terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ventos eleitorais levam Chile mais para direita

Sem espaço de manobra para mudanças políticas e econômicas, país migra da centro esquerda para a centro direita, fazendo despertar 20 anos depois o fantasma de Pinochet

O vento político que sopra do Pacífico Sul mudou de rumo no Chile. Depois de 20 anos, a aliança de centro esquerda “Concertación de Partidos por la Democracia” (conhecida como Concertación) foi derrotada em uma eleição presidencial.

A partir de 11 de março, dia da posse presidencial, o empresário magnata Miguel Juan Sebastián Piñera Echenique, dono do canal de televisão Chilevisión, do grupo aéreo Lan Airlines e de um dos times de futebol mais populares do país, o Colo-Colo, governará o Chile até 2014.

Considerado em 2009 pela revista estadunidense Forbes o 701º mais rico do mundo – com 1 bilhão de dólares –, Piñera investiu pesado ao liderar a coligação de direita “Coalizión para el Cambio” na vitória sobre o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle, com uma diferença 3,23% dos votos (51,61% versus 48,38%).

No entanto, os ventos que levam Piñera ao palácio presidencial de La Moneda não sopraram com força suficiente para dar uma guinada mais forte à direita na composição do parlamento. Assim, com minoria no Senado e na Câmara de deputados, o empresário será obrigado a fazer um governo conciliador com a oposição.

Ainda que tivesse a maioria, dificilmente Piñera faria reformas estruturais mais à direita. Desde o governo do ditador Augusto Pinochet (1973-1990), o Chile é considerado um dos países que mais fortemente abraçou as políticas de livre mercado, diminuindo o espaço para manobras de mudança política, com eleições binôminais – onde para se eleger é preciso estar entre as duas grandes coligação – e econômicas – com as diretrizes econômicas comandadas a mais de 20 anos por um Banco Central autônomo, sem se submeter às políticas de Estado.

bachelet_piñeraO analista político chileno, diretor da revista Punto Final, Manuel Cabieses Donoso, acredita que nenhuma mudança importante deve acontecer nos próximos anos, já que para se manter no poder “a Concertación fez todo o possível para parecer-se com a direita, e quase conseguiu”. Como exemplo ele cita os elogios de Piñera à política econômica da presidente Michelle Bachelet e a seu programa social (semelhante ao programa Bolsa Família) anunciando um bônus de 80 dólares para 2 milhões de famílias para seu primeiro mês de mandato.

A volta do fantasma

Marcado por 17 anos de ditadura, a derrota de Eduardo Frei faz ressurgir no Chile o fantasma de Pinochet, morto em 2006. Desde a redemocratização do País, em 1990, as forças políticas ligadas ao ditador estiveram afastadas do centro das decisões políticas.

Rodeado das assombradas figuras políticas do regime que, estima-se, assassinou cerca de três mil pessoas, torturou 35 mil e manteve presas 300 mil, Piñera se apressou em dizer em seu primeiro discurso político que não colocará em cargos relativos a direitos humanos pessoas envolvidas com a ditadura. “O Chile tem sido sempre respeitoso aos tratados internacionais e respeitoso de sua própria administração e durante nosso governo vamos seguir sendo”, declarou o presidente eleito com relação os direitos humanos universais, contando com a desconfiança da oposição.

Por outro lado, está clara a mudança na relação do governo com os movimentos sociais e sindicais, muitos deles ligados aos partidos socialista, comunista e democrata cristão. “O governo Piñera fará de tudo para debilitar estas forças políticas, base política da oposição”, entende Cabieses.

Cristiano Navarro

Fonte: Brasil de Fato

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