terça-feira, 27 de abril de 2010

Há insultos e baixarias de todos os lados, mas o PSDB montou um esquema na internet que inclui a ação de hackers e a propagação de calúnias variadas

por Leandro Fortes


N a manhã da segunda-feira 19, o publicitário Marcelo Branco, contratado para coordenar a campanha de Dilma Rousseff na internet, não sabia, mas estava prestes a encarnar o papel de Davi. Na noite do mesmo dia, menos de 24 horas depois de colocar no ar um jingle para comemorar 45 anos de existência muito semelhante ao slogan de campanha do PSDB, a Globo iria capitular a um movimento iniciado justamente por uma mensagem postada por Branco no Twitter, o microblog que se tornou febre no mundo. “Jingle de comemoração dos 45 anos da TV Globo embute, de forma disfarçada, propaganda pró-José Serra”, avisou o tuiteiro, antes das 10 da manhã. Poucas horas depois, o comercial estava fora do ar.

“O Golias piscou”, comemorou, em seu blog pessoal, o Tijolaço.com, o deputado Brizola Neto (PDT-RJ), herdeiro político do avô, o ex-governador do Rio Leo­nel Brizola, que lutou até morrer, em 2004, contra o poder da família Marinho. O pedetista fez mais barulho, inexplicavelmente, do que o PT. Isso porque, com o Twitter de Branco, os petistas venceram a primeira batalha da guerra que se anuncia, sem quartel e sem trégua, na internet durante a campanha eleitoral. Até o departamento jurídico da emissora entrou em campo para precipitar o fim da campanha publicitária. Segundo Ricardo Noblat, jornalista da casa, advogados da empresa consultaram o futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ricardo Lewandovski, e chegaram à conclusão de que o melhor era interromper a exibição do comercial.

O desfecho da história ilustra bem como vão funcionar estratégias montadas por todos os partidos, mas, sobretudo, entre petistas e tucanos, cujos alvos são as chamadas redes sociais da internet (Twitter, Orkut, Facebook e YouTube), que acumulam cerca de 60 milhões de usuários. Com o auxílio de especialistas, a rede tem sido mapeada de forma a estabelecer modelos de comportamento e de perfil dos usuários. Isso inclui análise permanente dos blogs, a partir de referências positivas, negativas­ e neutras. Tudo organizado e transformado em relatórios quase diários para os comandos das campanhas.

No caso do PT, os assessores dizem pretender usar a web para disseminar o verdadeiro currículo de Dilma Rousseff, em contraposição à famosa ficha falsa do Dops, veiculada primeiramente pela Folha de S.Paulo, depois de circular por sites de extrema-direita e inundar, em forma de spam, e-mails por todo o País. A ideia é mostrar, por exemplo, que a ex-ministra nunca participou diretamente da luta armada, nunca foi terrorista e foi condenada pelos tribunais da ditadura por crime de “subversão”, a dois anos de cadeia – embora tenha sido esquecida na prisão, onde ficou por três anos. De resto, subversivos eram considerados todos que contestavam a legitimidade do regime ditatorial, entre eles José Serra e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A estratégia da campanha virtual está a cargo da Pepper Comunicação Interativa, da publicitária brasiliense Danielle Fonteles, pela qual Branco foi contratado, por indicação pessoal da pré-candidata petista.

Quem cuida do conteúdo de internet para o PSDB é Arnon de Mello, filho do ex-presidente, atual senador e aliado recente de Lula, Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Arnon é um dos donos da ­Loops Mobilização Social e se apresenta como economista formado pela Universidade de Chicago e mestrado em Harvard, diretor do jornal Gazeta de Alagoas e funcionário do banco americano Lehman Brothers, epicentro da mais grave crise econômica mundial desde o crack de 1929. Um de seus sócios é João Falcão, ex-secretário de Cultura de Olinda (PE), filho de Joaquim Falcão, ex-diretor da Fundação Roberto Marinho e ex-integrante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Falcão pai também é um dos autores do livro Dr. Roberto, de 2005, uma biografia autorizada do falecido fundador das Organizações Globo.

A Loops foi a responsável, na internet, pela campanha do deputado Fernando Gabeira (PV) à prefeitura do Rio de Janeiro, em 2008. Gabeira acabou derrotado pelo atual prefeito, Eduardo Paes,­ do PMDB. O parlamentar verde, contudo, deverá contratá-la outra vez, desta feita para a campanha ao governo estadual. Por enquanto, a Loops se dedicará à captação de doações e ao monitoramento de informações divulgadas na internet sobre Serra, sobretudo, às que circulam no ambiente das redes sociais. A empresa não terá plena autonomia na campanha tucana. Estará subordinada à agência de publicidade digital Sinc, do empresário paulista Sérgio Caruso, ligado ao publicitário José Roberto Vieira da Costa, o Bob, homem de confiança do ex-governador. O nome de Caruso foi avalizado pelo ex-deputado do PSDB e atual presidente da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), Márcio Fortes, um dos responsáveis pela arrecadação de fundos no comitê serrista.

O PSDB ainda mantém outras frentes na internet. Participam da tropa virtual as empresas Knowtec e Talk Interactive. A primeira, com sede em Florianópolis, tem uma longa lista de serviços prestados ao antigo PFL, atual DEM, por meio de uma ligação histórica com o ex-senador Jorge Bornhausen. Em Brasília, tem como cliente a Confederação Nacional de Agricultura, presidida pela senadora Kátia Abreu. Quando o PFL mudou de nome em 2007, o novo portal do partido na internet foi montado pela Knowtec.

As duas empresas são administradas pelo mesmo executivo, o engenheiro Luiz Alberto Ferla. Ex-presidente do PFL Jovem e atual conselheiro político da Juventude DEM, Ferla está à frente do Instituto de Estudos Avançados (IEA) de Florianópolis, ONG dona de um contrato de 4,6 milhões de reais com a prefeitura de São Paulo assinado sem licitação. O contrato prevê uma consultoria voltada à reformulação do portal de notícias da prefeitura paulistana, obra que, no fim das contas, saiu por cerca de 500 mil reais. Após o contrato vir a público, o prefeito Gilberto Kassab decidiu cancelá-lo.

A Knowtec foi a primeira empresa brasileira a ir aos Estados Unidos, no ano passado, em nome dos tucanos, para tentar contratar os marqueteiros virtuais que fizeram sucesso na campanha do presidente democrata Barack Obama. Joe Rospars, da Blue State Digital, e Scott Goodstein, da Revolution Messaging, acabaram, porém, por fazer uma opção ideológica. Preferiram negociar com a Pepper, de Brasília, para então fechar um contrato de consultoria para o PT. Alegaram não trabalhar em campanhas de partidos conservadores. Desde então, a dupla tem aparecido na capital federal para opinar na estrutura de internet da candidatura petista. Em 2008, Rospars e Goodstein conseguiram que Obama arrecadasse, via internet, 750 milhões de dólares, por meio de 31 milhões de doadores (93% doaram até cem dólares).

Tudo indica que os marqueteiros de Obama se livraram de uma fria. A Knowtec está entre as companhias de tecnologia de informática investigadas pelo Ministério Público Federal no escândalo de corrupção do Distrito Federal. Em 1º de outubro de 2008, quando ainda era o orgulho do DEM e cotado para vice na chapa de Serra, o ex-governador José Roberto Arruda assinou com a Knowtec, via Secretaria de Comunicação Social, um contrato de 8,7 milhões de reais. A função da empresa era cuidar do portal de notícias do governo.
Os responsáveis pelo contrato foram os jornalistas Weligton Moraes e Omésio Pontes, assessores diretos de Arruda na área de Comunicação. A dupla foi flagrada alegremente no festival de propinas filmado pelo delator Durval Barbosa. Moraes, chefe do esquema de publicidade do governo distrital, foi preso por participar da tentativa de suborno de uma testemunha do caso. Ficou 60 dias no presídio da Papuda, até ser solto recentemente. Pode ser o próximo a fechar acordo de delação premiada com a Polícia Federal.
De acordo com documentos levantados por CartaCapital no sistema de acompanhamento de gastos do Distrito Federal, apesar de o contrato ter sido de 8,7 milhões de reais, a Knowtec já embolsou 12,6 milhões. Como o prazo final do contrato é somente em 1º de outubro de 2010, é possível que a empresa ainda receba mais dinheiro nos próximos seis meses. Segundo dados do Siggo, há ao menos uma nota de empenho ainda pendente, no valor de 700 mil reais.

Loops, Sinc, Knowtec e Talk Interactive formam a parte visível da estratégia de campanha virtual do PSDB, mas há um fator invisível que, antes mesmo de ter se tornado efetivo, virou um problema. E atende pelo nome de Eduardo Graeff. Atual tesoureiro nacional do PSDB, Graeff é um tucano intimamente ligado ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi secretário-geral no Palácio do Planalto e para quem, até hoje, redige discursos e artigos. Também é muito ligado a Eduardo Jorge, a quem sucedeu na Secretaria-Geral da Presidência. Os dois estão na origem da desastrosa reunião de apoio político, realizada no apartamento de FHC, em março, entre o ex-presidente e o ex-governador Joaquim Roriz, causa de grande constrangimento na campanha de Serra.

No ano passado, Graeff ficou responsável pela montagem de um núcleo interno com vistas a elaborar um projeto de campanha virtual para as eleições de 2010. O tesoureiro foi escolhido por ser espécie de guru da web no ninho tucano, graças a um site mantido por ele, desde 2003, o “eagora” – que tanto pode ser interpretado como “Ágora eletrônica” como pelo sentido da pergunta “e agora?”, segundo informações da página na internet.

Graeff organizou um grupo de tuiteiros e blogueiros para inserir mensagens na rede social da internet, inicialmente com conteúdo partidário a favor da candidatura de Serra. A realidade, no entanto, tem sido outra. Em vez de militantes tucanos formais, a rede de Graeff virou um ninho de brucutus que preferem palavrões, baixarias e frases feitas a qualquer tipo de debate civilizado. O objetivo dessa turma é espalhar insultos ou replicar mentiras na rede mundial de ­computadores. Não que do lado petista não prolifere um pessoal do mesmo nível a inundar a área de comentários de portais e blogs com a mesma falta de criatividade e torpeza. Termos como “tucanalha” ou absurdas teses conspiratórias fazem sucesso entre essa esquerda demente. Mas nada se compara, até agora, à ação orquestrada do lado da oposição.

Em consequência dessa estratégia, a assessoria jurídica de Serra o teria aconselhado a se afastar de Graeff e impedir que o nome do ex-secretário seja associado, organicamente, à campanha presidencial.
Ao menos um site ligado ao PSDB, replicado no Twitter, é assumidamente voltado para desqualificar o PT, o governo do presidente Lula e a candidatura de Dilma Rousseff. Trata-se do “Gente que mente” (www.gentequemente.org.br), mantido, segundo a direção do PSDB, por “simpatizantes” do partido. Na verdade, o site é criação de Cila Schulman, ex-secretária de Comunicação Social do governo do Paraná durante as gestões Jaime Lerner (DEM), entre 1994 e 2002. Cila trabalhou ainda na campanha de Kassab e presta serviços à presidência nacional do DEM. É filha de Maurício Schulman, ex-presidente do extinto Banco Nacional de Habitação (BNH) durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), e último presidente do Bamerindus, banco falido em 1994 e incorporado ao HSBC.

Na equipe do PT, coube a Branco elaborar uma rede de comunicação virtual tanto para controlar conteúdo como para neutralizar a ação de trogloditas e hackers. Para se ter uma ideia, apenas nos três primeiros dias de funcionamento do site da presidenciável petista (www.dilmanaweb.com.br), lançado na rede na segunda-feira 19, foram registrados 7 mil ataques de hackers, sem sucesso, baseados em um servidor registrado na Alemanha – expediente clássico da guerrilha virtual. Por enquanto, ainda não é possível identificá-los, mas os petistas registraram os IPs (identificadores dos computadores usados).
Uma semana antes, o site do PT havia sido invadido, “pichado” com mensagens pró-Serra e reprogramado de modo a direcionar os usuários para o site do PSDB. Em seguida, foi a vez da página do PMDB. Acusados pelos petistas de terrorismo virtual, os tucanos contra-atacaram com um pedido à Polícia Federal para investigar o caso e deixar o assunto em pratos limpos. Os tucanos atribuem aos petistas a estratégia de se fazerem de vítimas e colocar a culpa nos adversários.

Um dos sites clássicos utilizados contra a pré-candidata do PT é o “Porra Petralhas” (www.porrapetralhas.tumblr.com), repleto de baixarias, mas focado, em comum a outras páginas do gênero, em colocar em Dilma Rousseff a pecha de “terrorista” e “inexperiente”, coincidentemente, duas teclas sistematicamente repetidas pela mídia nacional. O site não tem autor conhecido.

Também no Twitter, o “Porra Petralhas” atua de forma massiva, sempre com xingamentos e acusações. A foto utilizada no perfil insinua um beijo na boca entre Dilma e Hugo Chávez, presidente da Venezuela, dentro de uma moldura de coração. Dois outros perfis de microblog, “Dilma Hussein” e o conhecido “Gente que Mente”, ajudam a desqualificar a candidata nas redes sociais. Um “retuíta” o outro, como se diz no jargão da internet.

Procurado por CartaCapital, Graeff mandou dizer que não vai se manifestar sobre o assunto. De acordo com Carlos Iberê, assessor de imprensa do PSDB, o ex-secretário participou apenas da formação do núcleo interno que discutiu a questão da campanha da internet e agora se dedica exclusivamente à função de tesoureiro. Cila Schulman não foi encontrada. A assessoria de Luiz Alberto Ferla informou não saber de “nada oficial” a respeito dos contratos ou do papel da empresa na campanha.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Serra diz que MST não tem apreço à democracia

O pré-candidato à presidência da República, José Serra (PSDB), afirmou nesta quarta-feira em São Paulo que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vive de dinheiro governamental e não tem apreço à democracia. A declaração foi dada durante uma entrevista ao jornalista Carlos Nascimento, no programa SBT Brasil.

"Quem decide é o poder judiciário. Invasão ilegal, se o judiciário mandar sair, tem de ser cumprida. O MST vive de dinheiro governamental. Eu acho que a reforma agrária para o MST hoje é um pretexto. Trata-se de um movimento político, com finalidades políticas. Tem lá suas ideias a respeito da democracia representativa, que eles não têm muito apreço. Eu quero a reforma agrária para valer, com gente produzindo melhor, cada vez mais e com terra".

Na quarta-feira passada (14/4), em entrevista no Congresso, o líder do MST João Pedro Stédile disse que a vitória do tucano José Serra nas eleições presidenciais seria "o pior dos mundos" para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

"É claro que nós percebemos que a candidatura Serra seria a retomada do neoliberalismo no Brasil, seria a retomada das privatizações, seria a retomada do que foi o governo Fernando Henrique [Cardoso, 1995-2002]. Então, um governo Serra, para nós, seria o pior dos mundos", disse. "Eu acredito que na nossa base ninguém vai votar no Serra", completou o coordenador nacional do movimento.

Apesar do ataque ao tucano, o MST já avisou ao PT que não apoiará formalmente nenhuma candidatura no primeiro turno das eleições.

Na entrevista ao programa do SBT, Serra se disse ainda contrário à reeleição. "Eu prefiro um mandato de cinco anos. A reeleição não deu muito certo. O Juscelino tinha como lema 50 anos em cinco", disse.

Serra representa "a estagnação e a desigualdade social"

A pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, participou nesta quarta-feira do programa "Brasil Urgente", na TV Bandeirantes. Provocada pelo apresentador José Luis Datena a citar dez motivos pelos quais não votaria no pré-candidato do PSDB, José Serra, a ex-ministra da Casa Civil aproveitou para reiterar a comparação entre os governos Lula e Fernando Henrique. "Tenho um grande motivo: ele representa um projeto que levou o Brasil para a estagnação e a desigualdade", afirmou.

"Ninguém é tão bonzinho"

Dilma aproveitou a oportunidade de falar em um programa de perfil popular para tentar reverter a imagem de durona. "Não sou tão brava quanto os outros dizem e ninguém é tão bonzinho quanto parece", disse.

A ex-ministra, que foi presa durante a Ditadura Militar, relatou em detalhes as torturas às quais foi submetida. Dilma disse que passou quase um mês presa na sede da Operação Bandeirantes, em São Paulo, que foi torturada com pau de arara, choques elétricos e palmatória.

Questionada se foi vítima de abusos sexuais, ela respondeu que não. A pré-candidata do PT também fez questão de esclarecer que defendia o socialismo e não o comunismo.

Dilma ainda respondeu a Datena se acreditava em Deus. "Acredito numa força que podemos chamar de Deus. Tenho muita fé em Nossa Senhora".

Temer e Ciro

Sobre o vice, ela disse que o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, seria "um bom vice". "Ele tem todas as condições, é um homem experiente, é o presidente da Câmara, uma liderança no PMDB. Tem que saber se ele será indicado [pelo PMDB]. Não dá para eu indicar ele."

Sobre a insistência de Ciro Gomes em ser candidato pelo PSB, Dilma disse apenas que "Ciro tem condições de pleitear tudo o que ele quiser. Ele tem todas as condições de pleitear uma candidatura à presidência", disse Dilma.

Ibope

A petista também comentou a pesquisa do Ibope, na qual aparece com 29% das intenções de voto contra 36% de José Serra. "Saí lá de baixo e estou chegando aqui. Pesquisa é um reflexo do momento, mas não serve para definir o que vamos fazer daqui para frente", afirmou.

Ao comentar a pesquisa, Dilma rebateu a ofensiva do PSDB contra o levantamento do Instituto Sensus, divulgada na semana passada, que apontava empate técnico entre ela e Serra. "Se uma pesquisa é melhor ou pior para mim, não é por isso que eu vou brigar com o instituto", afirmou.

A entrevista de Dilma a Datena rendeu pico de seis pontos de audiência, o que representa quatro milhões de pessoas na Grande São Paulo. O índice foi considerado muito bom pela TV Bandeirantes, por ser feriado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Do protesto à tortura

Sábado, dia 17 de Abril de 2010, foi mais um dia que entrou para a História do Distrito Federal, dentro do contexto da maior crise Institucional-Política já enfrentada pela Capital desde sua Fundação, 50 anos atras. Os protestos se iniciaram na sexta-feira a noite, através de uma vigília convocada pelo Movimento Fora Arruda e Toda Máfia em frente à Câmara Legislativa do Distrito Federal. Na vigília houve músicas, brincadeiras como Mímica e reflexões.

O sábado começou agitado, das cerca de 30 pessoas que dormiram na vigília, às 14h da tarde o número saltou para quase 300 pessoas , uma hora antes de iniciar a seção da Câmara que elegeu o escolhido de Arruda pra Governar Interinamente o Distrito Federal até 31 de Dezembro. Estudantes, trabalhadores, cidadãos vieram de toda parte do DF protestar contra uma eleição totalmente ilegitima, que dos 24 votantes do seu colégio eleitoral, 10 parlamentares e suplentes foram flagrados na Operação Caixa de Pandora: a Eurides da Bolsa, o Geraldo Naves que saiu da Penitenciaria 4 dias antes da votação, entre outros.

Às 15h, quando iniciava-se a seção dentro da Câmara, na rua que dá acesso à CLDF manifestantes atearam fogo em pneus interditando por 10 minutos a via. Às 16h dezenas de manifestantes tentaram entrar na galeria para garantirem o ideal democrático de que na casa do povo, o povo, não pode ser impedido de entrar, ainda mais quando em nome dele, corruptos decidem. A resposta imediata da polícia militar, sobre o comando do Coronel Silva Filho (aquele que em 09 de Dezembro, a mando de Arruda, massacrou com cavalaria e muita violência 5mil cidadãos que protestavam em frente ao Palácio Buriti) foi de repressão violenta, cacetadas para todo lado, gás de pimenta, socos e pontapés. 20 pessoas ficaram feridas, 8 tiveram que ser atendidas em hospitais, 2 policias se feriram, 6 pessoas foram presas. Eu fui o segundo a ser preso.

Quando prenderam o primeiro companheiro, eu era um dos que gritavam para soltá-lo, e gritei bem forte várias vezes 'Vocês têm que prender os filhos da puta que estão aí dentro votando em nosso nome'. No meio do caos, muita confusão, um tenente já conhecido meu de outros protestos, olhou no meu olho enfurecido e disse que prenderia a mim. Eu disse 'Prende então, não estou fazendo nada'. Fui preso por desacato a autoridade.

A PM estava enfurecida, mas fui conduzido primeiro para a 2º DP, onde já encontrei rapidamente com o advogado do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia, que me orientou a ficar em silêncio até a chegada dele na DRPI, para onde eu estava sendo transferido, pois era um direito constitucional meu. Fiquei 30 minutos na viatura, sem sofrer qualquer violência dos Policiais Militares. Chegando na DRPI, ainda sozinho, na presença apenas dos 3 policiais militares e 3 policiais civis, sentei-me no banco e aguardei, então começou a tortura moral. O policial civil agente Barcelar, que me torturou fisicamente momentos adiante, iniciou o diálogo com os policias militares dizendo que esses baderneiros deviam ser todos viados, porque ao invés de estarem em casa fudendo uma mulher, estavam nas ruas protestando, e aí seguiram-se as ofensas verbais, eu, calado.

Num dado momento o agente Barcelar me perguntou se minha identidade era do Distrito Federal, eu disse que era de Minas Gerais, aí, mais ofensas 'O que você tá fazendo aqui seu merda? Você nem de Brasília é seu bosta e tá protestando, puta que pariu, etc'. Em seguida perguntou meu nome para puxar minha ficha, eu disse 'Só vou falar quando meu advogado chegar' isso foi o suficiente para dar início a tortura.

O agente Barcelar, (ex-carcereiro por mais de 15 anos, agora trabalhando no 'Administrativo') após a minha simples frase de que estava aguardando meu advogado, deu a volta no balcão de atendimento, foi até a cadeira em que eu permanecia sentado, me pegou pela camisa me jogando com violência no chão, rasgando toda a lateral da camisa, e já iniciando uma série de murros na cabeça, chute, e me arrastando pelos cabelos junto a outro agente da polícia civil, que eu não soube identificar posteriormente porque eu estava no chão, e as duas mãos do agente Barcelar a a mão do outro agente me arrastaram pelos cabelos, pelos corredores da DRPI, até chegar na cela, onde, por estar sendo arrastado lesionei a coluna na barra de ferro do chão da cela.

O agente bateu a porta da cela e disse que eu era um merda e que iria apanhar mais. 10 minutos depois o advogado e minha namorada chegaram, de dentro da cela eu escutava o agente Barcelar dizer que eu tinha me jogado no chão, de lá da cela eu gritava que tinha sido espancado. Quando o advogado chegou diante da cela, lhe disse que fui espancado, o agente chegou a admitir na frente do advogado, dizendo que me puxou pelos cabelos porque eu não quis fornecer os dados que me solicitou. Mais adiante, conforme mais pessoas chegaram, o agente passou a dizer que nada aconteceu, que eu estava com a camisa rasgada e com visíveis marcas de agressão porque me joguei no chão.

Depois, fui conduzido enjaulado em uma viatura da Polícia Civil até o Instituto Médico Legal, onde foram constatadas todas as agressões que sofri na DRPI. O mesmo agente Barcelar tomou meu depoimento e se negou a colocar no inquérito as agressões que sofri, colocando a si próprio como vitima, me acusando de ter resistido a prestar informações. Eis o Estado de Direito, onde Parlamentares corruptos nunca vão, e quando vão, nunca permanecem presos. Eis o Estado de Direito, onde você vai preso por desacato por protestar, e quando chega sozinho na Delegacia de Polícia, é ofendido verbalmente e em seguida espancado covardemente na presença de 6 polícias.

Parabéns Brasília. 50 anos de Quê?

Diogo Ramalho é estudante de Letras Espanhol da Universidade de Brasília; membro do Movimento Fora Arruda e Toda Máfia; coordenador executivo e editor político do Jornal O MIRACULOSO.

As bases sociais do voto de Dilma e Serra


aaaaaaaaaaaaaaaadilmaserra

Considerando a natureza do jogo eleitoral, de soma zero, o apelo de Serra para a união das classes, aponta para prospectos de políticas de “denominador comum” o que não combina com ele. Em algum momento ele terá que fazer uma opção ariscada: avançar sobre o eleitorado das classes médias-baixas, com políticas condizentes, o que, por sua vez, contraria as demandas de seu eleitorado típico. Neste particular Dilma está confortável, pois o seu projeto é o quanto ela precisa para continuar ameaçando Serra, e em trajetória ascendente. A análise é de Marcus Figueiredo, do Iuperj.

Por Marcus Figueiredo – Iuperj, na Carta Maior

Análise da pesquisa Sensus – SINTRAPAV, 05 a 09 de Abril de 2010

As bases sociais do voto são sempre uma questão importante porque reflete a natureza das expectativas dos eleitores. Os candidatos em geral têm sempre os olhos voltados para a maioria, para garantir a eleição. Entretanto cada candidato não pode negligenciar as suas respectivas bases, sob pena de perdê-las. Este é um jogo de soma zero. Ao tentar avançar sobre uma classe de eleitores o candidato corre o risco de perder votos em uma classe concorrente. Definido então as diversas classes, categorias ou grupos sociais eles sempre terão demandas e interesses em disputas. É por esta razão que os candidatos tendem para a posição mediana entre os interesses conflitantes.

Esta convergência para a mediana produz discursos e propostas cujos resultados representam um denominador comum, com risco mínimo em desagradar as maiorias das posições conflitantes. Esta estratégia do denominador comum, por sua vez, tem como contra partida o aumento do risco de alta dubiedade, beirando a falta de posicionamento, posição mortal quando a taxa de conflito é muito alta. Exemplo claro está na disputa sobre o livre direito ao aborto. Nessas situações os candidatos preferem fugir do assunto. Este problema não existe nas eleições proporcionais dado que há espaço na disputa para posições conflitantes.

Tendo por referência a última pesquisa do instituto Sensus, vejamos as bases dos principais candidatos, Dilma e Serra.

Gênero
Hoje temos uma pequena maioria de mulheres frente aos homens. Esta categoria social passou a ser cobiçada pelos candidatos. Existem várias “teorias” sobre o comportamento eleitoral dos homens e das mulheres. As mais destacadas são as seguintes:

1. As mulheres são mais conservadoras do que os homens;
2. Hoje, se aceita que são as mulheres quem guiam o voto no seu lar, ao contrário do que ocorria no passado;
3. As mulheres que trabalham fora de casa comportam-se como os homens;
4. Mulher não vota em mulher;
5. A mulher, por ser “naturalmente” altruísta vota pensando mais no bem de seus filhos e de seus maridos.
6. As mulheres são mais cautelosas para decidir o seu voto;

Estas são afirmações tiradas de pesquisas qualitativas, difundidas entre políticos e assessores, cujas veracidades são duvidosas, quando não desconhecidas.

Neste quesito, Dilma leva vantagem entre os homens e tem igual perda entre as mulheres.

Gênero

Área de moradia
Considerando as áreas de moradia, Dilma ganha de Serra na área rural. Entretanto esta área representa apenas 15% do eleitorado. Esta presença na área rural certamente vem dos ganhos das políticas sociais.

Área de Modaria

Região
Nas regiões do país, Dilma leva vantagem em todas exceto no Sudeste. O destaque é para o Nordeste, região que mais se beneficiou com o programa Bolsa Família.

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Esta divisão territorial das intenções de voto reflete uma divisão política que floresceu na última eleição, quando Lula perdeu para o Alckmin nas chamadas áreas do agro negócio e de fronteira que sobem do interior de São Paulo e do Sul daí subindo pelo Centro-Oeste e Norte. Nessas regiões os ganhos de Dilma são modestos.

Educação e Renda
Considerando a educação, observamos um relativo equilíbrio entre Dilma e Serra nas posições baixas e médias. Na posição superior Serra tem ganho significativo. Entretanto, no indicador de renda observa-se uma divisão no eleitorado. A classe baixa, até 1 salário mínino, Dilma está levando vantagem sobre Serra. Este, por sua vez, está ganhando no ponto mais alto da pirâmide social, acima de 20 salários mínimos mensais. Nas posições intermediárias, de 1 a 20 SM há uma crescente vantagem de Serra.

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A comparação das bases sociais desses dois candidatos aponta para um horizonte de alta competição sobre políticas sociais entre Dilma e Serra. Nos indicadores de educação e renda, o apoio para Serra segue uma trajetória social de baixo para cima, Serra cresce segundo a posição social do eleitor. Dilma, ao contrário, decresce na escala social.

Esta situação aponta para as linhas ideologias das duas candidaturas. Dilma, como sucessora de Lula, tem enfatizado a continuidade do projeto PT-lulista que se concentra em políticas sociais de ascensão social, o que em nada agrada as classes médias-altas. Serra, como disse em seu discurso de lançamento de sua candidatura, acenou para o não confronto de classe, pregando a união de todos. Entretanto o seu eleitorado quer a volta de políticas mais liberais, cujo retorno social é perdas para as classes mais baixas na competição social.

Considerando a natureza do jogo eleitoral, de soma zero, o apelo de Serra para a união das classes, aponta para prospectos de políticas de “denominador comum” o que não combina com ele. Em algum momento ele terá que fazer uma opção ariscada: avançar sobre o eleitorado das classes médias-baixas, com políticas condizentes, o que, por sua vez, contraria as demandas de seu eleitorado típico.

Neste particular Dilma está confortável, pois o seu projeto PT-lulista é o quanto ela precisa para continuar ameaçando Serra, e em trajetória ascendente.

África do Sul descobre complô de direita para sabotar Copa

A Polícia sul-africana investiu esta semana contra uma organização de ideologia política de extrema direita, conhecida como The Suidlanders, que planejaria sabotar a Copa do Mundo, informou no domingo (18) o diário "Tribune".

As batidas aconteceram em Pretória e Mpumalanga e chegam pouco depois das tensões raciais vividas nas últimas semanas pela África do Sul em virtude do assassinato de Eugene Terreblanche, líder de extrema direita, por dois jovens negros.

A investigação da Polícia está relacionada com uma série de e-mails enviados ao exterior incitando o boicote ao Mundial. As mensagens partiram do site boycott-2010-world-cup.co.nr.

O e-mail enviado se refere a uma suposta guerra contra os sul-africanos brancos e insta os estrangeiros a se manter longe do país durante o Mundial, assegurando que há uma guerra civil.

Segundo fontes consultadas pelo diário, os planos da organização de sabotar o Mundial devem ser levados muito a sério. O número de filiados ao Suidlanders disparou desde o assassinato de Terreblance e suas estruturas clandestinas já começaram a se mobilizar.

Segundo o jornal, que cita fontes de dentro do Suidlanders, a organização contratou antigos membros das forças especiais e está fazendo estoque de armas e munição, além de apostar em ações que levem à desestabilização social e que fomentem a xenofobia em bairros negros do país.

Embora o porta-voz da Polícia Vish Naidoo tenha rejeitado fazer comentários sobre o assunto, voltou a frisar que as forças de segurança sul-africanas estão perfeitamente preparadas para lidar com qualquer eventualidade que possa surgir durante o Mundial.

Correa adverte que Equador reagiria a novo ataque ao território

O presidente equatoriano, Rafael Correa, advertiu de que não descarta a possibilidade de utilizar a força militar caso ocorra um novo ataque do Exército colombiano a seu território, como aconteceu em Angostura. Sua declaração foi destaque na imprensa equatoriana nesta terça-feira.

A afirmação de Correa, em Caracas, na Venezuela, foi uma enérgica rejeição às declarações do candidato presidencial colombiano, Juan Manuel Santos, ex-ministro de Defesa durante o bombardeio à zona fronteiriça de Angostura, no dia 1 de março de 2008.

Em um debate televisivo com outros aspirantes à presidência da Colômbia, Santos afirmou que se sentia orgulhoso de ter tomado essa decisão e deixou aberta a possibilidade de um novo ataque extraterritorial.

Correa expressou "uma profunda pena daqueles que jogam como imperadores e querem converter a América Latina em um novo Oriente Médio, mas da próxima vez encontrarão o Equador muito melhor preparado e saberemos nos defender".

Em declarações à TeleSUR e ao Diário do Orinoco, Correa recordou que "quando nos atacaram fortemente, o Exército equatoriano tinha deficiências logísticas, nossos radares não funcionavam, nossa aviação praticamente não existia e não tínhamos comunicações."

Essas debilidades, precisou, foram melhorando e "ainda que a política do Equador seja não agredir jamais, no entanto, chegado o momento, se privilegiará a defesa digna do solo pátrio. Da próxima vez, se formos bombardeados teremos que responder."

Lamentou que, apesar das desculpas do presidente Álvaro Uribe, agora "vêm seus sucessores dizerem esta barbaridade" e advertiu que, com "essa classe de gente no governo e sete bases estadunidenses na Colômbia, é possível imaginar o perigo para a região."

Correa reiterou a necessidade de ter informação clara sobre "o mais grave bombardeio da América Latina, sem precedentes, com bombas inteligentes, sem nenhuma declaração de guerra por um povo que considera como irmão e um governo que considerava amigo."

domingo, 18 de abril de 2010

Só o Serra salva as empresas do PiG. Daí, o desespero

A Globo é a mais vulnerável





Na revista Carta Capital desta semana, na pág. 27 (clique aqui para ler ), Leandro Fortes (**) conta que a Folha (***) “demorou CINCO DIAS para publicar o desmentido enviado pela assessoria da candidata e reconhecer formalmente o erro”.

O erro foi um erro ou foi de propósito ?

O erro foi inventar uma frase que a Dilma não disse: “eu não fugi da luta e não deixei o Brasil”.

Nos cinco dias em que a Folha (***) censurou a carta de desmentido, o PiG (*) dançou e rolou em cima do “erro”.

A Folha já tem uma rubrica no passivo com a Dilma: a ficha falsa.

E a circulação da Folha (***) é a que mais cai, dos jornais impressos.

A Abril e a Veja – a última flor do Fáscio (****) – não sobrevivem a outro mandato presidencial sem compras maciças de livro escolar.

O negócio de revistas desaba, a ponto de a internet, hoje, ter mais publicidade que as revistas.

A situação da Globo é a mais crítica.

Ela faz negócios escusos com o Serra, à luz do sol.


O bolo publicitário da tevê brasileira não cresce, significativamente.

A TV Globo, durante trinta anos, cresceu com uma equação – 50% de audiência e 75% da verba publicitária.

Como a tevê absorve 50% de toda a publicidade brasileira, ela tinha 75% de 50%, ou seja, de cada R$ 1 investido em publicidade no Brasil, ela ficava com R$ 0,37.

Essa equação – inaceitável num regime de democracia – mudou.

O bolo não cresce e as concorrentes começam a tomar audiência e faturamento dela.

Ela não vai conseguir ser o que é, com menos audiência e menos dinheiro.

A qualidade vai cair – e a concorrência se acirrará.

No campo da imprensa escrita, a Globo acaba de ganhar em seu território, o Rio, um adversário considerável, o grupo português “Ongoing” – ler na Carta Capital desta semana, na pág. 50.

O “Ongoing” lançou um jornal de negócios, o Brasil Econômico, para ir para cima do Valor, que é da Folha e do Globo, e acaba de comprar um jornal popular no Rio, O DIA.

Os portugueses querem ir para a televisão

E já entraram nos nichos do mercado onde há oxigênio para a imprensa escrita: o popular e de negócios.

Ou seja, a Globo passou a ter um corrente de peso a lhe morder os calcanhares, já que o grupo vem de Portugal com variados interesses empresariais.

Logo no início do Governo Lula, o professor Wanderley Guilherme dos Santos dizia que a mídia impressa brasileira só tinha um poder remanescente: o de gerar crises.

(Como, agora, a de Belo Monte …)

Gerar crises para tomar uma grana do Governo.

É o que faz o PiG(*).

E mais, como demonstrou a presidente da associação dos jornais: hoje, no Brasil, o PiG(*) é a oposição.

(Ainda mais que o candidato da oposição não tem o que dizer. A não ser que sempre foi candidato. O que sempre se soube.)

Esta eleição de 2010 coincide com o aparecimento de um nova realidade empresarial: a entrada da internet no jogo e a democratização das fontes de informação.

O PiG(*) brasileiro só tem uma salvação.

Eleger o Serra.

Pelo menos no Data-da-Folha.

Daí, o desespero.

Paulo Henrique Amorim

A decadência da imprensa brasileira

Por Emir Sader

A imprensa brasileira teve momentos da historia do país em que desempenhou papel determinante. Basta recordar o peso que teve nas mobilizações de desestabilização que levaram ao golpe de 1964, em que jornais como O Estado de Sao Paulo, a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, entre outros, tiveram o papel, pela primeira vez, de condutores ideológicos e políticos das forcas opositoras.

Setores da imprensa tiveram também um papel positivo, na campanha das diretas, quando outros tentavam esconder a amplitude do movimento e seu verdadeiro significado.

Assistimos hoje à decadência generalizada dessa mesma imprensa, que martela, cotidianamente, praticamente de forma total e monótona, ataques contra o governo Lula, logrando, no entanto, que apenas 5% da população rejeite o governo, enquanto mais de 80% o apóie. Nunca a imprensa brasileira esteve tão distante e contraposta à opinião do povo brasileiro. Daí seu isolamento e decadência, pelo menos sob sua forma atual.

As organizações Globo, que só possuiam um jornal, sem nenhuma importância, no Rio, antes do golpe, tiveram na ditadura sua grande alavanca, mas, ao mesmo tempo, o golpe insuperável de falta de credibilidade. Ficaram com a marca da ditadura, por mais que tentassem se reciclar, importando colunistas, usando a audiência da televisão para tentar conseguir mais público.

Atualmente dispõe de um trio que atenta contra qualquer credibilidade, que dá a tônica do jornal: Merval Pereira, Ali Kamel e Miriam Leitão. Todos os três se caracterizam por serem as vozes do dono, por sua postura propagandística, sem nenhum interesse no que dizem, nem brilho ou criatividade no que escrevem. São funcionários burocráticos da empresa, que exercem, da maneira que conseguem, seu burocrático papel de opositres, buscando catar supostas fraquezas do governo, que é seu único objetivo.

Nenhum tipo de análise, nenhuma nuance, nenhuma idéia. Para um jornal que precisaría desesperadamente de credibilidade, eles são um tiro no pé, uma confirmação da falta de credibilidade do jornal. O resto do jornal – das manchetes de primeira página às colunas de notícias – padece desse freio da rígida linha editorial, fazendo um jornal sem graça, sem interesse, sem repercussão.

No Rio de Janeiro, o conjunto dos órgãos da empresa, mesmo atuando fortemente a favor de algum candidato, perdem sempre. Lula ganhou nas duas últimas eleições no Rio; os Garotinhos, Sergio Cabral, Paes, mesmo Cesar Maia, se elegeram sem o apoio do jornal, que os atacava. Hoje, contra a vontade majoritária da grande maioria dos brasileiros, ficam de novo, acintosamente, na contramão da opinião do povo e do país, incluído claramente o povo do Rio de Janeiro, que sabe separar programas de diversão que lhe gosta ver, das inverdades que diz o jornal e os noticiários de rádio e televisão da Globo.

Diminuem sua tiragem, perdem público abertamente para a internet, para os jornais gratuitos, para os jornais populares vendidos. Melancolicamente, se arrasta o jornal, na fúria antilulista, sem repercussão política alguma.

O Estadão sempre foi o jornal conservador por excelência, com certa discrição, boa cobertura internacional, posições claramente direitistas. Conforme foi perdendo público para a FSP, que aparecia mais atraente para os jovens, mais ligada à oposicao à ditadura, tratou de rejuvenescer. Como jornal mais organicamente ligado às entidades empresariais, tem uma avaliação mais equilibrada da política econômica, valorizando seus avanços, no marco das críticas tradicionais do liberalismo dos “gastos excessivos do Estado”.

Além do papel do Estado na economia, suas maiores preocupações e críticas ao governo são na política internacional. Sua predileção, em tudo e por tudo, com os EUA, fica ferida com as alianças com os países do Sul do mundo e com os da América Latina em particular. A política externa soberana do Brasil os incomoda profundamente, transformando-se num dos temas mais usuais e violentos dos editorais.

O outro são os movimentos sociais, em particular o MST, que causa ojeriza ao Estadão, pela defesa intransigente do direito à propriedade privada, pilar do sistema capitalista. (O jornal foi praticamente o órgão oficial das passeatas de preparação do golpe de 64, na defesa da “liberdade, da família e da propriedade”, valores aos quais continua fiel.) A liberdade, que inclui centralmente a de “imprensa” (privada, diga-se), protagonizada pela SIP – Sociedade Interamericana de Prensa -, órgão da Guerra Fria, cenário a que o jornal, rançoso, ainda se sente apegado. Os editoriais, sempre, e atualmente Dora Kramer, são os momentos mais patéticos do jornal, saudoso da Guerra Fria.

A FSP é o jornal que mais teve oscilações de imagem. Era um jornal sem nenhum peso até o golpe e mesmo durante boa parte da ditadura militar. O Estadão era o grande jornal de São Paulo. A FSP apoiou ativamente a preparação do golpe militar, sua realização e a instauração da ditadura, cumpriu tudo o que a ditadura determinava, com noticiários que escondiam os sequestros, desaparecimentos, execuções, publicando as versões oficiais, emprestando carros da empresa para a Oban.

Foi ao longo dos anos 80, quando levou Claudio Abramo do Estadão, que a FSP, pela primeira vez, ganhou prestígio, buscando espaço próprio na oposição liberal à ditadura. Pretendeu ser o órgão da “sociedade civil” contra o “Estado autoritário”, conforme a ideología hegemônica na oposição, advinda da teoria do autoritarismo de FHC. (A FSP tirava, todo ano, uma foto no teto do seu prédio na Barão de Limeira, com os que ela consderava os representantes da “sociedade civil”, de empresários a líderes sindicais, como que para expresar físicamente esse vínculo organizado com os setores que se opunham, em graus distintos, à ditadura.)

Consolidou essa imagen emprestando suas páginas para uma certo pluralismo, com um cronista semanal – Florestan Fernandes, Marilena Chaui, entre os mais conhecidos – do PT, e distintos políticos, intelectuais e líderes sociais escrevendo na sua página de opinião.

Desde a eleição de FHC, entrou em decadência, perdendo totalmente a credibilidade que o diferenciava. Colunistas com vínculos pessoais com os tucanos, como Clovis Rossi, Eliane Catanhede, outros, decadentes, como Jânio de Freitas, se arrastam melancolicamente na decadência geral do jornal, o que mais despencou na tiragem e o que mais se transformou nas duas últimas décadas. O filho do Frias pai conduz o jornal pelo abismo da intranscendência e do rancor, se parecendo cada vez mais com a Tribuna da Imprensa da época de Carlos Lacerda.

A Veja se assume, grotescamente, como o Diario Oficial da extrema direita, com paquidermes como colunistas, sensacionlismo de capa, projetando-se como má espécie de bushismo brasileiro. Com dificuldade para conciliar sua imagem de revista de generalidades com esse papel de brucutu da imprensa nacional, foi perdendo aceleradamente tiragem, o que aumenta a crise financeira que levou a empresa a pendurar-se em capitais externos.

Poderia ser menos afetada pela crise generalizada da imprensa, por ser uma revista semanal. Mas a brutalidade da sua orientação política a fez incorporar-se de cheio nessa queda. Terá papel ainda mais truculento na campanha eleitoral, jogando tudo para tentar barra a vitória do governo, esperando-se os golpes mais sujos da campanha da empresa dos Civita.

No conjunto, o cenário da imprensa brasileira – com a única exceção da Carta Capital, entre as publicações diárias e semanais – é deprimente e decadente. Uma vitória de Dilma – que os apavora, seria ficar mais quatro ou oito anos nessa posição de dirigentes opositores -, trará dilemas difíceis para essas empresas. É possível que uma ou outra busque reciclar-se para adaptar-se a novos tempos, em que inclusive tem que contar com o fim de toda uma geração de políticos estreitamente associados a ela, como FHC, Serra, Jereissatti, etc. Isso, associado a uma intensificação da crise econômica das empresas, deve colocar dilemas cruciais para órgãos que assumiram atitudes suicidas, contra a vontade expressa da maioria do povo brasileiro e pagam preço caro por isso.

Emir Sader é cientista político

Ações do documento Movimentos sociais numa gestão Dilma ou Serra

O lulismo desmontou a hegemonia política dos movimentos sociais dos anos 1980 e criou nova lógica, a partir do Estado. Esta lógica permanecerá num novo governo?
O drama dos movimentos sociais brasileiros na atualidade

Já escrevi sobre o fim da Era dos Movimentos Sociais no Brasil. Não necessariamente sobre o fim dos movimentos sociais, mas sobre a sua capacidade de forjar um projeto hegemônico ou poderoso junto à parcela organizada da sociedade civil e sua predominância no cenário das lutas sociais do país. A grande maioria dos movimentos sociais contemporâneos se transmutou em organizações, focadas em sua reprodução interna, de caráter mais privado que a cultura generosa dos anos 1980. Outra parte foi se esvaindo porque suas lideranças foram ingressando nos governos e esferas de gestão pública. E, ainda, parte das pastorais sociais e ONGs que apoiavam os movimentos sociais com cursos de formação e formulação de diagnósticos que auxiliavam na definição de estratégias políticas entraram em crise de identidade ou tomaram rumos próprios. Com efeito, as pastorais sociais vinculadas à Teologia da Libertação entraram, nos últimos dez anos, num ciclo de avaliações institucionais e busca de seu lugar numa paisagem estranha. Fincaram pés no comunitarismo cristão que pouco informa a respeito de uma nova institucionalidade pública ou mesmo auxiliam para garantir o empoderamento de populações antes absolutamente marginalizadas e que agora podem se representar em conselhos de gestão, estruturas de Estado inspiradas na Constituição Federal de 1988. O trabalho pastoral passou a ser mais de presença e denúncia, mas minguou em relação ao anúncio, a notícia da Boa Nova que forma a tríade pastoral. Minguou porque o seu papel político e social ficou em suspensão. Seria, hoje, algo próximo de uma ONG? Seria um movimento próprio, de cristãos? O impasse é o mais ácido e dramático de toda história da Teologia da Libertação brasileira. Se assumir o papel de liderança própria, muitas pastorais sociais temem abandonar seu papel de apoio, se aproximando do que sempre criticaram: a vanguarda política dos segmentos marginalizados. Mas como ser apoio e presença de segmentos sociais desorganizados e fragilizados (como populações ribeirinhas, quilombolas e agricultores descapitalizados e tradicionais)? Como ser apoio de segmentos sociais hoje organizados e com estruturas de apoio próprias (como MST, Movimento de Atingidos por Barragens e outros)?

ONGs tomaram seu rumo próprio. Lideram e organizam pautas específicas, não necessariamente vinculadas aos movimentos sociais. Muitas redes e fóruns de ONGs mobilizam, negociam, articulam politicamente, algo que, antes, era tarefa dos movimentos sociais.

Transição de governo e de atuação social

Mas todo este drama pode significar um aggiornamento, uma transição em virtude de uma nova realidade social e política do país. Neste sentido, vale refletir as tendências políticas que se abrirão com uma gestão federal sem Lula. Durante as duas gestões Lula ocorreu um enquadramento político de movimentos e organizações sociais do país a partir de uma lógica política estatal. Em outras palavras, o lulismo tutelou as organizações sociais que antes se definiam pela mobilização e resistência política permanente. Na gestão Lula, tais características tiveram uma visível inflexão. No lulismo, o diálogo institucional foi aberto, mas restrito. Lula fragmentou negociações, definiu arenas de discussão de pautas específicas (como as conferências nacionais), selecionou demandas (refluindo em todas iniciativas de participação direta na definição da peça orçamentária, como as audiências públicas para definição do Plano Plurianual, ocorridas no primeiro ano da primeira gestão e nunca mais repetidas) e, quando possível, criou fóruns mais restritos onde se impôs uma lógica absolutamente distinta dos processos de tomada de decisão da sociedade civil organizada (caso do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social).

Em muitos casos, o burocratismo oficial submeteu a lógica mobilista e assembleísta dos movimentos sociais e organizações populares. O lulismo desmontou a hegemonia política dos movimentos sociais dos anos 1980 e criou nova lógica, a partir do Estado. Enfim, o desejo de alterar a lógica estatal a partir da mobilização social foi revertido: foi a lógica estatal que subjugou o anti-institucionalismo e as práticas de democracia direta.

Esta lógica permanecerá num novo governo federal?

A pergunta tem sentido, embora as pistas para identificar tendências não são fartas. Concentro-me nos dois candidatos à sucessão de Lula que lideram, no momento, as pesquisas de intenção de voto: José Serra e Dilma Rousseff.

José Serra é um economista filiado ao que no passado se denominava de estruturalismo, se opondo á corrente monetarista. É estatal-desenvolvimentista, rígido no controle técnico sobre arroubos sociais e de mercado. E é um espécime ilustrativo do paulistano, aquele brasileiro tenso, que raramente sorri ou dá gargalhadas, workaholic contumaz, que pouco disfarça da arrogância aprendida desde a infância, de extrema racionalidade. É o que Weber denominou de liderança focada na competência e na disputa pública da lógica racional-legal. A competição técnica é a marca deste tipo de liderança. Perde um voto, mas não perde o tom professoral, de demonstração de competência. E Serra é filiado ao PSDB. Este partido tentou forjar uma relação com movimentos sociais. Com Mario Covas, aproximou-se da CNBB. Criou uma central sindical. Mas havia chegado tarde. O PT, a CUT e as pastorais sociais já haviam se transformado em força hegemônica desta expressão social. Por este motivo, tucanos sempre tiveram uma espécie de ressentimento ou precaução exagerada contra qualquer lógica de mobilização social que tivesse nas reivindicações sociais (as políticas eram melhor digeridas pelos líderes do PSDB) seu modus operandi. Algo que cheirava à turba descontrolada, que não casava com a racionalidade e impessoalidade da burocracia, da tecnocracia, do Estado. E, assim, criou-se o que uma linha da psicologia denomina de auto-sabotagem. Serra é o representante desta auto-sabotagem política e todos já sabemos o que será a relação entre seu governo e uma mobilização social mais apaixonada. O que poderá ser uma solução para a encruzilhada pela qual passam movimentos sociais, organizações populares e pastorais sociais. Haverá um adversário comum a ser enfrentado. Mas será, no máximo, uma rima, não uma solução.

Com o PT, os movimentos sociais e organizações populares tiveram, inicialmente, uma relação de mando contido. Os núcleos de base do partido imitavam as comunidades eclesiais de base ou mesmo as células de organizações de esquerda. Mas o poder que estas estruturas de base tinham era muito superior que as de suas inspirações. A base partidária desautorizou parlamentares que desejavam apoiar a eleição indireta de Tancredo Neves. O programa de governo do candidato Lula, em 1989, foi construído a partir de seminários e consultas presenciais a movimentos, organizações sociais e entidades que se localizavam em cada região do país, o que exigia um esforço descomunal e, não raro, gerava uma peça que era acusada de “colcha de retalhos”. Isto porque a filosofia de construção política era o “consenso progressivo”. Mas esta lógica foi se alterando nos anos 1990. E se alterou de vez a partir do advento do lulismo. De mando, passaram a ser consulta. E, de consulta, passaram a ser tutelados e enquadrados.

Mas Lula é a liderança histórica do mobilismo dos anos 1980. E, como tal, tem autoridade e capacidade de negociação, o que instituiu a tutela estatal sem muitos traumas.

Dilma Rousseff, contudo, não tem origem partidária no PT, nunca foi liderança de massas ou expoente do mobilismo da década de 1980. É técnica e adota um estilo tipicamente gaúcho, duro, direto. Como Serra, ri com dificuldade e está sempre tensa. É uma gerente clássica, controladora, racional. Não parece ter traquejo político, flexibilidade e carisma. Portanto, é algo muito distinto do lulismo. Tem, entre seus apoiadores diretos, José Dirceu e Fernando Pimentel, que levam a mesma marca: racionalidade, objetividade, força, controle, impessoalidade.

Com Dilma Rousseff, os dilemas dos movimentos sociais e organizações populares serão agravados ou o ideário de décadas passadas será efetivamente superado. Como tendência a partir do que ocorreu durante o lulismo (e tendo Lula como sombra permanente numa possível gestão petista) é provável que a segunda opção seja a vitoriosa. O realismo político e o pragmatismo deverão se espraiar sobre as organizações populares. Aquelas que permanecerem fiéis ao ideário de trinta anos atrás se transformarão, no caso desta hipótese se confirmar, em minoria raivosa, com pouca expressão pública, mas com forte autoridade moral. Esta minoria obrigará negociações permanentes, ajustes, mas sem força para alterar a lógica estatal-desenvolvimentista, o pragmatismo político, a tutela ou estatalização da sociedade civil. Enfim, não alterarão a lógica, mas terão influência sobre pautas e negociações específicas. Porque estarão isolados, mas não sem significado. Terão força simbólica, mas não material e organizativa.

Na política, previsões são sempre temerárias. Mas uma das funções das leituras sociológicas é a de identificar e aprofundar tendências. Tendências são indícios, possuem uma lógica que pode ser interrompida por inovações e acontecimentos não previstos. O que faz das análises algo próximo das interpretações das táticas que se confrontam em jogos coletivos. Garrincha já havia explicado para Zezé Moreira que táticas muito bem montadas dependem da “cooperação” do adversário. Mesmo assim, os técnicos continuam valorizados. As tendências e análises sobre elas vislumbram uma lógica e dão alento á razão. Mas não substituem nunca o conselho de Garrincha

Sem debater causas estruturais, a dor com as chuvas estimula apenas, no discurso oficial, a defesa de remoções de favelas

Na segunda semana deste mês, uma nuvem negra tomou os céus do Rio de Janeiro. Sob o maior volume de chuvas da história, uma cidade inteira gritou a dor da imobilidade e da morte. Inundações, desabamentos, caos. Mais de duas centenas de mortos, quase cem desaparecidos. A tragédia carioca traz em sua substância quase todos os sintomas da absurda vida contemporânea nas metrópoles, do descaso das autoridades e da apatia social. Por isso, junto à imensa tristeza que provoca, o dilúvio também poderia trazer, pela diversidade de temas que lhe servem de causa, debates mais ricos para a construção de uma cidade justa. Entretanto, ao que se vê pelo discurso dos governantes e da mídia, a tragédia reforça o ideário conservador de cidade e estimula as políticas públicas mais nefastas surgidas no Rio de Janeiro nos últimos anos.


A princípio, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes (ambos do PMDB) culparam as chuvas. Evidentemente, tinham certa razão – no dia 6, choveu na cidade o equivalente a, somados, janeiro e fevereiro, ou 280 litros por metro quadrado. A cidade literalmente parou. Porém, o discurso de criminalização da pobreza viria em seguida. Em entrevista à GloboNews, Cabral declarou que a culpa pelas mortes era da “irresponsável ocupação desordenada de áreas irregulares”. Em seguida, ele defendeu os muros que vem construindo em comunidades, supostamente para evitar que “habitações irregulares” avancem. Já Paes chamou de “demagogos de plantão” aqueles que se posicionam contra a remoção de favelas. No dia seguinte, 7, o prefeito anunciou um decreto que permite a retirada à força dos moradores de áreas consideradas de risco.



Despejo facilitado

Embora tenha validade de 90 dias, algumas entidades temem a utilização do decreto para justificar remoções já planejadas anteriormente, com outro objetivo. “O prefeito colocou algumas áreas pouco atingidas no decreto. O que ocorreu em Jacarepaguá, com as chuvas, para justificar remoções? Estão usando o que aconteceu, muitas vezes por falta de política habitacional, para remover. E fica difícil questionar, porque existe a comoção popular. Não somos contra a realocação das reais áreas de risco. Na verdade, nós questionamos o conceito que eles têm de 'área de risco'”, afirma Maria Lúcia Pontes, coordenadora do Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Quatro mil famílias, de oito favelas, já estão prestes a ser removidas emergencialmente. É a vitória da ideia de que a culpa é dos pobres que ocupam áreas irregulares.


A vítima, no discurso oficial, havia novamente se tornado o criminoso. Os mortos na tragédia, quase todos pobres, estavam sendo culpados pela fatalidade que lhes tirara a vida. “Ninguém mora nesses lugares porque quer, mas por necessidade”, atesta Guilherme Marques, o Soninho, urbanista do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ). “As pessoas vão morar em áreas de risco porque não podem arcar com os custos de áreas melhores. Muitas vezes, querem removê-las para regiões muito distantes. Com o sistema de transportes que temos, como vão trabalhar?”, questiona.



Rentabilidade

O Morro dos Prazeres, por exemplo, um dos mais afetados pelas chuvas, já foi contemplado pelo Favela-Bairro. Na comunidade, todos pagam IPTU. Paes chegou a anunciar a remoção de toda a favela dos Prazeres, demonstrando desconhecer a legislação, que protege áreas tituladas. Em entrevista ao Terra Magazine, a relatora especial da ONU para o Direito à Moradia, Raquel Rolnik, deu pistas dos problemas enfrentados pelo Rio. Ela criticou a gestão urbana “para aumentar o potencial imobiliário e lotear e rentabilizar essas áreas”. “O preço que nós estamos pagando por isso são vidas que estão sendo perdidas, além do enorme prejuízo em função do colapso na circulação, na mobilidade e os efeitos que isso causa”, disse.


No Rio de Janeiro, o plano de emergência anunciado por Eduardo Paes, que chegou a ter um grupo de trabalho constituído em 2009, saiu apenas após a tragédia. “Faltou coordenação e investimento regular em um projeto que fosse bem definido”, afirma Moacyr Duarte, especialista em análise de acidentes da COPPE/UFRJ, lembrando a edição do livro Tormentas Cariocas, em 1997, pela instituição, que já apontava o risco. O sistema de drenagem não funcionou. Lixos por toda a cidade entupiam ralos. Completamente interrompido, o trânsito ficou caótico por dois dias. Os saques a automóveis parados dispararam – em doze horas, houve quase 28 mil ligações ao 190, 21% acima da média. Dois importantes museus tiveram seu acervo rigorosamente danificado e o Viradão Cultural – 48 horas de atrações promovidas pela Prefeitura –, previsto para os dias 10 e 11, foi adiado. Escolas e universidades suspenderam as aulas. Na cidade, só se falava na tragédia, mas as discussões mais relevantes não surgiam.



Reformas esquecidas

Outro debate que as chuvas poderiam trazer, e não trouxeram, é o da reforma agrária. Pela opção histórica por um modelo agrícola concentrador e injusto, ex-agricultores migraram para as cidades, ocupando periferias e áreas de risco. Formaram uma imensa reserva de mão-de-obra superexplorada ou subaproveitada. O resultado são cidades infladas, sem infra-estrutura democratizada. Na mídia corporativa, nem nas melhores reportagens esse debate surgiu. Em geral, viu-se uma cobertura jornalística melodramática, exibindo o vendável choro da morte. O debate sobre a necessidade de reforma urbana – amplamente discutida no recente Fórum Social Urbano, realizado entre 22 e 26 de março – também foi escanteado. Assim como a discussão da precariedade do sistema de transportes e do despreparo da Defesa Civil. Aos importantes assuntos esquecidos, soma-se a notória vinculação entre a tragédia e o aquecimento global, também fruto da intempestiva ação humana no planeta.


O enorme déficit habitacional da cidade também não pautou as discussões. As imagens revelavam, com clareza, a má qualidade da moradia do carioca. O número de desabrigados só aumentou o problema. Em Manguinhos, o primeiro andar dos apartamentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ficou completamente alagado. Segundo a comunidade, a obra já apresentava infiltração e uso de material inadequado desde dezembro de 2009, quando foi entregue. Os moradores da Grota também denunciaram as obras do PAC, que não teriam segurado o desabamento no Complexo do Alemão. Recém-anunciado pelo governo federal, o PAC 2 promete R$ 10 bilhões para políticas de prevenção de risco.



Sede de competições

A tragédia foi notícia no mundo todo e o que mais se questionou foi a capacidade de a cidade abrigar as competições que se realizarão nela nos próximos anos. O Rio de Janeiro abrigará as Olimpíadas em 2016 e importantes jogos da Copa do Mundo de 2014. Sede da futura final, o Maracanã ficou encharcado após as chuvas. O jogo entre Flamengo e Universidad, pela Copa Libertadores da América, foi adiado para o dia seguinte. No Maracanazinho, jogadoras de vôlei ficaram presos e dormiram no vestiário. A Praça da Bandeira, próxima, foi uma das regiões mais afetadas. Um complexo plano de reforma foi, em seguida, anunciado às pressas.


Contudo, um fato 1.150 quilômetros distante do Rio de Janeiro despertou ainda mais a revolta dos cariocas. Uma denúncia do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que o ex-ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB), doou a seu Estado, a Bahia, 64% dos recursos referentes a vergas da Secretaria de Defesa Civil, e apenas 0,9% ao Rio de Janeiro. Geddel foi recentemente substituído no Ministério para concorrer ao governo baiano. A OAB apresentou representação à Procuradoria Geral da República para averiguar o caso. Aparentemente, a tragédia não é apenas implicância da natureza com o Rio.