quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Colômbia e Venezuela: guerra à vista?

Conflito entre os dois países evidencia a existência de diferentes projetos para a América Latina

O conflito latente nos últimos anos, com altos e baixos, entre Colômbia e Venezuela, ganhou ares mais sérios e belicistas recentemente. A tensão na fronteira aumentou, com diversos relatos de prisões e assassinatos dos dois lados. O pano de fundo foi a oficialização do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos, no dia 30 de outubro, segundo qual o primeiro autoriza o segundo a utilizar bases militares em seu território.

Para Alexander Mosquera, professor da Universidade de Zula, em Maracaibo, Venezuela, o novo fato “fez tocar o alarme não somente na Venezuela, mas em toda América Latina, tendo em vista o perigo que historicamente significou esse intervencionismo estadunidense em nossas nações”. O venezuelano aponta ainda que a aliança Colômbia-EUA não é exatamente uma novidade, já que se iniciou com o Plano Colômbia.

Entretanto, com o novo acordo, as tensões e intensões se tornam mais claras. “Acredito que, nos últimos anos, a tensão aumentou sobretudo desde que a Colômbia embarcou nessa 'aventura' com os Estados Unidos, que chamou de Plano Colômbia, através do qual se fez a mais evidente entrega da soberania neogranadina aos norte-americanos, com a desculpa de combater a guerrilha, o terrorismo e o narcotráfico. Essa cessão dos direitos do povo colombiano é mais palpável hoje em dia”, analisa.

Para André Martin, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), não há dúvidas de que a intenção dos EUA é aumentar o controle na região e desestabilizar o governo Hugo Chávez, visto como líder de um projeto progressista para a América Latina, materializado na Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). “A presença militar de uma potência estrangeira num país da América do Sul provoca necessariamente um desequilíbrio na região”, pontua.

Acordo
Dias depois, conforme prometido, o governo de Álvaro Uribe publicou o acordo na íntegra. Como alguns já esperavam, o texto deixa questões em aberto e é mais permissivo do que se pensava. Um exemplo é que o número de 800 militares e 400 civis estadunidenses é apenas uma referência. Fica estabelecida a possibilidade do número ser maior. “As partes operativas estabelecerão um mecanismo de coordenação para autorizar o número e categoria das pessoas (...) e o tipo e a quantidade de equipes que não excederá a capacidade das instalações e localidades convenientes”, diz o documento.

Além disso, é dada imunidade aos cidadãos estadunidenses que atuem nessas bases, ou seja, estarão acima das leis colombianas. Na prática, podem cometer crimes sem perigo de punição, como observou o presidente venezuelano Hugo Chávez.

Outro ponto polêmico é que os EUA não poderão ser expulsos de instalações construídas na Colômbia com financiamento estadunidense até a data em que o acordo expira: 2019. Na prática, isso impossibilita que os próximos governos os expulse, criando enclaves estadunidenses no continente.

Apesar disso, o governo de Álvaro Uribe mantém um discurso “pacifista”, afirmando que a Colômbia não fará nenhuma movimentação para causar uma guerra com nenhum país, muito menos com os “países irmãos”. Do outro lado, Hugo Chávez mantém o discurso inflamado, afirmando que a atitude da Colômbia já é uma declaração de guerra. Em seu programa “Alô, Presidente”, de 8 de novembro, afirmou que o exército do povo deve estar preparado para um possível ataque dos EUA partindo da Colômbia.

Guerra?
Alexander Mosquera avalia que, por enquanto, a guerra é mais midiática que real, mas não descarta, no futuro, um conflito armado entre as duas nações latino-americanas. “Sempre existe o temor que o conflito se produza, pois a história tem uma infinidade de exemplos em que a irracionalidade imperante de alguns governantes arrastou povos inteiros para a guerra”.

Porém, o venezuelano acredita que, diante de um acirramento da tensão, a tendência seria uma saída diplomática negociada, uma vez que as populações dos dois países não veem com bons olhos um conflito com o país vizinho. “Uma coisa são governos e outra são os povos. Creio que os venezuelanos e colombianos não veem uma opção [na guerra]”.

André Martin acredita que um conflito armado teria efeitos extremamente nocivos para o continente. “Se sai uma guerra, temos que nos perguntar: qual o objetivo estratégico?”, questiona, lembrando que, ainda que a Colômbia tenha forças militares preparadas para combater a guerrilha interna, é diferente de uma guerra contra outro país. “Mas, certamente, os Estados Unidos sairiam em defesa do seu aliado”, afirma.

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