quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A democracia autoritária

Um fenômeno em particular chama a atenção nestas eleições: a cobertura engajada da grande mídia no processo eleitoral

Francisco Fonseca


Um fenômeno em particular chama a atenção nestas eleições de 2010: a cobertura engajada da grande mídia no processo eleitoral, e particularmente sua extrema partidarização. Embora não seja propriamente um fenômeno novo, muito pelo contrário, há elementos específicos nesta eleição, tais como: a tentativa de derrotar a figura de Lula como líder nacional e internacional, mesmo num quadro ideológico em que o capital não tem o que temer; o intento de reverter a orientação da política exterior brasileira na perspectiva de um realinhamento com o ainda chamado G-7; e o objetivo de restaurar o Estado excludente, elitista e voltado às “reformas orientadas para o mercado”, em termos de políticas sociais – mesmo considerando-se as contradições do governo Lula, que estabeleceu um grande arco de alianças de classe que vai da esquerda à direita (e dos miseráveis aos ricos), com todas as conseqüências que uma tal coalizão produz.

Diferentemente da surrada e autoalegada cantilena sobre a “independência” e o “apartidarismo” da mídia, o que se observa nestas eleições é a tentativa desesperada de jornais e revistas da chamada grande mídia em simultaneamente desqualificar os avanços do governo Lula e blindar a principal candidatura de oposição. Parafraseando o importante livro de João Almino, Os Democratas Autoritários (Editora Brasiliense, 1980), sobre as contradições discursivas e ideológicas dos partidos na Constituinte de 1946, em que se diziam democratas mas pensavam e atuavam de forma autoritária, o mesmo parecer vigorar nestas eleições quando o tema é a mídia.

Na verdade, suas crenças são impossíveis de se concretizar, pois os órgãos da mídia estão aprisionados estruturalmente a três grandes características: como empresa privada capitalista que objetiva o lucro; como “aparelho privado de hegemonia” (Gramsci), cujo objetivo é conquistar “corações e mentes” para as causas e interesses que representam; e como “intelectual orgânico”, que se assemelha a um partido organizador de classes e estratos sociais. Tudo isso lhes impede de ser o que dizem ser e sobretudo de fazer o que proferem. De fato, não se pode esperar da grande mídia, notadamente no atual marco (des)regulatório dos meios de comunicação no Brasil, nada mais do que uma posição partidária – não no sentido propriamente de um partido político, mas de classes sociais – com vistas a “orientar” tais classes a não seguir na coalizão proposta pelo governo Lula. Independentemente da análise que se possa fazer acerca desta grande coalizão, o fato é que ela existe e é rejeitada pela grande mídia e determinados setores sócio/econômicos que, mesmo beneficiários do crescimento econômico, postam-se como oposição cerrada.

A amplificação permanente de denúncias de corrupção, a tentativa de estigmatizar o governo Lula como perdulário, incompetente e aventureiro (sobretudo em política externa), entre outros impropérios, relegando os avanços sociais e institucionais, expressa simplesmente partidarização (no sentido de classe e de partido político) desesperada. Não que um sem-número de problemas, o que inclui corrupção, não exista em inúmeros governos; mas, entre essa constatação e a tentativa de estigmatizar o governo Lula como “República sindical” (no pior estilo golpista dos anos 1960), e com críticas ideológicas e moralistas (no pior estilo udenista), há uma enorme diferença.

O impacto da cobertura da grande mídia aparentemente é cada vez menor, pois a grande massa de brasileiros pobres que, por mecanismos diversos promovidos pelo governo Lula, ascenderam socialmente ou melhoraram sua condição de vida, simplesmente ignora a militância da grande mídia impressa. As redes de TV perceberam isso rapidamente – até porque dependem de financiamento do BNDES, entre outros agentes governamentais – e, embora algumas delas sejam do mesmo grupo empresarial proprietário de jornais e revistas, atuam de forma mais cautelosa. O mundo digital, embora pequeno proporcionalmente no país, tem também uma parcela de responsabilidade nesta diminuição do poder da mídia impressa.

Os democratas autoritários da mídia e seus representados – em sentido lato – estão sendo derrotados simultaneamente pelo Brasil profundo e urbano! Urge, até por essa derrota, uma reforma das leis (e de incentivos econômicos) aos meios de comunicação, tal como a Argentina vem realizando.

Não haverá a mais remota democracia com uma mídia golpista, hegemônica e autoritária!


Francisco Fonseca é cientista político e historiador, professor de ciência política da FGV/SP e autor, entre outros artigos e capítulos em livro, de O Consenso Forjado – A grande imprensa e a formação da agenda ultraliberal no Brasil, São Paulo, Hucitec, 2005.

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