domingo, 29 de novembro de 2009

Vídeo flagra presidente da Câmara do DF guardando dinheiro na meia

Imagens que teriam sido gravadas em 2006 mostram o presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Leonardo Prudente, recebendo dinheiro do então presidente da Codeplan (empresa do DF), Durval Barbosa. O vídeo está entre os cinco DVDs que a Folha teve acesso e que fazem parte da investigação de um suposto esquema de pagamento de propina para parlamentares da base aliada do governo na Casa.

As imagens mostram o próprio Barbosa, que até sexta-feira era secretário de Relações Institucionais do governador do DF, José Roberto Arruda (DEM), entregando dinheiro a Prudente. Na sequência, o presidente da Câmara aparece guardando as cédulas nos bolsos do paletó e nas meias.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u659275.shtml

Entre os supostos envolvidos no esquema estão Arruda, o vice-governador do DF, Paulo Octavio (DEM), além de Prudente.

Um outro vídeo feito por Barbosa mostra Arruda recebendo dinheiro. O governador é o centro das investigações da operação Caixa de Pandora, deflagrada pela Polícia Federal na última sexta-feira (27), quando foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão de equipamentos, dinheiro e documentos em Brasília, Goiânia e Belo Horizonte.

Sobre o vídeo envolvendo Prudente, a assessoria do parlamentar disse que ele desconhece as imagens e que não vai se pronunciar sobre o assunto. Já a Polícia Federal está fazendo uma perícia para comprovar a autenticidade dos vídeos.

Mercadante: Os seguidores brasileiros da política externa de Bush

A política externa unilateralista e confrontacionista de George Bush deixou seguidores fervorosos no Brasil. Com efeito, a julgar pelas críticas ao papel moderador que o Brasil tenta desempenhar no Oriente Médio, o belicismo dos republicanos conservadores da América do Norte fez escola em nosso país.
Bush recusava-se a dialogar com governos vistos como hostis e desprezava os mecanismos políticos multilaterais de conciliação e moderação. Preferiu sempre a pressão e a guerra. Deu no que deu. Isolou seu país, perdeu aliados importantes e comprometeu tropas nos pântanos políticos do Iraque e do Afeganistão, até agora sem resultados significativos. Comprometeu também a imagem dos EUA, ao permitir tortura e sequestros em solo estrangeiro.

Obama, político habilidoso, prefere o diálogo e a construção de alianças. O Brasil de Lula também. Não foi por acaso que em menos de um mês vieram ao nosso país Shimon Peres, de Israel, Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, e Ahmadinejad, do Irã. É que o nosso país é visto, hoje, como uma potência em ascensão que pode e deve ter papel relevante em todas as questões mundiais.

O conflito no Oriente Médio é uma delas, pois não afeta somente aquela região, mas toda a geopolítica do planeta. O Brasil, nação na qual as comunidades judaicas e árabes convivem pacificamente e país com crescente protagonismo internacional, pode ser um ator moderador no difícil processo de construção da paz no Oriente Médio. Os atores tradicionais até agora falharam. É hora de novos interlocutores contribuírem positivamente.

Entretanto, os seguidores locais de Bush não estão gostando dessa história. Eles acham que o Brasil é um país pequeno, que deve voltar a praticar a política externa periférica do passado. Também não aprovaram a visita de Ahmadinejad, como se fora possível distender o ambiente no Oriente Médio sem a concorrência do Irã, país com grande peso econômico e político naquela região.

Goste-se ou não do regime iraniano (eu não gosto), é forçoso reconhecer que não haverá estabilidade no Oriente Médio sem a participação daquele país. Ademais, o Brasil mantém relações diplomáticas ininterruptas há décadas com o Irã, como muitos outros países.

Esses senhores parecem acreditar que diálogo e acercamento de interesses comuns implicam plena concordância. Assim, se Ahmadinejad põe em dúvida o Holocausto, Lula, ao recebê-lo, estaria concordando com ele. O Brasil estaria legitimando tudo o que Irã fez ou venha a fazer.

Ora, o Brasil tem posições históricas conhecidas pela paz e a solução da convivência pacífica entre "dois Estados" (Israel e Palestina) para o conflito do Oriente Médio. O nosso país não abandonou essas posições por causa da visita de Ahmadinejad. Lula, que participou comigo, com solidéu e tudo, de homenagem às vítimas do Holocausto, o maior crime cometido contra a humanidade, também não.

Mas a visão simplificadora desses senhores sobre relações internacionais é limitadora e arriscada. Limitadora porque diminui dramaticamente o escopo de atuação do País, ao tentar restringir visitas e diálogos de alto nível apenas a países amigos e com currículo ilibado em temas sensíveis. Arriscada porque não há nada mais perigoso do que a obtusidade.

Ao contrário do vaticinado por aqueles que apostaram no desastre da visita, o Brasil deixou bem claro a Ahmadinejad e ao mundo as suas justas e ponderadas posições. Lula defendeu o direito aos programas nucleares para fins pacíficos, tal como está assegurado no artigo 4º do TNP, condenou o terrorismo e a intolerância e reiterou o apoio brasileiro à solução dos "dois Estados" viáveis e seguros (Israel e Palestina) para o conflito do Oriente Médio.

O Brasil deu o seu recado firme e moderador, com apoio da comunidade internacional, inclusive dos EUA. O mundo entendeu, porque a diplomacia pode e deve construir saídas. Não entenderam os saudosistas da era do Brasil apequenado e seguidores do belicismo unilateralista.

*Aloisio Mercadante é, economista e professor licenciado, é senador da República pelo PT-SP, líder do PT no Senado e vice-presidente do Parlamento do Mercosul.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

cursinho popular pré-vestibular 2010

O Instituto Práxis de Educação e Cultura – IPRA, abre inscrições para o processo seletivo de seu CURSINHO POPULAR para o ano de 2010 .
O CURSINHO POPULAR do IPRA, criado em 2009, conta em sua maioria com docentes formados em cada área específica de atuação e já teve suas primeiras aprovações para universidades públicas (UNESP e UFTM).
Em 2010 serão 2 turmas em diferentes cidades:
Franca (35 vagas - noturno) e Bebedouro (50 vagas - noturno)


Informações www.institutopraxis.org.br/
Telefones: (17) 3342-2265 - 3343-1565
Celular (17) 8145 9110 - 91770735

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

jornal nacional finge que não vê a ação do MPF contra Tuma e Maluf

Clique aqui para ir ao jornal nacional e constatar que o Ali Camel (*) tem uma visão muito especial do que é relevante.

O Ali Camel (*), num gesto patriótico, pode ter omitido a informação para evitar a comoção social a que se refere o Supremo Presidente do Supremo, que acha que prender torturador do regime militar significa desestabilizar as instituições.

Leia também:

MPF abre cemitério de Perus e quer punir Tuma e Maluf. Um senador de SP e o deputado mais votado de SP

MPF: Maluf é suspeito de querer cremar militantes políticos

(*) Ali Camel é aquele que se utiliza da Globo para povoar mentes desérticas e disseminar idéias conservadoras e golpistas (sem muito sucesso).

Congresso do PSOL: O esquerdismo se enrola em sua própria teia

De baixo de muita confusão e empurra-empurra, 2º Congresso do PSOL combina sectarismo com oportunismo, passando longe dos interesses da classe trabalhadora.

Recentemente li as resoluções do Congresso do PSOL, um balanço de Roberto Robaima e algumas notícias na imprensa oficial da burguesia. Achei melhor fazer esse esforço e não me contentei, fui ler também as Teses apresentadas, tudo para escrever um artigo e não incorrer em erros e visões precipitadas ou equivocadas sobre o que ocorreu naquele Congresso, em respeito aos seus militantes.

Infelizmente tenho a declarar que o Congresso do PSOL foi um jantar de pratos insípidos regados com condimentos sectários esquerdistas com forte aroma oportunista.

Do conjunto das Teses, creio que 9, acabaram restando 3. O embate se deu entre o MES/MTL x APS/Enlace. O centro das divergências? Linha política, concepções de partido, programa de lutas? Nada disso.

Robaima, um dos dirigentes do MES, em seu informe, reproduzido e assinado por Luciana Genro, diz:

“O balanço positivo da nossa intervenção no II Congresso do PSOL se materializa na enorme vitória que obtivemos: Heloísa Helena foi reconduzida à presidência do partido, graças à batalha política que travamos em unidade com o MTL, unidade esta que se consolidou na chapa apresentada para direção do partido, encabeçada por Heloísa Helena”.

O que quer dizer isso? HH presidente do PSOL é uma vitória do MES e do MTL, contra a APS e Enlace que queriam HH como candidata à presidência da República, mas não como Presidente do PSOL. Isso pode ser uma vitória na guerra de grupos contra grupos, mas na realidade expressa que tanto MES e MTL, bem como a APS e Enlace estão se enrolando nas teias de aranhas que eles mesmos criaram.

A APS queria HH como candidata para presidente da República, mas não a queriam candidata a presidente do partido? O que há por detrás desse imbróglio?

Simples, vejam as declarações de HH sobre a Marina e entenderão melhor a coisa. Diz Heloisa Helena:

“Eu não aceito ser obrigada a não respeitar Marina Silva nas minhas declarações públicas. Isso gera um dissenso partidário. O partido deve construir o seu programa, apresentar as alternativas concretas para o Brasil e só então discutir qual o melhor quadro partidário para representar esse projeto”, disse Heloísa à saída do congresso.

“Eu tenho a dizer que Marina Silva é uma das mais valorosas militantes que a esquerda já produziu. E eu não vou aceitar que queiram me proibir de dar essas declarações públicas.”

Então ao fim e ao cabo todos engoliram HH e o Congresso sequer definiu posicionamento sobre as eleições, deixando tudo para uma Conferência no ano que vem! Ou seja, até lá, se a candidatura da Marina pegar e HH embarcar na canoa dela o PSOL terá, além do sol, uma sombra verdinha pró-burguesa para se refrescar, e terá então uma presidente que é contra a legalização do aborto e que centra seu discurso no combate à corrupção sem atacar o capital. E terão ainda como candidata a presidente da República a verde Marina que como ministra do Meio Ambiente fragmentou o IBAMA em dois órgãos e fez aprovar a Lei do Serviço Florestal Brasileiro, que privatizou as florestas nacionais.

Um belo par de vasos na linha da conciliação com os partidos burgueses.

O Congresso do PSOL, com toda sua fleuma radical, aprovou ainda algumas jóias raras:

“Considerando que a corrupção instalada em nosso país é parte intrínseca do regime e que merece respostas de nosso partido não só no campo institucional como também no campo da luta de massas, o 2º Congresso do PSOL resolve: Mobilizar unitariamente pelo “Fora Sarney”, ... e abrir o debate sobre o fim do Senado e a instituição de uma câmara única e proporcional...”

Ou seja, propõem um novo Parlamento burguês que por ser único e proporcional estaria imune à corrupção. Os esquerdistas não conseguem romper os fios que os prendem às instituições burguesas e nem com suas ilusões em um mágico parlamento com câmara única onde certamente Sarney estaria de volta junto com mais 500 picaretas.

E para coquetear com os verdes aprovaram:

“Resgatar parte da dívida ecológica criando um Fundo Internacional para a Preservação da Amazônia, sob controle social que garanta a soberania nacional sobre a região.”

O imperialismo propõe a Internacionalização da Amazônia. O tratado de Quioto estabelece o direito a poluir e outorga aos capitalistas o direito de comprarem cotas para isso. Um Fundo Internacional seria o que senão aplicar essas cotas para a ordem econômica mundial imperialista dominar e controlar toda a Floresta e continuar comprando cotas de poluição?

Colocar esse Fundo sob controle social que garanta a soberania nacional? Como? Junto com o capital, com as empresas multinacionais, com as instituições internacionais imperialistas? Todos sabemos que o único organismo social possível que pode garantir a soberania são os trabalhadores e o povo organizados na luta para por abaixo a grande propriedade privada dos meios de produção capitalista. Sobre isso os psolistas preferem o silêncio.

E para arrematar defendem as chamadas políticas afirmativas do governo Lula, defendem as cotas e o Estatuto Racial que levam a uma verdadeira “balcanização” dos trabalhadores ameaçando de instalar no país um verdadeiro apartheid, fazendo uma crítica pela direita ao governo. Diz o texto aprovado no Congresso do PSOL:

“O governo Lula só criou a Secretaria Especial de Políticas e promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) dois meses e meio após sua posse, em conseqüência de forte pressão de setores do Movimento Negro, mas os encheu de esperanças na expectativa de que muitas das ações afirmativas seriam finalmente implantadas. Logo as expectativas foram frustradas. As cotas de negros nas universidades públicas foram apresentadas e retiradas várias vezes. O Estatuto da Igualdade Racial, hoje no Senado (já aprovado na primeira comissão), não foi defendido de forma mais concreta pelo governo”.

Ou seja, o governo deveria ir mais fundo em seu projeto reacionário (ver artigo sobre o Estatuto Racial aqui).

CARTA ABERTA

AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
SUPREMO MAGISTRADO DA NAÇÃO BRASILEIRA

AO POVO BRASILEIRO


“Trinta anos mudam muitas coisas na vida dos homens, e às vezes fazem uma vida toda”.
(O homem revoltado - Albert Camus)

Se olharmos um pouco nosso passado a partir de um ponto de vista histórico, quantos entre nós podem sinceramente dizer que nunca desejaram afirmar a própria humanidade, de desenvolvê-la em todos os seus aspectos em uma ampla liberdade. Poucos. Pouquíssimos são os homens e mulheres de minha geração que não sonharam com um mundo diferente, mais justo.

Entretanto, freqüentemente, por pura curiosidade ou circunstâncias, somente alguns decidiram lançar-se na luta, sacrificando a própria vida.

A minha história pessoal é notoriamente bastante conhecida para voltar de novo sobre as relações da escolha que me levou à luta armada. Apenas sei que éramos milhares, e que alguns morreram, outros estão presos, e muito exilados.

Sabíamos que podia acabar assim. Quantos foram os exemplos de revolução que faliram e que a história já nos havia revelado? Ainda assim, recomeçamos, erramos e até perdemos. Não tudo! Os sonhos continuam!

Muitas conquistas sociais que hoje os italianos estão usufruindo foram alcançadas graças ao sangue derramado por esses companheiros da utopia. Eu sou fruto desses anos 70, assim como muitos outros aqui no Brasil, inclusive muitos companheiros que hoje são responsáveis pelos destinos do povo brasileiro. Eu na verdade não perdi nada, porque não lutei por algo que podia levar comigo. Mas agora, detido aqui no Brasil não posso aceitar a humilhação de ser tratado de criminoso comum.

Por isso, frente à surpreendente obstinação de alguns ministros do STF que não querem ver o que era realmente a Itália dos anos 70, que me negam a intenção de meus atos; que fecharam os olhos frente à total falta de provas técnicas de minha culpabilidade referente aos quatro homicídios a mim atribuídos; não reconhecem a revelia do meu julgamento; a prescrição e quem sabe qual outro impedimento à extradição.

Além de tudo, é surpreendente e absurdo, que a Itália tenha me condenado por ativismo político e no Brasil alguns poucos teimam em me extraditar com base em envolvimento em crime comum. É um absurdo, principalmente por ter recebido do Governo Brasileiro a condição de refugiado, decisão à qual serei eternamente grato.

E frente ao fato das enormes dificuldades de ganhar essa batalha contra o poderoso governo italiano, o qual usou de todos os argumentos, ferramentas e armas, não me resta outra alternativa a não ser desde agora entrar em “GREVE DE FOME TOTAL”, com o objetivo de que me sejam concedidos os direitos estabelecidos no estatuto do refugiado e preso político. Espero com isso impedir, num último ato de desespero, esta extradição, que para mim equivale a uma pena de morte.

Sempre lutei pela vida, mas se é para morrer, eu estou pronto, mas, nunca pela mão dos meus carrascos. Aqui neste país, no Brasil, continuarei minha luta até o fim, e, embora cansado, jamais vou desistir de lutar pela verdade. A verdade que alguns insistem em não querer ver, e este é o pior dos cegos, aquele que não quer ver.

Findo esta carta, agradecendo aos companheiros que desde o início da minha luta jamais me abandonaram e da mesma forma agradeço àqueles que chegaram de última hora, mas, que têm a mesma importância daqueles que estão ao meu lado desde o princípio de tudo. A vocês os meus sinceros agradecimentos. E como última sugestão eu recomendo que vocês continuem lutando pelos seus ideais, pelas suas convicções. Vale a pena!

Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não fique em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho convicção de que a vitória nesta guerra está reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e da liberdade.

Cesare Battisti
14 de Novembro de 2009.

Porque demonizam Ahmadinejad?

Em uma visita meteórica, de menos de 24 horas, esteve em nosso país, pela primeira vez na história, um chefe de Estado da Nação Persa. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad encontrou-se com o presidente Lula em Brasília no último dia 23 de novembro. A imprensa – que Paulo Henrique Amorim acertadamente chama de PIG, Partido da Imprensa Golpista – como sempre, o demonizou. Cabe-nos, neste espaço, tentarmos entender o porquê disso.

Uma nova farsa, uma nova mentira

Já se disse que uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade. Quanto alemães acreditaram nos discursos vazios, extremistas, nazistas, anti-semitas de Hitler? Como uma Nação inteira foi levada a um delírio coletivo, para apoiar os massacres, as perseguições, o holocausto perpetrado contra judeus, comunistas, ciganos e o povo alemão em si? Havia um secretário de propaganda eficiente. Chamava-se Joseph Goebels. Um expert, um verdadeiro profissional. Controlava a ferro e fogo toda a mídia, as rádios e os jornais (a TV estava iniciando suas transmissões).

Vimos isso entre 2002 e 2003, quando da segunda agressão ao Iraque perpetrada pelos EUA. O então secretário da Defesa, Collin Powell, orientado por George W. Bush, o Júnior, apregoou ao mundo inteiro que o Iraque tinha “armas de destruição de massa” (letal weppons destruction). Nenhuma agência de inteligência de qualquer potência ocidental atestava isso. Mas a mídia, que tudo tenta controlar, vestiu “essa camisa”. Propagava ao mundo essa versão fantasiosa, mentirosa. Pois, não é que após a invasão em 19 de março de 2003 a mentira veio à tona? O mundo viu que foi enganado, ludibriado. Mas, mesmo com as amplas mobilizações que fizemos nas maiores cem cidades do planeta, que levaram ás ruas mais de 20 milhões de pessoas, não conseguimos barrar a invasão. Claro, muita coisa mudou de lá para cá no mundo. A multipolaridade ampliou-se, a esquerda avançou na América Latina, Obama venceu eleições contra os Republicanos, ainda que siga decepcionando seus eleitores e o capitalismo de modelo financeiro entrou em bancarrota. Mas, o Iraque segue ocupado e assim deve ficar até final de 2011!

Desta feita, a “bola da vez” é a Nação Persa. O Irã tem sim um programa nuclear. Inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica atestam as suas finalidades pacíficas. O Irã tem o direito inalienável de deter o ciclo completo da cadeia de enriquecimento de urânio, para fins medicinais, científicos e energéticos. O Irã se compromete com isso em todos os fóruns internacionais de que participa, mesmo optando em não ser signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Os estados Unidos possuem 11 agências de inteligência e de espionagem. Todas – vejam bem, eu disse todas! – atestam por unanimidade que o programa nuclear iraniano não tem capacidade de produzir uma só bomba sequer, pelo menos nos próximos anos, mas ainda assim, toda a imprensa fala da bomba do Irã! Porque isso?

Dei uma entrevista para a rádio CBN, no programa de Heródoto Barbeiro nesta segunda, quando Ahmadinejad já se encontrava em solo pátrio. Debati com o ultraconservador e reacionário professor da UFSM, Dennis Rosenfeld. Este fez a defesa de que o programa iraniano era exclusivo para fins militares e ele estava convicto disso. Eu disse que não. E que os objetivos da visita do presidente do Irã ao nosso país, que muito nos honra, somente servia para que o Brasil reafirmasse a soberania de sua política externa que hoje é reconhecida em todo o mundo pelas maiores nações. Menos no Brasil exatamente por essa mídia golpista.

Não é de se estranhar que o candidato queridinho da mídia, da direita, do consórcio PSDB-DEM-PPS, que atende pelo nome de José Serra (uns chama de Zé Pedágio outros ainda o chamam pelo seu nome verdadeiro de batismo, Zé Chirico), estampou na primeira página do jornalão da família Frias, Folha de São Paulo, o seu artigo onde chama Ahmadinejad de “ditador, visita inaceitável e fraudador de eleições”! O que é inaceitável e mesmo irresponsável é um pretenso candidato à presidente da República, dizer quem um presidente legitimamente eleito – foram 60 milhões de votos no 2º turno em 2006 – deve receber no pleno exercício do seu poder presidencial, na aplicação da política externa de governo e de Estado, que o presidente Lula vem exercendo. Isso é inaceitável e uma irresponsabilidade. Só nos mostra e confirma a quem essa figura esta servindo na atualidade, a que campo de forças ele se propõe a servir.

Tem razão o brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim, em seu site Conversa Afiada quando diz “o Irã tem um programa nuclear que provoca suspeitas nos Estados Unidos e por consequência no PIG; Israel tem bombas atômicas, o que não provoca suspeitas nos Estados Unidos e, por consequência, no PIG” (1). O Irã reafirma ao mundo que seu programa nuclear é pacífico. O Brasil confia nisso e a imensa maioria dos países do mundo também. Menos os golpistas da mídia. Mas por quê?

O jornal Hora do Povo, em sua edição de 25 de novembro, destaca na sua primeira página algumas pistas par entendermos os porquês de tudo isso. Diz lá a manchete “Adeptos do genocídio palestino atacam a política externa brasileira”! Estou plenamente de acordo com isso. Falou-se que Ahmadinejad negaria o holocausto judeu – e nunca fez isso – mas a mídia se cala diante do holocausto palestino cometido diariamente contra Gaza e moradores da Cisjordânia. Os que “protestaram” contra a presença de Ahmadinejad no Brasil – uns gatos pingados em Ipanema e em Brasília – portavam ostensivamente bandeiras de Israel e dos Estados Unidos!

Ora, as coisas assim se encaixam. Ahmadinejad é odiado pelas elites e pela imprensa golpista porque atua num campo da política e do direito internacional que da combate frontal ao imperialismo norte-americano. Porque combate o modelo de financeirização do capital. Porque defende alianças mais progressistas com governos e países de um campo mais avançado. Isso é fato, por mais que a mídia tente esconder e escamotear. Uma pena que setores iludidos e pretensamente de esquerda ainda caiam nesse canto de sereia.

O Irã na atualidade

Os dos mais inteligentes e competentes jornalistas na atualidade, Antônio Luis Monteiro Coelho da Costa, da revista Carta Capital, nos apresenta dados interessante sobre o Irã atual, Nação moderna e progressista, apesar dos problemas e de muito que se tem que modificar ainda (2):

• No Irã não se usa a burca típica do Afeganistão; quase não se vê também o nigab (veu que cobre o rosto), ainda hoje obrigatório na Arábia Saudita, nos Emirados do Golfo, no Iêmen, Paquistão entre outros;
• A participação das mulheres na sociedade iraniana é das maiores no mundo. Na economia, chega a 40% (maior que no Chile, Egito, Turquia entre outros); mais de 50% dos estudantes do ensino superior sã mulheres (igual à Holanda e maior que México, Chile, Turquia e a maioria dos países muçulmanos);
• Mesmo sendo questionado o modelo de eleições iranianas, onde o clero islâmico tem grande poder e influência, não há nada igual, nem de longe, nos países árabes, monárquicos – a imensa maioria – onde o povo quase nunca é chamado a votar;
• O Ocidente reverbera denúncias de fraude sem comprovação alguma, mas pouco destaque deu à monumental fraude no Afeganistão, onde o queridinho da mídia, Hamid Garzai – segundo a revista Vogue, um dos homens que melhor se veste no mundo – foi “reeleito” na base do “bico de pena”, no tapetão;
• O Irã é um país moderno, industrializado, com renda per capita maior que a nossa, que a da África do Sul, da Tailândia, entre outros;
• Em fevereiro do ano passado colocou em órbita, com recursos e tecnologia própria, um satélite de comunicação, o primeiro no mundo muçulmano;
• Suas montadoras de veículos fabricam mais carros que a Itália (um milhão de carros);
• 35% dos iranianos tem acesso à Internet, menos que o Brasil e este ano as projeções são de que atinjam 48%;
• A região metropolitana da Grande Teerã tem 13 milhões de habitantes, com moderna rede de metrô e de transporte público, muito superior a qualquer capital brasileira;
• Ao contrário do que diz a “revista” (folheto de propaganda) Veja, da família Civita, o Irã e seus mulás (clérigos da hierarquia islâmica), não querem a “volta à idade média”; ao contrário; querem a modernização, ainda que sob seu controle;
• Ainda que 98% sejam islâmicos no país, nem todos são persas (apenas 51%, como Ahmadinejad; uma segunda etnia forte e grande é a azeri, do líder espiritual Ali Khamenei, que sucedeu Khomeini, que era persa;
• Ao contrário de Israel, do Paquistão e mesmo do Iraque, na época de Saddam Hussein, o Irã nunca atacou seus vizinhos em nenhum momento ou reivindicou qualquer de seus territórios;
• É verdade que metade dos 80 mil judeus que moravam no Irã há 30 anos, quando da eclosão da Revolução Islâmica, emigrou para outros países; mas, os que lá permaneceram, até lutaram para derrubar a monarquia fascista do Xá Reza Pahlevi em 1979 e defenderam o aís dos ataques iraquianos entre 1980 a 1988; e hoje vivem um clima de ampla liberdade, sem nenhuma restrição ao seu culto, à sua educação judaica, às suas viagens e até seu principal líder, Haroun Yashayaei até criticou Ahmadinejad – sem ser punido! – por este questionar o holocausto.

Enfim, poderíamos nos estender a outros aspectos positivos da vida política, cultural e social do social da República Islâmica do Islã. Mas não será necessário. O ponto central é em torno de quem orbita esse pequeno gigante, imenso produtor de petróleo hoje no mundo. O Irã não faz o jogo dos estados Unidos. Muito ao contrário. Dá-lhe frontal combate. Ahmadinejad articula suas alianças hoje com a Venezuela de Chávez, a Bolívia de Evo e, claro, com o nosso Brasil sob o comando do presidente Lula. Se não fosse isso, não seria tão demonizado com vem sendo feito por essa imprensa golpista. Que tenta mentir ao mundo que á é uma ditadura, as eleições foram fraudadas e que o Irã quer a bomba. Tudo mentira.

Já nos primeiros anos do meu curso de Ciências Sociais – e já se vão 30 longos anos – na disciplina de Antropologia aprendi um conceito que a nós, sociólogos, nos é muito caro. O de “relativismo cultural”. Significa que devemos ver as outras nações, as outras culturas, as outras civilizações, diferentes das nossas, com um relativismo, procurando encarar seus hábitos e costumes com naturalidade, sem arrogância e sem a prepotência de achar que nossa cultura Ocidental é melhor e deve ser seguido por todos os povos da humanidade.

O povo do Irã escolheu esse caminho de forma soberana, autônoma, com liberdade. Fizeram uma Revolução em 1979, ainda que com rumos que eu até possa não estar de pleno acordo. Mas devo aceitá-los. O que entristece a turma dos golpistas da mídia e a sua elite, é que esse país soberano saiu da órbita dos Estados Unidos. Nunca nos esqueçamos – e o povo iraniano guarda isso bem guardado em sua memória histórica – dos episódios da nacionalização do petróleo levado à cabo pelo então primeiro Ministro Mossadegh em 1953. Não resistiu um ano e foi derrubado com a ajuda da CIA, que garantiu o controle do petróleo para os EUA e para a Inglaterra a partir daí até 1979, quando ele volta para o controle do povo.

Ai está, em poucas palavras, porque o Irã é tão demonizado por essa mídia golpista. Só por isso, já devemos ver com bons olhos esse grande país, de civilização milenar, organizada a partir do Grande Ciro, da Pérsia séculos antes da atual era cristã. Vida longa ao Irã!

Serra, em apuros, foge da economia e da comparação

Alfinetado por aliados e pela pesquisa CNT/Sensus desta segunda-feira (23), que o mostra em queda, o governador tucano José Serra moveu-se. Mesmo sem dizer se concorrerá à Presidência dentro, disparou uma bateria de entrevistas sobre política, e 2010. O problema: ele ainda não sabe o que dizer. A tese de Serra, de que "a economia não vai decidir a eleição", bate de frente com o bordão, hoje clássico, da campanha americana de 1992: "É a economia, estúpido!".

A frase do 'estúpido' foi cunhada para a campanha presidencial de Bil Clinton por seu estrategista, James Carville. Elegeu Clinton. Fez a celebridade de Carville. Relançou, um século mais tarde e num mundo sem União Soviética, a noção de Vladimir Lênin de que "a política é a expressão concentrada da economia". Virou um ícone da ciência política aplicada contemporânea.

José Serra, que se declara economista (embora ao que consta nunca se tenha graduado ou pósgraduado na matéria), agora afirma o contrário. "A percepção de que a economia vai bem é um dado da realidade. Mas eu não acredito que a economia vai decidir a eleição", disse nesta semana para Rádio Jovem Pan.

O candidato não anunciado explica. Para ele, "a população vai querer saber quem é mais preparado". E dá um exemplo: "Se a economia está em boas mãos seria como decidir sobre a substituição do motorista de um ônibus que está andando bem. O eleitor terá que decidir sobre quem está mais apto para continuar conduzindo o ônibus da melhor forma possível."

A tese ("economia não decide eleição"), o argumento ("a decisão será sobre quem é mais preparado") e por fim a metáfora do ônibus formam uma tentativa quase patológica de despolitização da política. Têm toda a cara de engendros de marqueteiro, fornecidos ao quase candidato a partir de alguma pesquisa qualitativa, dessasfamosas 'qualis' que abundam em épocas pré-eleitorais, só que realizada com eleitores de não mais de dois neurônios em funcionamento.

Em política, a questão número um é o rumo, a plataforma, o programa. Para ficar na metáfora de Serra, é saber para onde vai o ônibus. Se o itinerário estiver errado, quanto mais "apto" for o motorista, maior será o desastre.

A mesma despolitização sem rumo – ou, pior, que procura escamotear o seu rumo – leva o governador paulista a recusar a comparação entre os governos de Lula e Fernando Henrique Cardoso. O pessoal não vai ficar olhando para trás", argumentou Serra. Para ele, nesse caso, o lógico seria comparar FHC com seus antecessores (ele citou Fernando Collor e José Sarney) e não com seu sucessor.

O raciocínio deve ter sido tirado da mesma 'quali dos sem-neurônios'. Se é assim, com quem o governo Lula deve ser comparado?

A comparação interessa justamente para evidenciar as diferenças de fundo, de rumo, sobre o percurso do ônibus. Foi isso, e não a 'aptidão do motorista' que levou 76% dos entrevistados pela CNT/Sensus a dizer que o governo de Lula é melhor que o de FHC, e 10% a responder o contrário.

Por isso Lula, e sua candidata a sucessora, Dilma Rousseff, perseguem sistematicamente a comparação. Querem um plebiscito no próximo 3 de outubro, entre quem prefere o governo Lula e quem prefere a administração tucana de 1995-2002.

Por motivos simétricos e opostos, Serra e a oposição fogem da comparação e do plebiscito. É um direito deles. Se vão conseguir, são outros 500. Para começar, deviam encomendar uma nova bateria de 'qualis', de preferência com gente que tenha mais de dois neurônios na ativa. Quem sabe encontram argumentos melhorzinhos.

Maria Inês Nassif: oposição já sabia que Serra iria cair

O resultado da última pesquisa CNT-Sensus, divulgada na segunda-feira, reflete em números uma realidade que já estava presente há pelo menos dois meses nas análises e nos debates internos dos partidos de oposição. Essas análises justificaram as pressões de parcelas do PSDB, do DEM e do PPS sobre o candidato tucano com mais votos nas pesquisas, José Serra, para que ele decida até o final do ano se será o candidato a presidente da República pela coligação.

As informações de dentro do bloco oposicionista já apontavam a tendência registrada na pesquisa CNT-Sensus trazida a público essa semana, cujos dados foram coletados entre 16 e 20 de novembro.

Moveram as pressões sobre Serra: o fato de os índices de intenção de voto em Dilma Rousseff, a candidata do presidente Lula e do PT, estarem subindo devagar, mas sustentadamente; a lenta e constante queda de Serra nas pesquisas de intenção de voto; a constatação de que a candidatura de Ciro Gomes (PSB) produziu, sim, estrago nas intenções de voto à oposição, em especial se o candidato for o governador de São Paulo; a percepção de que Dilma saiu de uma posição de fragilidade, logo após um traumático tratamento de saúde – durante o qual manteve pouca exposição pública e índices quase declinantes de intenções de voto – para outro, em que assumiu a sua posição de candidata e se manteve ao lado de Lula, caracterizando-se como aquela a quem os simpatizantes do presidente devem transferir o voto.

Uma ala do PSDB menos ligada a Serra e o DEM estão contrariados, mas de qualquer forma interessados em que a candidatura de oposição se resolva logo, equacione seus problemas originais e consiga retomar o Palácio do Planalto com a sustentação da mesma aliança que deu a vitória ao presidente Fernando Henrique Cardoso em duas eleições. Mas os dois grupos se ressentem de que a ausência, no cenário político, de uma candidatura efetiva da oposição tem dificultado até as tentativas regionais de articulação para subtrair apoios do PMDB, que será o principal aliado do PT nas eleições do ano que vem. O PMDB, como é tradição em todas as eleições, tem potencial de ir rachado para o palanque de Dilma. Se rachar muito, o apoio a Dilma pode ser derrubado na convenção e ela não terá o tempo de propaganda eleitoral gratuita do PMDB. Se rachar pouco, isso pode, ainda assim, subtrair votos da candidata governista. A ausência de um nome em favor do qual a negociação de traição possa acontecer, todavia, dificulta bem as coisas. O PT e seus aliados, pelo fato de terem uma candidata já definida e um grau reduzido de divisão, anteciparam-se também na articulação de alianças. Têm alguns palmos de vantagem em relação à oposição nesse particular.

Outros dados devem ser agregados a esses que mobilizam as pressões de Serra pelos seus aliados. A postulação de dois candidatos do PSDB e a concentração da decisão em apenas um deles pode produzir as mesmas fissuras das eleições passadas. Em 2006, a decisão de candidatura do PSDB ficou concentrada em Fernando Henrique, José Serra, Tasso Jereissatti e Aécio Neves. José Serra foi o escolhido, não quis correr riscos, abriu espaço para a postulação de Geraldo Alckmin e as principais lideranças praticamente abandonaram o candidato no meio do processo eleitoral. Não foi uma solução de unidade. Agora, com dois candidatos – Aécio Neves e José Serra -, a decisão se afunilou mais ainda: está nas mãos de Serra. Uma única pessoa deve decidir o rumo que grande parte da oposição vai tomar, com chances de não querer correr nenhum risco e decidir abrir espaço para Aécio Neves, mas entregar o partido rachado para seu adversário interno. Na hipótese de resolver ser candidato, Serra também pode não levar os votos dados a Aécio no segundo colégio eleitoral do país, Minas Gerais. Nenhuma das opções, pelo fato de a decisão se afunilar novamente, garante a unidade partidária – embora os demais partidos de oposição não tenham outra opção a não ser a de apoiar qualquer um dos dois pré-candidatos tucanos.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política do jornal Valor Econômico, onde este artigo foi publicado originalmente com o título "Decisão deve afunilar nas mãos de um só".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

'A história oficial exclui os negros da construção do país', denuncia Cláudia Durans

A afirmação é de Cláudia Durans , professora-adjunta do Departamento de Serviço Social da a UFMA e membro do Grupo de Estudos, Pesquisas e Debates sobre Movimento Social e Serviço Social. Confira a entrevista

A história oficial nega a visibilidade do negro na construção do país, tratando heróis da luta pela liberdade e dignidade do povo brasileiro como verdadeiros marginais. Amparada pela falsa crença na democracia racial brasileira, parte da sociedade finge desconhecer que, hoje como antes, os negros ocupam os piores postos de trabalho, recebem os menores salários, sobrevivem em favelas e periferias, lutam pela vida à mercê da política de extermínio imposta pelo Estado e enfrentam a criminalização sistemática de suas formas de luta e organização.Para falar sobre esses e outros assuntos neste 20/11, Dia Nacional da Consciência Negra, o Informandes Online entrevista a 3ª secretária do ANDES-SN e membro da coordenação do Grupo de Trabalho de Etnia, Gênero e Classe - GTEGC da entidade, Cláudia Alves Durans. Doutora em Serviço Social pela UFPE, mestra na mesma disciplina pela UFPB, Cláudia se graduou na UFMA, onde atualmente é professora-adjunta do Departamento de Serviço Social e membro do Grupo de Estudos, Pesquisas e Debates sobre Movimento Social e Serviço Social.Confira a entrevista:

Informandes Online - Qual o real significado do dia 20/11?
Cláudia Durans - A história oficial brasileira tem negado a visibilidade do povo negro na construção do nosso país. Heróis como Zumbi, Negro Cosme, João Cândido e heroínas como Luiza Mahin, Maria Firmina dos Reis, entre outros, que lutaram pela liberdade e dignidade do povo negro, são ocultados ou mesmo tratados como marginais na história.

A força do movimento impôs, em 2003, através do Projeto de Lei nº 10.639, o Dia 20 de novembro como DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA, em reconhecimento ao líder do Quilombo dos Palmares, que morreu em combate nesse dia, no ano de 1695.

Zumbi liderou a experiência mais significativa de construção de uma sociabilidade que primava pela igualdade e liberdade, desafiando o sistema opressor escravista. Cerca de 20 mil pessoas viveram e resistiram por mais de um século em Palmares.
Zumbi é o símbolo da nossa resistência, da nossa luta. Um exemplo de dignidade e nos inspira na luta atual por liberdade, contra a opressão, a exploração e humilhação a que foi submetido o nosso povo.

O Brasil possui a segunda maior população negra do mundo. Como vive essa população no país?
CD - A população brasileira hoje é de cerca de 192 milhões de habitantes, segundo dados do IBGE. Desse total, 6,3 se declaram negros e 43,2% “pardos”, ou seja, 49,5% são afro-descendentes. Esta população, após o fim da escravidão legal, não foi integrada ao novo sistema de produção como força de trabalho “livre”, com acesso pleno aos bens e serviços desenvolvidos no sistema urbano-industrial, que se desenvolveu principalmente a partir de 1930.

No decorrer do século XX e nesta primeira década do século XXI, os afro-descendentes sempre estiveram inseridos nos piores postos de trabalho, no trabalho informal, no desemprego (que hoje é por volta de 40% do desemprego total, entre negros e negras), e com menores salários. As mulheres negras representam o setor mais empobrecido da sociedade e as que mais sofrem com a violência doméstica.

Para a juventude negra está reservada a desesperança, a violência, a falta de acesso à educação. Dados do mapa da violência no Brasil denunciam que atualmente está ocorrendo um verdadeiro extermínio da juventude negra (e também indígena), com altas taxas de homicídios. No ultimo relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mostra que os maiores índices de pobreza estão na população negra e indígena. Além disso, em momentos de crise econômica, como o que estamos vivendo agora, são os primeiros a serem demitidos.

Como fica, então, o mito da democracia racial no Brasil? Existe preconceito no país?
CD - Sem dúvida. A estrutura capitalista colocou negras e negros nas posições sociais mais subalternas e humilhantes da sociedade e isso se refletiu na construção de padrões culturais e valores que imputam a negros e negras uma imagem negativa. Analiso o racismo como esse aproveitamento de diferenças e desigualdades, que são naturais, para submeter setores que as condições sociais, econômicas, políticas, culturais construídas historicamente que levaram ao racismo. E, o que é mais perverso, à “autonegação”.

A criminalização da pobreza e dos movimentos sociais é uma forma de manifestação desse preconceito?
CD - Sim. Hoje, apesar de vivermos num chamado “Estado Democrático de Direito”, a “questão social” é tratada como caso de polícia. Então, mediante a situação de miséria a que a população negra foi submetida, ao invés do investimento em políticas públicas voltadas para a educação, saúde, saneamento, habitação, lazer, esporte, trabalho que garantam melhores condições de vida, o que assistimos é a pobreza ser tratada como crime.

Seja nos morros do Rio de Janeiro, nas favelas de São Paulo, de Recife, Salvador ou São Luís, o que está presente é o braço armado do Estado, quando muito, políticas sociais compensatórias que deveriam ter caráter emergencial, mas que são tomadas como medidas permanentes que reiteram a subalternidade, a baixa auto-estima do nosso povo.

Como sabemos, quando o Estado não consegue manter a ordem pelo convencimento, recorre à repressão. E isto estamos observando na criminalização dos movimentos sociais combativos, que ousam enfrentar a ordem, exigir direitos e mobilizar e organizar essas populações empobrecidas. É importante dizer que nisto o governo Lula é tão competente que está exportando seu modelo repressivo para o Haiti.

Por outro lado, é importante alertar para o processo de cooptação, por parte do governo Lula, de lideranças do Movimento Negro, o que culminou recentemente com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, com apoio da bancada ruralista do Congresso Nacional, retirando bandeiras históricas do Movimento Negro, como a concessão de titulação de propriedade das terras dos remanescentes de quilombos. Além disso, governo Lula retirou o dispositivo que garantia a alocação de verbas direcionadas ao ensino de História da África na educação básica.

Qual é a posição do ANDES-SN sobre as políticas afirmativas, incluindo a questão das cotas nas universidades?
CD - O ANDES-SN defende a educação pública, gratuita, de qualidade, socialmente referenciada. Mas, como um sindicato nacional dos docentes das instituições de ensino superior, estende suas preocupações para diversas áreas, buscando sempre estabelecer relações com os movimentos organizados da classe trabalhadora, da juventude dos camponeses e dos setores oprimidos e explorados.

No 26º Congresso realizado em Campina Grande foi reafirmada a política de ações afirmativas, já aprovada pelo Sindicato vinculada ao acesso e permanência, explicitando posicionamento contrário à política de cotas e denunciando as diferentes iniciativas de cooptação dos movimentos sociais, por parte dos governos, em torno desse tema.

No 28º realizado em Pelotas-RS foi aprovado pautar e votar novamente a temática para o 29º Congresso que ocorrerá em janeiro de 2010, em Belém do Pará. Foi aprovada ainda a realização um Seminário Nacional neste ano de 2009, que ocorrerá nos dias 11 e 12 de dezembro, na cidade de Salvador, na Bahia (UNEB). O seminário terá como conferencista da mesa de abertura o professor Kabegelê Munanga (USP).

E qual a posição da Conlutas em relação a esses temas?
CD - A CONLUTAS defende as Ações Afirmativas, as cotas raciais (e sociais), bem como assistência aos estudantes cotistas, como reparação do Estado ao povo negro por 3 séculos de escravidão, como política transitória. Especialmente neste momento em que a política de cotas está sendo duramente atacada e persistem os elevados índices de analfabetismo, baixa escolaridade e apenas 2,5 % de negros e negras cheguem ao ensino superior.
Najla Passos - ANDES-SN

México: Paralisação Nacional

Jornada histórica que aponta o caminho para reverter os ataques do Governo Calderón.

A paralisação cívica nacional do último dia 11 de Novembro, convocada pelo Sindicato Mexicano de Eletricistas (SME) significou um grande passo adiante nas lutas dos trabalhadores para construir uma força unificada para enfrentar os ataques do governo.

Constitui a ação mais unificada das organizações dos trabalhadores, camponeses e jovens por uma luta sindical desde os anos 30. Sem dúvida, como disse a palavra de ordem: “assim se constrói o movimento operário”.

Mais de 700 organizações se somaram às ações de protesto em todo o país, o qual praticamente paralisou a Cidade do México e teve manifestações de apoio em todas as cidades importantes do país, com uma grande marcha central, onde participaram ao menos 300 mil trabalhadores e jovens. Mas isso não é tudo, houve manifestações importantes em Sonora, Sinaloa, Durango, Coahuila, Zacatecas, Michoacán, Oaxaca, Tabasco, Yucatán.

Dentre os setores mobilizados, destacam-se os estudantes e trabalhadores universitários, que protagonizaram a maior paralisação em seu setor desde 1968, mais de 1 milhão de trabalhadores e jovens pararam tão só no que respeita aos centros de educação médios e superiores. Ainda naqueles lugares onde as autoridades manobraram para impedir a ocupação das instalações, os trabalhadores e os jovens se opuseram a ingressar, o que denota um fermento de descontentamento bastante profundo entre a juventude.

Segundo o governo do D.F., efetuou-se 33 manifestações somente na Cidade do México e dezenas de bloqueios com a participação de milhares de pessoas, nos distintos piquetes, o que teve um efeito paralisante ao conjunto da Cidade do México, a qual viu suas ruas semi-desertas.

Um indicador do monitoramento da paralisação é de que, durante as horas de pico em plena metade da semana de trabalho, o metrô estava comparativamente bastante vazio.

Ainda há muitos setores que devem se somar à luta

Lamentavelmente não há dados da incidência da paralisação entre os operários fabris, o controle gangster segue sendo férreo nessas empresas, e os trabalhadores não têm a possibilidade de se expressar de modo algum, mais que se ausentando, coisa que aconteceu sem que isso tivesse significado suspensões de trabalhos que tenham transcendido. É claro que a profundidade da mobilização deve estar gerando bastante inquietude na classe operária industrial e, seguramente, se abrirão grandes oportunidades para o estalar de lutas neste setor estratégico do proletariado mexicano, se for dado uma orientação firme por parte da direção do movimento nesse sentido.

Um caso à parte é sobre o desempenho do Sindicato Mineiro, o qual protagonizou a maioria das mobilizações no norte do país. Não há dúvida de que o processo de mobilizações que o referido sindicato desempenhou gerou um nível de consciência bastante desenvolvido. No mesmo sentido, estiveram os professores da CNTE em Oaxaca, os quais também efetuaram uma paralisação praticamente total.

Os trabalhadores eletricistas jogaram um papel-chave nas distintas mobilizações em Hidalgo, Morelos, Puebla e o Estado do México e, indubitavelmente o governo fracassou na tentativa de reprimir o movimento, buscando algum tipo de provocação. Salvo os conflitos provocados pela própria Polícia Federal, na estrada México-Querétaro, a jornada se realizou sem maiores incidentes. É claro que o Governo tratou de apresentar os trabalhadores eletricistas como uns delinqüentes que agridem policiais e buscaram empregar os trabalhadores detidos como seus reféns.

Não podemos deixar de fazer um comentário crítico aos dirigentes sindicais que, ainda que tenham manifestado publicamente seu apoio ao SME, não chamaram à mobilização e nem organizaram ações de luta. Particularmente destacável foi o caso do Sindicato dos Telefônicos do México, o qual organizou uma mobilização à parte nas Comunicações e desanimaram na participação das mobilizações da tarde, ainda que não tenha podido evitar que, em diversas seções do estado, os trabalhadores telefonistas encabeçaram os protestos, como foi o caso em Culiacán, Sinaloa, Campeche e outros lugares.

Algo semelhante foi o que ocorreu com o movimento que órbita entre AMLO (Andrés Manuel López Obrador) e o PRD (Partido da Revolução Democrática, em tradução livre). As manifestações de apoio ao SME são boas, não obstante, três milhões de afiliados ao governo legítimo em todo o país puderam jogar um papel mais protagonista organizando-se e concentrando-se em um plano de ação sério. Lamentavelmente a AMLO se limitou a seguir seu giro por Oaxaca sem dar diretrizes claras.

Outro caso foi o da Aliança dos Transportadores, que tampouco suspendeu os trabalhos, limitando-se em somar contingentes às mobilizações da tarde.

Por outro lado, é muito sintomático que os trabalhadores do Instituto Mexicano do Seguro Social tenham desafiado as ameaças de seu dirigente (Valdemar Gutiérrez, deputado pelo PAN – Partido de Ação Nacional, em tradução livre) e tenham somado de maneira grandiosa às mobilizações.

Os donos da rua

Não há dúvida de que por algumas horas os trabalhadores foram donos das ruas, praticamente todos os atos oficiais se suspenderam, de tal modo que os distintos funcionários públicos do Governo Federal se viram na necessidade de se esconder no momento em que a jornada chegava ao fim.

É claro que em jornadas como esta se demonstra que o único sustentáculo do regime são suas forças repressivas, que ainda postas todas em ação, são insuficientes para impedir a manifestação dos trabalhadores, sobretudo quando essa é tão massiva e organizada.

Em suma, podemos afirmar que o Paro Cívico Nacional foi um êxito, fazendo participar milhões de trabalhadores, jovens e camponeses do país, enfim, os setores mais organizados e politizados, que teve um seguimento massivo e que enche de confiança aos trabalhadores em suas próprias forças.

Por outro lado é evidente um avanço na tomada de consciência dos trabalhadores mobilizados em respeito a que este conflito é uma questão de classe, que vai mais além da simples solidariedade e que só derrubando este governo será possível ter um suspiro em respeito aos ataques que desde o primeiro dia este tem lançado.

É claro que não podemos, senão manifestar nossa simpatia, quando Martin Esparza diz que é necessário “estabelecer um movimento social pacífico para recuperar o poder desde o povo”, ou quando Agustín Rodríguez, dirigente do STUNAM, fala de preparar a “Greve Nacional” (El Universal, 12 de novembro de 2009). Sem dúvida, são reflexos das imensas pressões que os trabalhadores estão imprimindo em suas direções. Não obstante, estas declarações devem vir acompanhadas com medidas concretas para que se tornem realidade, ou do contrário a tática de desgaste orquestrada pelo Governo Federal começará a render frutos.

Sem dúvida a paralisação nacional desse 11 de Novembro marca o rumo que devem seguir as ações, o passo seguinte deve comprometer a todas as organizações, PRD e sindicatos industriais incluídos, a dar uma luta de fundo. Deve-se preparar uma intensa campanha em defesa dos contratos coletivos e chamados à assembléias sindicais em todas as empresas para preparar comitês de greve. Falar da greve geral está bem, mas deve-se lançar já um plano de ação, que pode incluir paralisações escaladas e concentrações conjuntas, que comprometa todos os sindicatos em ir até o fim.

A moeda ainda está no ar, mas o dia 11 de Novembro demonstrou que a vitória é possível caso se construa um movimento unitário com a tática:
golpear todos juntos, no mesmo local, na mesma hora e com um objetivo claro: deter o ataque ao SME como um primeiro passo rumo à queda de Felipe Calderón.

28 Quilombolas foram Detidos no Espírito Santo

28 (vinte e oito) Quilombolas foram detidos hoje, no mandado de busca e apreensão no Sapê do Norte na Comunidade Quilombola de São Domingos em Conceição da Barra no Espírito Santo, nessa mesma comunidade nos dias 20, 21 e 22 de novembro acontecerá a sexta edição do festival do Beiju. 130 policiais (é isso mesmo, não coloquei um zero á mais não) é esse o número de policiais vindos de alguns municipios, com caminhões e fortemente armados para cumprir os mandados. 09 (nove) Quilombolas foram detidos em casa.

Prederam também: 03 Caminhões, 07 tratores, madeiras/eucalipto, motoserras. Mas o caso em que mais chamou atenção foi um policial que agrediu uma menor (neta do Berto Florentino, brincante do baile de Ticumbi de São Benedito de Conceição da Barra/ES) com um tapa no rosto, por desacato a autoridade.

A desculpa é a madeira (resto do eucalipto) usado pelos quilombolas para fazerem carvão, mais conhecido como 'facho' e isso justificaria a agressão como o tapa no rosto de uma criança levou, ao ver seu avô sendo levado pela 'polícia', disse: que eles não eram homens para levar o avô dela preso. Mulher, criança, Quilombola, veja o nível da violência e do despreparo da polícia para lidar com tal situação. E quem não reagiria assim ao ver um dos seus sendo preso?

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MILÍCIA E PM ATACAM INDÍGENAS TERENA EM MATO GROSSO DO SUL

No dia 19 de novembro, por volta das 12h, uma milícia fortemente armada, composta por 30 fazendeiros e 60 homens da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, invadiram sem ordem judicial a área ocupada por indígenas Terena da Terra Indígena Buriti, no município de Dois Irmãos do Buriti, Mato Grosso do Sul. A milícia expulsou os indígenas da área fazendo uso de ameaças, agressões físicas e verbais. Dois índios Terena ficaram feridos.

A ocupação feitas pelos indígenas na Fazenda ?Querência São José? foi garantida pela Justiça Federal de Campo Grande que julgou extinto o processo de reintegração de posse movida em nome do espólio do fazendeiro Munier Bacha. A Polícia Federal de Campo Grande confirma não haver nenhuma ordem da Justiça Federal para o despejo dos indígenas, o que significa que a ação da milícia é ilegal e abusiva, pois não está amparada pelo judiciário.

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CAOS. O transporte público em São Paulo

Superlotação, tarifas elevadas, trânsito e reduzida prioridade por parte dos governos municipal e estadual no cotidiano dos cidadãos paulistanos

Matilde Soares leva cerca de duas horas para ir de sua casa até o trabalho. No percurso de Ferraz de Vasconcelos, município localizado na região leste da Grande São Paulo, até o bairro do Tucuruvi, zona norte da capital, a auxiliar de serviços gerais utiliza quatro meios de transporte coletivo: pega lotação até a estação de trem de Ferraz de Vasconcelos de onde segue para o centro; na Estação Luz faz integração com o metrô e vai até a Estação Tucuruvi; finalmente, pega um ônibus para chegar à fabrica na qual trabalha.

“É muito cansativo, vou em pé de casa até o serviço”, conta a trabalhadora de 43 anos, mãe de três filhos, viúva e que depende do emprego para sustentar a família. Matilde faz esse percurso diariamente há cerca de cinco anos e relata que, apesar de terem acontecido melhoras no transporte coletivo de São Paulo, como a integração na Estação da Luz do metrô com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e do desconto nas passagens através do bilhete único, “ainda falta muito a ser feito pelo trabalhador”.

“Nos horários que vou para o trabalho e volto para casa a condução é muito cheia. À tarde, então, na troca de trem que a gente faz em Guaianazes, já me machuquei várias vezes, é um empurra-empurra, o trem que vai para Mogi demora a chegar, depois demora a partir, os trens que vêm da Luz não param de chegar, as plataformas vão ficando lotadas. É um descaso muito grande o que fazem com a gente”, afirma. A integração citada por Matilde é feita na Estação Guaianazes, da CPTM, entre o Expresso Leste, que vem da Estação Luz, e a linha 11-Coral, com destino à Estação Estudantes, em Mogi das Cruzes.

As dificuldades enfrentadas por Matilde na utilização do transporte coletivo não se restringem somente à cidade de São Paulo, como também não são únicas do sistema sobre trilhos. Elas se repetem na vida de muitos outros trabalhadores, seja na superlotação do transporte coletivo em geral, principalmente nos horários de pico, como no valor elevado das tarifas ou no trânsito enfrentado por aqueles que utilizam ônibus.

No caso da cidade São Paulo, na avaliação de especialistas, a situação do sistema de transporte coletivo é caótica e falta atenção dos governos municipal e estadual para o setor, que acabam priorizando o transporte individual através de grandes obras na malha viária da capital.

João Arruda, de 59 anos, indigna-se ao falar sobre o transporte público paulistano. Para o aposentado, há uma falta uma organização da população para cobrar os seus direitos daqueles que ela mesma elegeu. “Enquanto nós continuarmos aceitando esse tipo de descaso, a situação não vai mudar”, protesta.

Políticas públicas

Arruda afirma que o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e o prefeito da capital, Gilberto Kassab (DEM), “não estão preocupados com o povo e, por isso, a situação do transporte público está desse jeito”.

Wagner Gomes, presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), avalia que “o transporte público em São Paulo chegou à beira do colapso, tanto do ponto de vista dos ônibus, como de trens e metrô”.

A mesma opinião é compartilhada pelo ex-secretário municipal de transportes (1990-1992) na gestão Luiza Erundina e engenheiro, Lúcio Gregori, que acredita que o agravamento da situação faça com que talvez a questão do transporte coletivo seja priorizada pelos governos. Para ele, os meios coletivos são “problemas de políticas públicas”.

“Diferentemente da saúde em que a prevenção é o melhor caminho, nessa questão parece que será o quadro agudo que ajudará. Espero. Ou então suportaremos o insuportável. Fazer o que?”, relativiza.

Caminhos

Nesse sentido, Gregori aponta, por exemplo, como solução à questão da mobilidade através dos ônibus, a construção massiva de corredores, ao invés de se reservar mais espaço para os carros.

Já em relação à superlotação dos trens, tanto da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) como da CPTM, Wagner Gomes alega que a solução é a expansão do sistema sobre trilhos. “Não dá para colocar mais trens. O intervalo entre trens no metrô, por exemplo, já é de 90 segundos, é mínimo. O que precisa é uma política de expansão”, defende.

No entanto, Lucas Monteiro, militante do Movimento Passe Livre de São Paulo, alerta que a expansão do sistema metro-ferroviário deve ser feita de modo a atender as necessidades da população. No caso do Programa de Expansão realizado por José Serra, o militante do MPL critica a falta de participação da população no traçado do projeto. “A população não participa das decisões sobre como essa expansão vai se dar, o que é extremamente problemático do nosso ponto de vista”, afirma.

Tarifa zero

Monteiro pondera que, além de se realizar a ampliação da oferta de transporte público, é necessário também que o sistema seja acessível a toda a população. Para ele, a gratuidade do serviço, principal bandeira do MPL, é uma das medidas mais importantes a serem tomadas.

Ele conta que o movimento busca conscientizar a população sobre o direito ao transporte e a cobrança de tarifas. “Talvez essa seja a nossa maior dificuldade, porque as pessoas acham natural pagar pelo transporte, algo que é completamente não natural”, relata. Segundo o movimento, o transporte é um direito da população, já que trata-se de um serviço público, igual à saúde e à educação, e deveria ser custeado de outras formas, ao invés de onerar o usuário no momento da utilização.