quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Crescimento desordenado provoca caos social

São João da Barra (RJ), que receberá o Porto do Açu, terá orçamento de R$ 369 milhões em 2010, mas infra-estrutura está abandonada.

Mendicância, prostituição, tráfico de drogas, violência, urbanização caótica e especulação imobiliária. Milhares de experiências no Brasil comprovam: o desenvolvimento desordenado traz consigo uma série de danos sociais. Em São João da Barra, já se vê muitos desses males. Nos alojamentos dos trabalhadores, a polícia encontrou recentemente 13 prostitutas. Entre elas, uma menor. Migração de jovens sem emprego começa a se tornar comum – somados aos desapropriados, serão os protagonistas da favelização local. Capacidade para enfrentar o problema a cidade tem. Por conta dos royalties do petróleo, o orçamento de São João da Barra para 2010 é de R$ 369 milhões – R$ 1 milhão por dia. Entretanto, não se vê investimento em infra-estrutura e urbanismo.

Os empregos diretos gerados, segundo a empresa, podem chegar a 10 mil – número pouco superior ao de agricultores desempregados com a desapropriação. A prefeitura afirma que há cursos de formação para o empreendimento. Na prática, trabalhadores estão sendo “importados” de outros estados. Os muitos alojamentos construídos comprovam. “As condições neles são subumanas. E a comida, muitas vezes, é estragada”, conta o produtor José Jorge Alvarenga. A prefeita Carla Machado (PMDB) prometeu até curso de mandarim para emprego nas prováveis montadoras chinesas. “O pessoal daqui não tem nem segundo grau, vai aprender mandarim?”, questiona Rodrigo Santos, um dos líderes do movimento “Desenvolvimento sim, desapropriação não”. A especulação imobiliária disparou. Há regiões que estariam valendo seis vezes mais.

As anunciadas ampliações na estrutura viária tendem a não suportar o volume. A duplicação da BR-101 está prevista para começar apenas em 2013, depois do início da operação do porto. O caso de São João da Barra tende a reproduzir o da vizinha Macaé, que cresceu a passos largos com o petróleo. Hoje, há enorme desigualdade social e caos urbano na cidade. Macaé está entre as cinco cidades mais violentas do país. Em São João, há ainda o agravante do risco do empreendimento. “No mundo, existem inúmeras experiências desse tipo. Enquanto a commodity é estratégica, você tem um dinamismo econômico fantástico. Quando deixa de ser, vira deserto”, denuncia o professor José Luis Vianna.

Alheio a esses problemas, Eike Batista planeja criar na região a Cidade X (usa o X, símbolo de multiplicação, em todos os seus empreendimentos). Trata-se de área urbana hierarquizada para os trabalhadores. “São cidades-empresas. Experiências horríveis. Controlam quem entra e quem sai”, diz o professor. O empresário teria, inclusive, oferecido para a prefeita a contratação de uma empresa para formular um novo Plano Diretor para São João da Barra. Seria cômico se não fosse trágico.

São João da Barra (RJ), que receberá o Porto do Açu, terá orçamento de R$ 369 milhões em 2010, mas infra-estrutura está abandonada.

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