domingo, 8 de agosto de 2010

Casa Branca prepara uma catástrofe para salvar o capital

Evidenciam-se os contornos de uma vasta operação bélica contra o Irã, que ameaça regionalizar a guerra em toda a Ásia central e Oriente Médio

Os Estados Unidos têm um plano pronto para atacar o Irã, afirmou o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas estadunidenses, almirante Mike Mullen, à emissora NBC. Ao mesmo tempo, o jornal Washington Post revelou que o Pentágono pretende ativar uma estação de radar na Turquia ou Bulgária, como parte de um escudo antimísseis ao sul da Europa, que deverá funcionar no próximo ano. O governo iraniano prometeu uma "resposta esmagadora" contra qualquer agressor. Mohammad Khazai, embaixador iraniano na Nações Unidas, alertou que Teerã atacaria Tel Aviv se Israel se atravesse a agredir o Irã: “Se o regime sionista cometer a menor das agressões contra o solo iraniano, vamos deixar Tel Aviv em chamas.”

Evidenciam-se, portanto, os contornos de uma vasta operação bélica contra o Irã, que ameaça regionalizar a guerra em toda a Ásia central e Oriente Médio. A menção direta de Khazai ao Estado judeu não é casual nem ociosa: ao contrário, a participação direta de Israel nos planos imperialistas é fundamental e indispensável. Como observa o jornalista inglês Robert Fisk: “Em livro notável, detalhado – embora um pouco furioso demais – que será publicado em novembro, o infatigável David Cronin oferecerá análise microscópica de ‘nossas’ relações com Israel. Acabo de ler o manuscrito. Estou sem ar. Como Cronin diz no prefácio, ‘Israel desenvolveu laços políticos e econômicos tão poderosos com a União Europeia, na última década, que se tornou estado-membro de fato, da União Europeia, em todos os sentidos, exceto formalmente.’ A verdade é que Javier Solana, o imundo cão líder da matilha da política externa da União Europeia (ex-secretário geral da OTAN), disse, de fato, ano passado, que ‘Israel, permitam-me que diga, é membro da União Europeia, embora sem ser membro da instituição.”

Se Israel é reconhecido como “membro informal” da UE, a integração da Turquia à aliança é rejeitada, embora seja país-membro da Otan. Vaticano se opõe frontalmente à sua admissão, apesar de todas as reformas “ocidentalizantes” feitas pelos turcos desde 1920, quando Kamal Ataturk assumiu o poder e tratou de liquidar o que ainda existia do Império Otomano. É também a convicção do recém-eleito Presidente do Conselho Europeu, o belga Herman Van Rompuy, democrata cristão e católico fundamentalista. Suas posições inflexíveis sobre o Islã e a Turquia foram fundamentais para conseguir o apoio do presidente francês Nicolas Sarkozy e da chanceler alemã Ângela Merkel (também democrata-cristã) à sua nomeação ao cargo de presidente do Conselho. Como é a posição do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi.

Resumo da ópera: os islâmicos, em particular os turcos, podem até serem bons o suficiente para servirem de bucha de canhão da Otan, da qual são membros, mas jamais para conviver em pé de igualdade com os europeus. Essa posição faz com que a Turquia ensaie um movimento de aproximação para com o mundo islâmico (e consequente distanciamento em relação aos europeus), tornando Israel ainda mais vital para os planos imperialistas na região.

Não por acaso, em 17 de junho o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar (1996 – 2004) publicou um artigo no Times de Londres, em que afirmava, entre outras coisas: “é a nossa primeira linha de defesa em uma agitada região que está constantemente sob o risco de cair no caos; uma região que é vital para a segurança energética mundial devido à nossa dependência excessiva de petróleo do Oriente Médio; uma região que forma a linha de frente na luta contra o extremismo. Se Israel cai, todos nós cairemos.”

Aznar não é um fulano qualquer, ainda que o sobrenome reflita sua vocação intelectual. Ele é filho dileto do franquismo e expressa os sentimentos mais atrasados da Europa branca, católica e chauvinista. Aznar é um cruzado, como aqueles que propunham o extermínio dos semitas (judeus e mouros) na Idade Media. Mas, dado o papel geopolítico de Israel no mundo contemporâneo, Aznar faz o elogio dos judeus, reservando a babação antissemita ao Islã. É um discurso bizarro, num país que viveu mais de sete séculos sob influência moura, e de onde foram expulsos pela Inquisição de Torquemada (ele próprio, um cristão novo) centenas de milhares de judeus que procuraram abrigo... nos países islâmicos.

O discurso de Aznar é, ao mesmo tempo, um diagnóstico correto da profundidade da crise e uma cínica preparação para uma guerra de grandes proporções. O capital, como todos estão carecas de saber, resolve suas crises econômicas e financeiras com atos selvagens de destruição em massa – como aconteceu nas guerras mundiais do século passado. Se, para “salvar a Europa” (especialmente a Espanha, onde 40% dos jovens estمo desempregados) e o capitalismo for necessário armar uma guerra total ao Islã, que assim seja. Israel está no Oriente Médio como posto avançado do “Ocidente” e deverá cumprir sua parte na nova cruzada, ainda que a pretexto de defender sua própria existência.

Aznar é o porta-voz do "choque de civilizações", pseudo "teoria" sem qualquer fundamento na realidade, mas tão útil aos propósitos do capital quanto, nos anos 1930, o foram as fantasias mirabolantes dos "protocolos dos sábios do Sião" para um sujeito chamado Adolf. O povo israelense e os judeus de todo o mundo não deveriam se iludir com a aparente simpatia demonstrada pela extrema direita europeia. Os seus tambores da guerra oferecem novamente o povo semita – árabes e israelenses - em holocausto, mas agora em nome da defesa dos "valores ocidentais".

Se depender da vontade de Aznar e similares, o capital será recomposto sobre os cadáveres de milhões de judeus e islâmicos. E a região, "vital para a segurança energética mundial", será reconstruída pelas imensas empreiteiras e corporações europeias e estadunidenses, para ser novamente transformada em um civilizado protetorado "ocidental".

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