quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Crise mundial do capitalismo não acabou e promete novos capítulos

Em 2010 ficou claro que a crise do sistema capitalista mundial não chegou ao fim e promete novos capítulos. O processo de recuperação das economias, conforme reconheceu o FMI, é desigual, frágil e incerto. Os problemas econômicos convergem com o declínio da liderança dos Estados Unidos e reforçam a necessidade de uma nova ordem monetária internacional.

Por Umberto Martins*

Iniciada no final de 2007 com a recessão americana, a crise teve novos desdobramentos ao longo deste ano. Dois acontecimentos merecem destaque. A crise da dívida na Europa, que desperta dúvidas sobre o futuro do euro e da União Europeia, e a chamada guerra cambial, que coloca em xeque o papel do dólar no comércio internacional.

Na Europa e nos Estados Unidos, como em muitos outros países, os governos reagiram à crise injetando trilhões de dólares e euros nas economias, com o objetivo de resgatar o sistema financeiro e grandes empresas (como a GM), além de, teoricamente, contornar a recessão. Tais intervenções tiveram características e consequencias distintas nas diversas regiões e países.

Em geral, o efeito colateral do remédio é o agigantamento e a explosão dos déficits e dívidas públicas. O problema se manifesta com força e singularidade na zona do euro, onde ninguém goza de soberania sobre a política monetária e o equilíbrio fiscal dos países membros é considerado uma condição para a moeda comum.

Elos mais frágeis

A crise da dívida eclodiu nos países que constituem os elos mais frágeis do imperialismo europeu, os mais pobres. O alarme soou na Grécia, que se deparou com enormes dificuldades para financiar seu déficit fiscal, equivalente a 13,6% do PIB em 2009, e pagar a dívida pública (113% do PIB) e privada (78% do PIB).

Pressionado pelos credores (principalmente alemães e franceses), o governo grego, social-democrata, fechou um acordo indigesto com o FMI e a cúpula da União Europeia, anunciado no 1º de Maio, com medidas que descarregam nos ombros da classe trabalhadora os prejuízos da crise, com corte de salários e direitos, principalmente (mas não só) no setor público, mais desemprego, mais impostos e privatizações.

Ao mesmo tempo, o pacote evita a moratória e garante o pagamento dos juros aos bancos com o empréstimo de 110 bilhões de euros fornecido pelas duas instituições, dinheiro que vai direto para o bolso dos banqueiros. Um exemplo da socialização dos prejuízos do capital financeiro e uma demonstração descarada da subordinação do Estado aos interesses dos grandes capitalistas.

Efeito dominó

A crise não ficou circunscrita à Grécia. A Irlanda caiu nas garras do FMI em novembro, depois de anunciar um déficit público equivalente a 32% do PIB, um recorde para o velho continente desde o pós-guerra. O rombo foi provocado por um socorro de 45 bilhões de euros aos grandes bancos. Os banqueiros foram salvos, o déficit explodiu e a conta foi apresentada aos trabalhadores.

O país que recentemente foi designado de “tigre celta”, em função do forte crescimento, amargou uma queda de 7,1% do PIB em 2009 e um avanço espetacular do desemprego nos últimos cinco anos, de 3% para 13,5% da população economicamente ativa.

A crise da dívida, agora, ameaça migrar para Portugal e Espanha.

Guerra de classes

Na Europa, os Estados, a serviço dos grandes capitalistas, usam a crise como pretexto para deflagrar uma verdadeira guerra contra a classe trabalhadora e o chamado Estado do Bem Estar Social construído após a Segunda Guerra Mundial. Por todo o continente, a ordem é cortar salários e despesas públicas, aumentar jornada, reduzir direitos trabalhistas e previdenciários.

A revolta agita as ruas. França, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e vários países do leste europeu foram palco de greves gerais e manifestações massivas dos assalariados em 2010. A Grécia termina o ano contando 15 greves gerais. Uma autêntica guerra de classes, que terá novas batalhas em 2011.

Desequilíbrios americanos

A crise, originalmente designada de “crise do subprime”, evidenciou os crescentes e insustentáveis desequilíbrios econômicos acumulados pelos Estados Unidos, sintetizados no excesso de endividamento público e privado e na necessidade de financiamento externo.

A intervenção do governo para resgatar o sistema financeiro agravou os problemas neste sentido e não reverteu a crise no mercado de trabalho. O déficit fiscal saltou de 2,8% do PIB em 2007 para 5,9% em 2008 e cerca de 12% em 2009 e 2010.
O Federal Reserve (banco central dos EUA) também agiu emitindo 1,8 trilhão de dólares para aquisição de títulos tóxicos dos bancos ao longo de 2008 e anunciando uma nova derrama, desta vez de US$ 600 bilhões neste ano.

Inflação do dólar

Em função da posição especial que o dólar ocupa na economia mundial, como referência para contratos, preços e reservas, a decisão do Federal Reserve resultou na depreciação do dinheiro estadunidense em todo o mundo. Muitos países responderam com medidas descoordenadas para proteção de suas indústrias contra a valorização excessiva da moeda, configurando o que o ministro brasileiro Guido Mantega qualificou de guerra cambial, que pode abrir caminho a conflitos comerciais e políticos mais sérios.

É importante notar que a crise reforçou o processo de desenvolvimento desigual das nações caracterizado pelo deslocamento do poder econômico global do Ocidente para o Oriente e dos Estados Unidos para a China, que continua crescendo a taxas próximas de 10% ao ano.

Brasil

O Brasil, como outros países considerados emergentes, também se recuperou rapidamente da crise e deve concluir o ano com um crescimento de quase 8%.

Cumpre assinalar alguns problemas que projetam sombras sobre o futuro da economia nacional, associados à política macroeconômica conservadora: a instabilidade cambial, decorrente da queda do dólar e da política de câmbio flutuante; as altas taxas de juros, que contribuem para a valorização do real; a política fiscal restritiva e a evolução preocupante do déficit em conta corrente, que pode chegar a 60 bilhões de dólares em 2011, segundo previsão do Banco Central.

Nova ordem

A consciência do declínio e crise da hegemonia dos EUA, objeto de acaloradas polêmicas em passado recente, foi incorporada ao senso comum ao longo deste ano. A revelação de verdades inconvenientes pelo WikiLeaks ajuda a deteriorar a imagem do império.

Conforme observou o presidente Lula, o WikiLeaks desnudou a diplomacia de Washington, fortalecendo a convicção de que as embaixadas estadunidenses são perigosos centros de espionagem em permanente conspiração, a serviço de um imperialismo acostumado a recorrer a golpes e guerras quando seus interesses são contrariados.

A inoperância do governo diante do aprofundamento da crise do emprego e do empobrecimento da população frustrou as esperanças que a classe trabalhadora havia depositado em Barack Obama e resultou numa contundente derrota deste nas eleições legislativas realizadas em novembro. Mas quem avançou, dentro do Partido Republicano, foi a extrema direita.

Os acontecimentos de 2010 confirmam a necessidade de lutar por uma nova ordem econômica e política internacional e reiterar, ao mesmo tempo, a luta da classe trabalhadora por uma solução mais avançada e definitiva para a crise: a derrocada do capitalismo e a construção de uma nova sociedade, socialista.

Nenhum comentário: