terça-feira, 24 de novembro de 2009

Venezuela X Colômbia: Os interesses que fomentam a tensão

Alexander Mosquera professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Zulia, Venezuela, tem nas análises de discurso político seu tema de pesquisa. Em entrevista ao Brasil de Fato o professor venezuelano da cidade de Maracaibo alerta para o crescente tensionamento entre Colômbia e Venezuela, especialmente fomentado pelos meios de comunicação.

“Uribe se alinhou à política dos Estados Unidos, tanto que Chávez se manifestou contra a política bélica, terrorista e intervencionista dos norteamericanos, e juntamente afirma a soberania da Venezuela e a construção de um mundo multipolar, onde há espaço para todos e acabam-se as exclusões. Essa é a razão pela qual um terceiro mandato de Uribe é visto com muito bons olhos pela imprensa do norte”, afirma o professor.

Brasil de Fato: Você acredita que há um aumento das tensões entre Venezuela e Colômbia nos últimos anos?
Alexander Mosquera: Acredito que nos últimos anos tem se acentuado a tensão entre ambos os países, sobretudo desde que a Colômbia embarcou nessa aventura com os Estados Unidos que chamam de “Plano Colômbia”, através do qual se fez mais evidente a entrega da soberania neogranadina aos norte-americanos, sob a desculpa de combater a guerrilha, o terrorismo e o narcotráfico.

Essa cessão dos direitos do povo colombiano é mais palpável hoje em dia, à luz do recente convênio que dá carta branca ao exército dos Estados Unidos para não somente utilizar sete bases militares, mas também atuar a seu livre arbítrio (eles chamam isso de "imunidade") e sem se submeter em nada às leis nem à Constituição da nação que, sem dúvida alguma, está sofrendo intervenção.

Isso tem acendido o alarme não somente na Venezuela mas em toda a América Latina, em vista do perigo que historicamente tem significado esse intervencionismo estadunidense em nossas nações, o que tem feito a Colômbia desempenhar o papel de valente e assim tem se manifestado com ações como o sequestro de Rodrigo Granda na Venezuela ou o bombardeio de guerrilheiros no solo equatoriano, além da advertência que há pouco lançaram de que haverá outras incursões deste tipo no futuro, ao afirmar que o combate ao terrorismo não tem fronteiras.

Trata-se de uma afirmação que não é estranha para ninguém, pois seu sócio norte-americano já a fez muito famosa ao empregá-la como "leitmotiv" dos países que tem invadido.

Brasil de Fato: Como a utilização de bases militares colombianas pelos Estados Unidos podem afetar as relações entre os dois países?
AM: Já há uma manifestação concreta da reação da Venezuela ante esse perigo e é o fechamento da fronteira com a Colômbia desde agosto ou o reforço desta com o envio de mais efetivos militares que garantem uma maior presença nas zonas fronteiriças, o que tem um grande impacto no comércio bilateral.

Também temos as constantes acusações de espionagem contra a Colômbia, além do chamado que fez o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu programa "Alô Presidente" (do domingo, 8 de novembro), ao qual o exército e o povo devem estar preparados para a guerra ante uma iminente agressão impulsionada pelos Estados Unidos desde a Colômbia, ao afirmar que nesta última nação quem governa, na verdade, é o presidente estadunidense Barack Obama.

Brasil de Fato: Na Venezuela, como a população vê o posicionamento do país vizinho? Em outras palavras, como os venezuelanos veem "o outro"?
AM: Apesar do enfrentamento midiático entre ambos os governos, penso que a percepção desse "outro" por parte da população venezuelana segue sendo a do irmão histórico com quem sempre temos estado vinculados em muito bons termos e com quem levamos uma relação natural de estreitos laços.

Não podemos esquecer da forte presença de cidadãos colombianos em nosso país, que em muitos casos chegam fugindo do conflito armado de sua nação e que na Venezuela conseguem uma pátria que os tem acolhido sem advertência alguma e que tem permitido a eles erradicar-se aqui para compartilhar um destino comum.

Brasil de Fato: Como os meios de comunicação na Venezuela e na Colõmbia "contribuem" para aumentar essas tensões?
AM: É indubitável o impacto que os meios de ambas as nações têm tido no crescimento dessas tensões. Toda vez que coincide com uma circunstância histórica vemos uma imprensa privada venezuelana alinhada a qualquer fator que implique oposição ao governo do presidente Hugo Chávez.

Isso implica no fundo uma aberta traição à pátria, já que desde que o dito governo se instalou no poder e deixou claro que não seria a marionete dos poderosos grupos econômicos que historicamente dirigiram o país à vontade, esses grupos começaram a sonhar e ainda hoje seguem sonhando com uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela para recuperar, pela força, o poder que lhes foi arrebatado pela via das tantas eleições que se levaram a cabo e que têm referendado a legitimidade do governo venezuelano.

Por isso vemos que, de ambas as frentes, a direita internacional se encarrega de acentuar as tensões e assim validam o velho conceito de aparato ideológico de Estado que desde a década de 40 do século passado o investigador Louis Althousser utilizou para assinalar os diversos fatores que contribuem para reproduzir a ideologia dominante de uma sociedade.

Neste caso a ideologia da direita imperante na Colômbia e que se manifesta através de seus meios de difusão (favorecidos, além disso, pelos meios venezuelanos da mesma tendência).

Brasil de Fato: Há temores, na Venezuela, de conflitos armados imimentes entre os dois países?
AM: Toda guerra é irracional e por isso eu acredito que sempre existe o temor de que se produza um conflito armado, pois a história tem uma infinidade de exemplos em que essa irracionalidade imperante em governos tem arrastado povos inteiros à guerra.

No entanto, creio que essas tensões são somente midiáticas - ao menos até o momento - e que na verdade não há risco de um iminente conflito armado, pois uma coisa são os governos, outra são os povos.

Creio que nos povos venezuelano e colombiano não existe essa opção porque historicamente têm sido povos irmãos que têm vivido em paz e é esse o desejo instalado na grande maioria, o que sem dúvida destruirá essas minorias guerreiristas que impulsionam essa aventura louca.

De fato, já há vozes, por exemplo, dentro da Colômbia chamando a mediação da OEA, da ONU e mesmo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para que se normalizem as relações entre ambas nações vizinhas. Inclusive o presidente Lula da Silva já se comprometeu a reunir os presidentes Chávez e Uribe em Manaus com o fim de conseguir uma saída para a crise por meio de um diálogo direto.

Brasil de Fato: Como avalia a maneira como a comunidade internacional (sobretudo Estados Unidos e a imprensa corporativa) recebeu a intenção de Chávez de se reeleger pela terceira vez? E como, ao mesmo tempo, receberam a notícia da possibilidade do terceiro mandato de Uribe?
AM: O enfoque que as grandes transnacionais da difusão massiva deram a esse fato revela, mais uma vez, o papel que essas últimas cumprem como instrumentos da propaganda que a direita internacional leva a cabo em geral e a estadunidense, em particular, contra a Venezuela e qualquer contra nação que se atreva a declarar-se soberana e saia das orientações dos governos norte-americanos.

Dali a leitura que se dá à aspiração de Uribe como líder que a Colômbia requer, porém no caso de Chávez se vê uma suposta ameaça para a América Latina por razões que são evidentes. Uribe se alinhou à política dos Estados Unidos, tanto que Chávez se manifestou contra a política bélica, terrorista e intervencionista dos norteamericanos, e juntamente afirma a soberania da Venezuela e a construção de um mundo multipolar, onde há espaço para todos e acabam-se as exclusões.
Essa é a razão pela qual um terceiro mandato de Uribe é visto com muito bons olhos pela imprensa do norte, enquanto se critica igual aspiração no caso de Chávez e se acusa a ele de ser um ditador que quer eternizar-se no poder, quando a realidade é que se trata de um dos governos constitucionais que tem sido mais legitimado no mundo pela via eleitoral.

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