desta semana em CartaCapital sobre o udenismo dos tucanos, “também, a recusa do partido, militarista e conservador, em aceitar a fatalidade de certas mudanças”.

É contra a “fatalidade” de mudanças semelhantes às que o povo já exigia há mais de meio século, que o tucanato enfeita-se com o traje de vestais puras e honestas e reitera campanhas caluniosas contra o governo Lula e a candidata das forças de esquerda, Dilma Rousseff.

A entrevista de Fernando Henrique Cardoso a O Estado de S. Paulo tem o mérito de expor estes preconceitos antidemocráticos com clareza. Ele acusa Lula de juntar-se ao que “há de pior na cultura do conservadorismo” na política brasileira, quando o presidente aliou-se ao PMDB, o partido formado pelos democratas que lutaram contra a ditadura militar de 1964. Mas omite que ele próprio, FHC, se aliou àqueles que, na ditadura, estavam do outro lado, e apoiavam a perseguição policial contra os democratas, o atual DEM (que já foi Arena, depois PDS, depois PFL, antes de virar DEM).

No modo de ver de FHC não é daqueles herdeiros da perseguição política e da tortura que vem o risco para a democracia, mas... das massas populares. Ele investe contra a “democracia popular” afirmando que “democracia é mais do que ter maioria”, que é conquistada “à força pelas ditas democracias populares. Democracia também é respeito à lei, respeito à Constituição, respeito às minorias e à diversidade. Tudo isso é obscurecido nas democracias populares, onde se entende que, se você tem a maioria, você tem tudo e pode tudo”. Em outro ponto da entrevista, diz ser preciso demonstrar que “o sentimento popular, a incorporação da massa à política e a incorporação social podem conviver com a democracia”.

É preciso decifrar o que ele diz. Ele, que como presidente da República comandou os ataques que desfiguraram a Constituição de 1988, pede respeito à Constituição, às leis, às minorias e à diversidade. Até onde se sabe, no Brasil de hoje não há ameaças à legalidade, exceto o eterno sonho golpista da aliança entre a mídia e o tucanato; o respeito às minorias e à diversidade é manifesto, e qualquer mudança constitucional só pode ser feita alcançando as maiorias qualificadas exigidas pela Carta Magna.

O que aflige FHC, quando fala de “minorias”, “diversidade” e respeito “às leis” é a iminência de um tsunami que vai varrer do cenário setores da oposição e da direita, entre eles parcela significativa do atual núcleo de resistência direitista contra as mudanças, formado justamente pelo PSDB, DEM e PPS.

A ironia é assistir ao ex-presidente campeão de mudanças constitucionais e alterações institucionais clamar por garantias de imobilismo ante a ameaça do “sentimento popular” e da “incorporação da massa à política”.

Ele duvida que as massas populares possam conviver com a democracia. É preciso "ter limites", reclama, mirando a ação do presidente da República que, tendo justamente origem popular, conduz para a massas para avanços que, na opinião do dirigente tucano, são ameaçadores.

Neste ponto FHC revela, em linguagem contemporânea, a mesma oposição udenista contra o protagonismo político do povo e dos trabalhadores. Na década de 1950 muitos udenistas defendiam a adoção do voto qualificado. Um deles, o jornalista Afonso Henriques, um chamado “voto cultural progressivo”: o voto do eleitor meramente alfabetizado valeria um; se ele tivesse diploma do curso primário, valeria dois; se tivesse escolaridade média ou superior incompleto, valeria três; se tivesse diploma do curso superior, valeria quatro.

A contradição que FHC identifica entre “democracia” e “incorporação das massas” tem um sentido excludente e elitista semelhante-. É o udenismo com feição contemporânea que, no dia 3 de outubro, o eleitor brasileiro vai derrotar e alojar no restrito lugar da história, e da política, que corresponde á sua decadente força social.
Fonte: vermelho

sábado, 18 de setembro de 2010

EM DESESPERO, FHC PREGA GOLPE CONTRA “AUTORITARISMO” DE LULA

Demorou. Mas, finalmente, a oposição neoliberal e conservadora liderada pelo PSDB e a mídia, diante da evidência de que os escândalos fabricados não repercutem a seu favor no eleitorado, que continua manifestando a tendência de votar em Dilma Rousseff e dar-lhe a vitória já no primeiro turno, apresentou as suas armas e desvelou seu discurso.

Através de ninguém menos do que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pretenso líder da facção declinante da aliança PSDB-DEM, a oposição propôs com todas as letras um golpe político-jurídico, invocando a defesa da democracia e o combate ao “autoritarismo” do presidente Lula.

FHC não teve pejo de instar a suprema corte do país, o STF: “Acho até que caberia uma consulta ao STF porque, se você não tiver instrumentos para conter essa vontade política, fica perigoso”. FHC foi mais além: “Alguma instância tem de dizer que o presidente está extrapolando e abusando do poder político de maneira contrária aos fundamentos da democracia” (grifos nossos).

O ex-presidente reagia, numa entrevista à Rede Mobiliza, portal de internet da facção de que faz parte, o PSDB, a uma elementar declaração de Lula em comício eleitoral, no qual o presidente conclamou o povo a “extirpar o DEM” da vida política brasileira. Para FHC, Lula agiu como “chefe de facção”e lançou contra o presidente o anátema de “autoritário”, que “quer o poder absoluto”. Comparou-o com o ex-líder fascista italiano Benito Mussolini, no que foi acompanhado por Rodrigo Maia, chefete do DEM, que insinuou uma identidade de Lula com Hitler.

Nada mais natural que na luta político-eleitoral o presidente da República, que é também o líder de uma grande corrente política vitoriosa, de esquerda e centro-esquerda”, exorte a população a “extirpar” pelo voto o partido que encarnou como nenhum outro o conservadorismo, o direitismo e o reacionarismo das classes dominantes brasileiras - o DEM, ex-PFL, herdeiro da Arena, sustentáculo da ditadura militar, e da UDN da oposição a Getúlio Vargas e do golpe contra João Goulart.

Não é segredo para ninguém, no Brasil e mesmo além fronteiras, que se fosse constitucionalmente permitido, Lula venceria com folga uma terceira eleição. E que se não fosse tão estrito no respeito à Carta Magna e ao equilíbrio do processo político, ele teria, com respaldo popular, alterado a seu favor a norma. Porém, agiu com autenticidade democrática, rigor legal e apostou na evolução natural do curso político.

Contudo, não se pode exigir de Lula que dessa postura passasse à de um dirigente político omisso. A popularidade e a autoridade política que adquiriu impuseram-lhe a responsabilidade de conduzir o processo, o que envolveu a escolha da candidata, a articulação da aliança e obrigatoriamente envolve a participação direta da campanha, imprimindo-lhe tom, rumo e orientação.

Nada há de ilegal nem autoritário nisso. O estrebucho de FHC tem outro sentido. Primeiramente, está reagindo à derrota eleitoral do seu candidato, José Serra. Para isso mostra-se disposto a qualquer tipo de aventura, factoide, mentira, fraude e até mesmo golpe. A 15 dias do final da campanha está difícil, pois formou-se uma praticamente irreversível tendência no país de continuidade para seguir mudando, resultante do êxito do governo Lula, tanto mais evidente quando comparado ao desastre a que ele, FHC, levou o país durante o seu (des) governo (1995-2002). E em situações como esta é da natureza humana que se manifestem também patologias nos atores políticos, no caso em tela a inveja.

Mas não é apenas nem principalmente disso que se trata. A pregação golpista de FHC é a reação a uma derrota política estratégica da facção das classes dominantes e do imperialismo que ele representa. O rumo que adotaram, sob sua liderança, sofreu contundente derrota, fracassou por completo e inevitavelmente a resultante política disto é o ocaso dos partidos que concretizaram no parlamento e no governo semelhante orientação.

Passadas as eleições, com a provável vitória de Dilma, haverá ampla reorganização do quadro político, à direita e à esquerda. Protagonistas pessoais e legendas partidárias obrigatoriamente se reciclarão e assumirão novos papeis. É algo a conferir. O que parece certo é que o tempo de FHC, Serra, Bornhausen et caterva acabou. Daí a pregação do golpe via STF.

O Brasil, como qualquer outro país, tem suas peculiaridades políticas e as lideranças e partidos, suas idiossincrasias. Fatos de outras latitudes não vão obrigatoriamente se repetir no país. Mas nunca se deve subestimar que a tentação golpista tem sido frequente nas formas de reagir das classes dominantes e do imperialismo no atual quadro político na América Latina, em que predomina a tendência democrática, popular, progressista e anti-imperialista.

Para citar apenas alguns emblemáticos exemplos, em 2002, na Venezuela, tentaram tirar do poder o presidente Chávez, legitimamente eleito com esmagadora maioria, alegando combater seu “estilo autoritário”; em 2008, o imperialismo e a elite racista e neocolonial boliviana tentaram o “golpe cívico”, contra o indígena Evo Morales e em 2009 consumou-se um “golpe constitucional” em Honduras, em que se mancomunaram o Legislativo e o Judiciário para interditar uma consulta popular sobre emendar ou não a Constituição.

A eleição de Dilma Rousseff abre caminho para a consolidação da democracia, para um maior protagonismo das forças populares e de esquerda, para acumular forças no combate às classes dominantes retrógradas e ao imperialismo. E para sepultar políticos e partidos reacionários, como FHC e seus liderados, o PSDB e o DEM.

PIG Partido da Imprensa Golpista

Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

Presidente Responde as denúncias mentirosas da Revista Veja e ao Jornal pelego Folha de São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante comício de Dilma Rousseff em Campinas neste sábado (18)
Em comício de Dilma, presidente investe contra 'alguns jornais e revistas'.
Setores da imprensa 'não têm coragem de dizer que têm candidato', afirma.

Dois dias após a saída da ex-ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, desgastada por denúncias de tráfico de influência reveladas pela imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez neste sábado (18), durante comício em Campinas (SP), críticas severas ao que classificou como "alguns jornais e revistas que se comportam como partido político".

Em palanque da campanha de Dilma Rousseff à Presidência, Lula recomendou que a candidata não "perca o bom humor" por denúncias.

"Se mantenham tranquilos, porque outra vez, Dilma, nós não vamos derrotar apenas os nossos adversários tucanos. Nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem partido político e não tem coragem de dizer que são partido político, que têm candidato e não têm coragem de dizer que têm candidato, que não são democratas e pensam que são", disse o presidente.

Lula fez referência jocosa à revista semanal "Veja", que publicou no dia 11 a primeira denúncia sobre suposto tráfico de influência na Casa Civil e voltou ao tema na edição deste sábado.

"Eu fico vendo algumas revistas que vão sair na semana, sobretudo uma que não sei o nome dela, parece 'óia', nordestino falaria 'ói' . Ela destila ódio e mentira", afirmou o presidente.

O advogado da "Veja" Alexandre Fidalgo afirmou que as declarações do presidente Lula devem ser comentadas pela assessoria de imprensa do Grupo Abril a partir de segunda-feira.

'Estava com coceira na língua' para falar, diz Lula
Ao início do discurso, Lula disse que estava com “coceira na língua” para falar. “A Dilma pediu para me conter, o presidente do partido pediu pra me conter, mas não vou me conter”, afirmou, seguido por gritos de "fala" do público.

“Estou com muita dúvida em relação ao que falar. Eu preciso ser um homem contido porque sou presidente da República e pelo fato de ser presidente eu preciso medir minhas palavras para que os nossos adversários não inventem coisas a meu respeito”, disse.

Ao longo do discurso vieram as críticas a "determinados setores" da imprensa.

"Tem dia em que determinados setores da imprensa brasileira chegam a ser uma vergonha. Se o dono do jornal lesse o seu jornal ou o dono da revista lesse a sua revista, eles ficariam com vergonha do que estão escrevendo exatamente neste momento. Eles falam em democracia, mas a democracia que eles não se conformam é ver o crescimento da economia. O que eles não se conformam é que um metalúrgico fez mais universidades do que os presidentes elitistas desse país", disse.

Duro nas críticas à imprensa, Lula optou por ironias e provocações nas referências ao PSDB e à candidatura de José Serra à Presidência.

Afirmou que, após eventual vitória de Aloizio Mercadante (PT) para o governo paulista, criaria um "Bolsa Famíia para tucanos não passarem fome em São Paulo".

"Você sabe que tucano come até o próprio filhote, eles são danados. Ninguém tem o bico daquele tamanho para nada. Não há colher que encha aquele bico de comida, então tem que ser um pessoal falador, prometedor. O pessoal está prometendo ate aumentar o salário mínimo", disse Lula, em referência à proposta de Serra de elevar o mínimo a R$ 600.

'Farsa'
O presidente do PT, José Eduardo Dutra, abriu os discursos no comício fazendo duras críticas às denúncias de tráfico de influência na Casa Civil e afirmando que o caso trata-se de uma ‘farsa’ produzida para atingir a campanha.

Ele disse que ‘falsos democratas’ fazem uma campanha ‘insidiosa’ contra o PT e chamou a atenção para a reta final da campanha, apelando para a militância ‘avermelhar’ o país.

Dutra atacou o empresário Rubnei Quícoli, autor de parte das denúncias que culminaram na queda da ministra Erenice Guerra na Casa Civil, citando processos a que ele respondeu na Justiça. "De repente um cabra que foi condenado por fabricar dinheiro falso abre a boca pra falar mal da Dilma e recebe todos os holofotes. É a farsa que estão tentando do construir", atacou, aos gritos, sem citar o nome de Quícoli.

O presidente do PT disse que as denúncias viram manchetes de jornais e vão parar na propaganda eleitoral adversária. "Não adianta a farsa, não adianta armação, não adianta produzir manchete contra nós porque esse mesmo povo que elegeu o Lula vai eleger a primeira mulher presidente da República."

"Dizem que o Lula gosta de palanque, mas eles tem saudade daquele tempo em que o Brasil tinha governantes que gostavam de governar em cima dos tanques", disse. "Queria fazer um apelo a militância do meu partido, nesses dias que faltam, vamos 'avermelhar' Campinas, vamos 'avermelhar' São Paulo, vamos 'avermelhar' o Brasil."

Já esta na hora de se rever a liberdade de imprensa no Brasil, na verdade é a liberdade de vender os interesses da elite e dos conservadores, esta claro nessa campanha que a mídia medíocre brasileira tem um lado ( apoio total e condicional ao candidato tucano a presidência) só tem um jeito de reverter isso levar ao povo acesso a internet e de uma vez por todas fica claro a necessidade de rever os contratos de concessão da época dos governos militares. Chega dessa mídia mentirosa e manipuladora.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Kirchner apoia lei que destina 10% dos lucros aos trabalhadores

As multinacionais brasileiras instaladas na Argentina acenderam o sinal de alerta com a apresentação de um projeto de lei que estabelece a distribuição obrigatória de 10% dos lucros líquidos aos funcionários. O projeto, do deputado peronista Héctor Recalde, advogado da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), é apoiado pela presidente Cristina Kirchner.

Funcionários do gabinete de Recalde confirmaram ao jornal Valor que a proposta será apresentada até segunda-feira. Ela prevê a cobrança de 10% do lucro anual, descontados os investimentos e o pagamento de tributos. De cada 100 pesos recolhidos, 80 serão embolsados pelos empregados da própria empresa, com base em critérios de antiguidade e nível salarial. Ficarão excluídos funcionários que ocupam cargos gerenciais e de diretoria.

Estimular o consumo

De acordo com o projeto, os 20 pesos restantes formarão um "fundo solidário", destinado a financiar programas de incentivo à formalização do trabalho sem carteira assinada. Para o deputado peronista, a proposta beneficiará as próprias companhias, ao estimular o consumo. Ele argumentou que as empresas que decidam reinvestir todos os lucros do ano anterior ficarão livres de pagar a bonificação aos funcionários. "Essa iniciativa não prejudica os empresários. Pelo contrário, ela os beneficia, já que incentiva os empregados a fazer a empresa prosperar", afirmou Recalde.

O governo relutou em apoiar abertamente a proposta. Mas, na semana passada, ela foi defendida por líderes governistas no Congresso e pelo ex-presidente Néstor Kirchner, uma espécie de primeiro-ministro nos bastidores da Casa Rosada.

Capitalistas contra

Coube à patronal União Industrial Argentina (UIA), pelo lado empresarial, fazer o lobby contrário. A entidade considera a fatia do lucro líquido a ser dívida, 10%, excessiva.

Os representantes do capital reagem com irritação e não poupam críticas ao projeto. O presidente da UIA, Héctor Mendez, disse que "a Argentina vai se parecer com Cuba". A entidade protestou ainda contra a série de bloqueios dos sindicatos em cinco fábricas da Siderar, a maior siderúrgica do país, pertencente ao grupo Techint. Os piquetes ameaçaram a produção da Siderar e o abastecimento de aço às montadoras e fabricantes de eletrodomésticos. Ele cobrou que "se ponham limites" à CGT, o que lembra a ofensiva da direita brasileira para criminalizar os movimentos sociais.

Multinacionais brasileiras

Sem pronunciar-se publicamente, por temor a represálias do governo e dos sindicatos, as subsidiárias de companhias brasileiras já manifestaram preocupação às câmaras empresariais e pediram avaliações jurídicas do projeto. A maior crítica é quanto à obrigatoriedade da distribuição de lucros, ao contrário do que ocorre no Brasil, onde o mecanismo de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) costuma ser acertado como parte das negociações salariais com os sindicatos. No início do ano, o Ministério da Justiça brasileiro chegou a elaborar projeto de lei que estabelecia a divisão de 5% do lucro líquido.

Outra queixa dos brasileiros é que, pela proposta de Recalde, não se pode condicionar essa bonificação a metas para melhorar resultados. Se o lucro da empresa cair pela metade, de um ano para outro, ela continuará tendo que distribuí-lo - independentemente de uma queda das vendas ou da produção.

Pressão sindical

"O que se vive aqui hoje é pior do que o sindicalismo mais duro dos anos 70 e 80 no ABC paulista", diz o presidente de uma indústria brasileira de calçados instalada na Argentina. "A pressão de custos está muito forte", acrescenta o diretor de outra empresa, líder em seu segmento, que parece estar chorando de barriga cheia, pois fechou o primeiro semestre com nível de produção recorde e aumento do lucro em relação ao ano passado. O problema, segundo ele, é que houve reajustes salariais de até 29%. Na empresa calçadista, a negociação recém-fechada com o sindicato foi para uma alta de 39% nos salários.

Apesar das reclamações do setor privado, a distribuição obrigatória de lucros tem amparo constitucional, adverte o advogado Héctor Rossi, sócio do escritório portenho Rossi Camilion e Associados, que atende uma série de empresas brasileiras. A participação dos trabalhadores nos resultados das companhias foi incluída na Constituição da Argentina em 1957, durante o regime militar da época, dois anos após a queda do primeiro governo do general Juan Domingo Perón. "A questão é que, desde então, e já se passaram 53 anos, esse direito constitucional nunca foi regulamentado", disse Rossi ao Valor.

Sindicalistas e autoridades do governo Kirchner que apoiam o projeto argumentam que a distribuição dos lucros vai aumentar a renda da classe trabalhadora e impulsionar o consumo popular, fortalecendo o mercado interno e estimulando, por este meio, o crescimento da economia. Os investimentos também tendem a aumentar na medida em que a nova lei prevê que os lucros destinados a investimentos não serão objeto de distribuição aos trabalhadores.

As regras eleitorais e a mídia

“O PT não cresceu porque ganhou 'espaço na mídia', mas, ao contrário, ganhou espaço (impôs) porque cresceu e se tornou o partido das massas trabalhadoras da cidade e do campo em todo o país. O PT ganhou os sindicatos, fundou a CUT.”

No dia 21 de agosto, o PCO propôs ao PSTU, PCB e PSOL realizar um Debate via Internet entre os seus candidatos a presidente. O motivo é denunciar que seus candidatos “sequer ocupam 1% das imagens e informações que a imprensa nacional – totalmente a serviço das candidaduras patronais - formula sobre as eleições 2010” e fazer campanha, naturalmente. Onde se lê “candidaturas patronais” leia-se - é óbvio para o PCO - candidaturas Dilma, Serra e Marina.

O PCB e o PSTU toparam. O PSOL não apareceu na reunião e o jornal Brasil de Fato vai mediar o debate, em 21 de setembro, via Internet.

Que a mídia é patronal não se discute. Mas, seria esta a razão, a falta de espaço na mídia, para que todos eles tenham apenas traço nas pesquisas?

Afinal, Zé Maria está de quatro em quatro anos falando em rede nacional para supostamente milhões de telespectadores. Pouco tempo, mas é algum tempo para dizer algo. O problema é somar o pouco tempo de TV e rádio com sua política em relação ao partido e ao governo que as massas reconhecem como seu. Isto é mortal.

Esta questão tem importância política e é bastante educativa.

O fato é que a legislação eleitoral está feita para despolitizar as eleições, esterilizando todo debate político. A legislação permite às emissoras de TV realizar debates convidando obrigatoriamente apenas os partidos que tenham parlamentares no Congresso Nacional.

Aliás, a revogação desta legislação reacionária é parte das tarefas de uma Constituinte Soberana para refazer o país segundo os interesses democráticos do povo trabalhador.

Este debate não vai, entretanto, substituir o enraizamento nas massas que estes partidos não têm. E eles devem saber disso. Trata-se de uma questão política da maior importância.

Todos eles consideram que o PT é um partido burguês ou “de direita” como dizem, e que o governo Lula é um governo burguês como qualquer outro. E eles são o partido revolucionário em construção e seu programa socialista correto atrairá as massas em determinado momento.

Esta política os isola das massas de milhões de operários. Os impede de compreender o significado e sentido do amplo apoio das massas e dos trabalhadores ao PT e suas candidaturas. Isto os impede de adotar uma tática que ajude as massas a romper com as ilusões nas direções reformistas.

A insistência no “pouco espaço na mídia” tem este sentido. Afinal, acreditam que se tivessem bastante tempo o povo todo conheceria suas idéias e seguramente aderiria ao partido revolucionário.

O PCB foi um partido de massas em 1946. E não porque tivesse mídia da burguesia, mas porque estava enraizado na classe trabalhadora. O PT não cresceu porque ganhou “espaço na mídia”, mas, ao contrário, ganhou espaço (impôs) porque cresceu e se tornou o partido das massas trabalhadoras da cidade e do campo em todo o país. O PT ganhou os sindicatos, fundou a CUT. Mas o PT se construiu desta maneira porque nos anos 70 e 80 não havia um partido operário de massas. Hoje ele existe e não se pode superá-lo por uma boa proclamação.

Hoje o PT é o “seu” partido para milhões de operários e jovens, apesar da política reformista pró-capitalista da maioria da direção do partido.

Os trabalhadores defendem e buscam utilizar as organizações que construíram com sua luta. E isto mesmo muito tempo depois destas organizações já não serem mais o que eram. Os operários tentarão utilizar o PT para sua luta de classe contra a burguesia até que grandes acontecimentos lhes ensinem que isto não é mais possível. Só aí eles buscarão outro caminho.

Deste ponto de vista o PCdoB é mais atento. Mesmo tendo um peso político e estrutura muito maior que o PCB, PSTU, PCO e PSOL, o PCdoB não se atreve a lançar um candidato a presidente para aparecer aos olhos das massas como “adversário” de Lula e do PT.

A construção do partido revolucionário é uma tarefa paciente e que envolve ciência e arte. É preciso estar junto da classe para ganhá-la para o programa da revolução. Isto significa, hoje, estar no partido que elas consideram como seu e ajudá-la, em seu próprio movimento, a superar as próprias ilusões nos seus dirigentes reformistas, que se negam a romper com a burguesia e a lutar pelo socialismo. A condição para isso é combater abertamente pelo programa em todas as situações.

Hoje, a síntese do combate para que a classe trabalhadora supere suas ilusões está na exigência que a Esquerda Marxista lança ao governo Lula e à direção do PT: Rompam com a burguesia, constituam um Governo Socialista dos Trabalhadores!

Este é o caminho para as massas trabalhadoras.

Eduardo Guimarães: o striptease da grande imprensa

A imprensa tem dedicado um espaço ridiculamente pequeno ao fato mais espantoso desta campanha eleitoral — um fato que as pesquisas de intenção de voto escancaram vez após outra: o eleitorado parece que pretende eleger mesmo Dilma Rousseff para o cargo de presidente da República. E em primeiro turno.

Qualquer um que preste atenção à política, por menos que seja, fica espantado com esse fato, admitindo ou não. A eleição da candidata do PT, se ocorrer, será, acima de tudo – até dos seus adversários diretos na disputa eleitoral –, contra a vontade da grande imprensa brasileira.

A bem da clareza, o autor destas mal traçadas linhas deve esclarecer o que entende por “grande imprensa”. A rigor, são os principais jornais, revistas e meios de comunicação eletrônicos (rádio, tevê e internet).

Mas por que esse fenômeno só ocorre em relação à “grande” imprensa? Afinal de contas, blogs, sites, rádios, tevês comunitárias – e até comerciais –, jornais e revistas de menor porte vêm ganhando cada vez mais credibilidade entre o seu público.

A escassez de explicações da grande imprensa para o fenômeno de ter suas recomendações eleitorais subliminares ignoradas deixa ver, antes de mais nada, um destaque ridiculamente tímido para um fato escandalosamente evidente, o que esclarece por que cada vez menos gente lhe dá crédito, sobretudo quando o assunto é política.

E quando tais explicações aparecem, vêm revestidas da mais pura conversa mole para boi dormir. Colunistas, editorialistas, analistas, articulistas, âncoras de telejornais e assemelhados que figuram na folha de pagamento desses grandes meios de comunicação, desandaram a insultar a sociedade por esta não lhes estar seguindo as orientações eleitorais.

Talvez devessem ser (ainda mais) explícitos quanto à mensagem que desejam passar ao público. Pelo menos é o que parecem pensar esses “formadores de opinião” ao irem aumentado – em vez de diminuir – a aplicação de uma medicina que julgam adequada à desinformação ou à debilidade moral de que pensam que padece a sociedade ao não pretender votar majoritariamente em José Serra.

A grande imprensa, porém, está mais para traficante do que para médico. Não se dá conta de que a droga que vem inoculando no eleitorado, a doses cada vez maiores e mais freqüentes, como toda droga vai fazendo efeito cada vez menor com o passar do tempo, simplesmente porque o paciente acaba criando resistência, ou anticorpos.

Os poucos cidadãos que visitam tão profundamente a grande imprensa a ponto de encontrarem nela explicações para o seu insucesso em convencer os brasileiros a votarem no candidato do PSDB a presidente, só encontram insultos como o de que não entenderam as denúncias que visam a candidata do PT por terem “baixa escolaridade”, ou o de que preferem se vender aos badulaques que este governo lhes permite comprar a votarem no “super-ético” e “ultra-competente” candidato tucano.

Então vale a pena verificar a última pesquisa Datafolha, publicada hoje (16 de setembro) em um dos braços dessa “grande imprensa”, no jornal Folha de São Paulo. Por essa pesquisa, Dilma Rousseff tem 51% das intenções de voto e Serra, 27%. Depois das novas denúncias, a petista subiu um ponto percentual e o tucano ficou onde estava.

Sobre esse dado, os “formadores de opinião” dizem que se deve ao “fato” de que são todos ignorantes subornados pelo Bolsa Família. Todavia, lendo um pouco mais a pesquisa, percebe-se que não é bem assim.

Entre os que têm nível superior de instrução, a taxa de intenção de votos de Dilma fica em 46% (contra os 51%no cômputo geral). Serra vai a 33% e Marina oscila para 14%. Ou seja, a maioria absoluta dos mais instruídos e informados não deu a menor bola para o que a grande imprensa vem tentando lhe vender.

Dos eleitores que essa imprensa considera aptos a votar por terem curso superior e que não vão mais votar em Dilma– e que, antes da campanha de denúncias pré-eleitorais contra a petista, afirmavam que pretendiam votar nela –, menos de 10% se deixaram seduzir pelo canto da sereia midiático.

Dizer que só os formados que pretendem votar em Serra foram capazes de compreender as denúncias, é palhaçada. A maioria dos que têm curso superior pretende votar em Dilma porque que não está dando a menor bola para as denúncias da grande imprensa, e não dá bola porque é justamente aquele cidadão mais informado, educado e atento que tem como perceber as manipulações, os favorecimentos escandalosos a Serra.

Algumas das muitas perguntas que a elite intelectual do país se faz sobre o noticiário:

  • Será que é tudo perfeito em São Paulo a ponto de a imprensa não destacar praticamente nenhum aspecto negativo dos governos Serra no Estado e na capital paulista?
  • Por que grandes tevês, rádios, jornais, revistas e portais de internet dão destaque às denúncias da Veja contra Dilma e escondem as denúncias da CartaCapital contra Serra?
  • Por que tantas denúncias exatamente quando Dilma dispara nas pesquisas?
  • Por que o PT sempre sofre acusações às vésperas de eleições?
  • São questões básicas que as pessoas se fazem enquanto se indignam com as acusações da grande imprensa de que só os ignorantes e desinformados pretendem votar em Dilma.
Pessoas preparadas, informadas, que estão a par de todos os fatos, sentem-se esbofeteadas e impotentes, pois algumas tomam iniciativa de escrever a jornais, por exemplo, para rebaterem essas mentiras, mas são sumariamente barradas, pois os espaços para cartas de leitores, nos jornais e revistas aliados de Serra, são dedicados, quase que exclusivamente, aos eleitores do tucano.

A grande imprensa vai censurando cada fato ou opinião de que não gosta diante da visão arguta do eleitorado mais escolarizado. Por conta disso, as intermináveis denúncias pré-eleitorais contra Dilma vêm produzindo efeito apenas entre uma escassa minoria entre os mais informados e instruídos. Uma minoria que se guia por preconceitos e não pela razão.

Deixar de votar numa candidata que representa tanto a continuidade que desejam brasileiros dos quatro cantos do país, dos dois gêneros, de todos os estratos sociais – com exceção dos mais ricos, que nem sempre são os mais instruídos e informados –, de todas as faixas de escolaridade e de todas as faixas etárias, só com provas.

Não se pode punir alguém por conta de acusações sem provas, ainda mais se feitas por seus inimigos políticos. Deixar de votar na candidata de Lula seria uma punição antecipada e irreversível. Portanto, injusta. É simples assim. E é por isso que ninguém está formando a opinião que a grande imprensa quer – porque não acredita nela.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Maria Inês Nassif: O avanço de Dilma no reduto tucano

Por Maria Inês Nassif*


O avanço de Dilma Rousseff, a candidata do PT à Presidência, no reduto tucano paulista, é um dado muito delicado para o grupo de José Serra dentro do PSDB. O partido nacional não se sairá bem das eleições de outubro, mas o tucanato paulista estará em maus lençóis mesmo que ganhe as eleições para o governo do estado.

Em São Paulo, a candidata do PT já tem votos para suplantar seu adversário tucano. Isso significa que Dilma conseguiu furar o bloqueio de uma forte rejeição petista no estado, que tem garantido eleições sucessivas de candidatos do PSDB ou apoiados pelos tucanos, no momento em que as lideranças nacionais do PSDB paulista declinam. Para o PT, este é um acontecimento.

Mário Covas, que foi o grande articulador da criação do partido e o único elemento agregador desse núcleo original do PSDB, faleceu em 2001. Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente duas vezes na onda do Plano Real e de uma ideia genérica de “Brasil moderno” trazido pela hegemonia liberal, do qual acabou se tornando o grande artífice no país, com a inestimável ajuda do eleitorado conservador paulista, dos votos conservadores da região Sul e dos grotões sob a influência do PFL no Nordeste e no Norte. Saiu do governo desgastado por sucessivas crises econômicas e não assumiu qualquer papel de liderança interna. Se as pesquisas se confirmarem, José Serra perderá, já no primeiro turno, para Dilma Rousseff.

Sem líderes, PSDB ficará muito parecido com PMDB

O grupo serrista tinha forte influência sobre o partido nacional e assumiu as rédeas do PSDB estadual, até então sob a órbita de influência do herdeiro de Covas, Geraldo Alckmin, um político de prestígio regional, mas afeito à política tradicional de alianças com chefes políticos locais. A máquina tucana no estado foi montada por Alckmin; o chefe da Casa Civil de Serra, Aloysio Nunes, trabalhou muito para cooptá-la. O fato, no entanto, é que Alckmin ainda tem mais votos no estado do que Serra.

Houve, portanto, um movimento claro do governador José Serra para assumir a liderança regional do partido, ao mesmo tempo em que mantinha forte influência sobre o partido nacional, apesar de emersões episódicas do governador de Minas, Aécio Neves.

Enquanto tinha o governo estadual e era tido como o preferido nas eleições presidenciais, o candidato tucano a presidente se manteve no controle das duas máquinas partidárias — a paulista e a nacional.

Se perder a eleição, Serra acumulará duas derrotas nas eleições presidenciais — foi candidato em 2002 e perdeu para Lula; é candidato em 2010 e pode perder para a candidata de Lula, num partido que depende desesperadamente de uma vitória para manter o nariz para fora da água. Está sendo cristianizado pelos candidatos tucanos ao governo e ao Senado quase no país inteiro. Dificilmente conseguirá se manter como liderança nacional sem cargo político e sem aliados internos de peso.

Além disso, apesar das aparências, manteve-se em rota de colisão constante com o DEM. Uma estratégia de articulação oposicionista, no caso de vitória de Dilma Rousseff, tem poucas chances de ter o ex-governador como elemento de coesão — interna ou com aliados.

Por força do seu estilo, e das disputas locais, o candidato a governador tucano no estado, Geraldo Alckmin, jamais alçou voos nacionais. Não se pode dizer que os grupos de Serra e de FHC tenham facilitado a vida de Alckmin, mesmo quando ele foi candidato à Presidência, em 2006. Alckmin entra pela porta da sala na política estadual; tem acesso apenas à porta da cozinha na política nacional. Se vencer a eleição, ele deterá o controle da maior parcela de um PSDB em crise. É duvidoso que consiga, no entanto, ser convidado para entrar na sala de visitas da cúpula nacional.

O PSDB, que sempre sobreviveu como partido de quadros, está com severos problemas — de quadros. Ao longo de sua existência, o partido se manteve em torno de personalidades que se desgastaram politicamente com o passar dos anos, ou estão velhas, ou morreram. A exceção é o governador Aécio Neves, uma geração abaixo da do grupo original e que, por manobras de Serra ou por esperteza, guardou-se do desgaste que o embate com um governo altamente popular traria e retirou a sua pré-candidatura a presidente da República.

São Paulo deve ainda contribuir fortemente para a bancada federal do PSDB, mas, sem líderes que sustentem essa hegemonia, o partido deve ficar muito parecido com o PMDB: cada um cuida de seus interesses eleitorais e todos brigam pelo controle regional porque isso facilita o trânsito de suas necessidades imediatas. Se Aécio não assumir o papel de líder nacional, já que chegará ao Senado com uma votação avassaladora, o PSDB estará condenado a ser uma federação de partidos regionais, a exemplo da legenda de Michel Temer.

Para o diretor da Sensus, Ricardo Guedes, a eleição foi definida, em favor de Dilma, no momento em que Serra alcançou 40% de rejeição. Do penúltimo CNT/Sensus, coletado de 31 de junho a 2 de agosto, para o último, feito de 20 a 22 de agosto, Serra passou de cerca de 30% de rejeição para 40%. Isso torna qualquer candidatura inviável, segundo Guedes.

Para Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, Dilma tem grandes chances de vencer no primeiro turno porque o período de propaganda eleitoral gratuita tem sido absolutamente eficiente no trabalho de associação entre ela e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A campanha no rádio e na televisão tem servido mais como informação a um eleitor pré-disposto a votar na continuidade do que propriamente como instrumento de captação de votos.

Conforme se torna conhecida como a candidata de Lula, Dilma consolida posição. A rejeição a Serra, na opinião de Coimbra, é grande, mas decorrência da definição de voto por Dilma. Por essa razão, Coimbra duvida da eficiência da campanha negativa de Serra.

Boni: acordo Globo/Time-Life foi ilegal

Assunto explosivo, ocultado pela mídia, o acordo Globo/Time-Life foi tratado como "totalmente ilegal" por um dos principais executivos da empresa, o Boni. Reproduzo a matéria do Portal Imprensa:


O emblemático acordo Globo Time-Life, que até hoje é discutido como um dos pontos mais sensíveis da televisão brasileira, é avaliado, mais de 40 anos depois, por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni: "O acordo era totalmente ilegal, no meu ponto de vista. O pessoal do Time-Life era muito responsável e eles tinham ordem de não passar perto da redação para não contaminar o conteúdo, mas de acordo com a legislação brasileira, era ilegal. Era um acordo de assistência técnica: eles construíram o prédio da TV Globo que pagava um aluguel exorbitante, mais ou menos o que acontece hoje com a Record e a Igreja [Universal do Reino de Deus]", avalia o ex-diretor da Globo à revista Imprensa em entrevista exclusiva para a edição de setembro (nº 260).

A polêmica é antiga. Logo que Roberto Marinho adquiriu a concessão da TV Globo em, 1962, selou uma parceria com o grupo de mídia americano Time-Life. O acordo garantiu à Globo um capital de milhões de dólares para compra de equipamentos e construção da emissora; à Time-Life, cabia uma participação nos lucros da empresa.

Dois meses depois da inauguração da Globo, em 1965, a relação das empresas foi denunciada como ilegal. A participação estrangeira em empresas nacionais não era permitida na época. Além disso, a presença do consultor do Time-Life, Joe Wallach que atuava na Globo, levantou dúvidas sobre a influência do grupo no conteúdo e nas decisões estratégicas da emissora.

"Os funcionários [da Globo] sabiam da presença do Time-Life, que trouxe vários profissionais, como o Joe Wallach, que é muito importante na história da Globo. O Joe estava preocupado com a empresa e deu essa estrutura básica", explica Boni. Em 1970, Joe Wallach optou por sair do Time-Life e ficou exclusivamente na Globo, como diretor-executivo.

Em outubro de 1967, o consultor-geral da República Adroaldo Mesquita da Costa considerou que não havia uma sociedade entre as duas empresas, parecer que deixava a situação da Rede Globo legal no país. Em 1971, o acordo entre as empresas foi desfeito.