quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A verdade sobre o pacto Hitler-Stalin

Durante a passagem dos 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, a grande imprensa buscou reconstruir a história do seu ponto de vista. A principal vítima do revisionismo liberal-burguês – e não poderia ser diferente – foi a União Soviética.

Ela, juntamente com a Alemanha hitlerista, foi responsabilizada pela deflagração daquele conflito. A tragédia teria começado com a assinatura do pacto de não-agressão entre os dois países, ocorrido no fatídico dia 23 de agosto de 1939.

Há várias décadas Ivan Maiski, ex-embaixador soviético em Londres, alertava contra tal calúnia. Escreveu ele: “A falsificação aqui é dupla. Primeiro, são inteiramente adulterados os acontecimentos da Primavera e do Verão de 1939. Segundo, eles são tomados isoladamente, sem ligação com o passado, no qual têm sua origem, ficando, assim, incompreensíveis”. Qual seria, então, o passado - ou os antecedentes - do pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS?

A ascensão de Hitler e a Frente Popular

Após a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933, a Internacional Comunista começou a romper com as concepções esquerdistas e sectárias que predominavam no seu interior. Até aquele momento, por exemplo, ela considerava a social-democracia européia como o braço esquerdo do fascismo. Após a derrota na Alemanha, os comunistas passaram a defender a constituição de frentes únicas envolvendo a esquerda e setores democráticos contra o nazifascismo. Nascia, assim, a política das frentes populares.

A nova conjuntura internacional favorável ao fascismo acarretou também uma mudança na política externa soviética e levou-a a se aproximar das democracias burguesas, especialmente da Inglaterra e França. Uma aproximação nem sempre fácil devido ao anticomunismo arraigado nas classes dominantes daqueles países. Mas, o medo da ascensão alemã conduziu alguns elementos mais esclarecidos da burguesia à por de lado a ojeriza que sentiam pelo poder soviético.

Em 1934, a pedido de vários países, a URSS ingressou na Liga das Nações. A Alemanha e o Japão haviam abandonado para implementar suas políticas guerreiras. Como disse Maiski: “Isso colocava à disposição da URSS a tribuna internacional mais importante da época para fazer sua defesa da paz e combater o perigo de uma segunda guerra mundial”. Esse foi um período de breve degelo nas relações entre as democracias burguesas ocidentais e a URSS.

Anthony Eden, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, chegou a visitar Moscou, sendo o primeiro estadista ocidental a fazê-lo. O exemplo foi seguido pelo Ministro da França, Pierre Laval. Em maio de 1935 firmou-se um pacto de assistência mútua entre URSS e França. Depois se assinou outro com a Tchecoslováquia. Parecia que o país dos sovietes estava saindo do seu perigoso isolamento.

Contudo, as forças políticas conservadoras passaram a minar essa relação. Na Inglaterra o processo de esfriamento se aprofundou com a ascensão de Neville Chamberlain ao cargo de Primeiro-Ministro, ocorrido em maio de 1937. Desta data até 1939, quando eclodiu a guerra, predominou a chamada política de “apaziguamento” – ou seja, a política de concessões graduais às potências nazi-fascistas com a ilusão que essas concessões as acalmariam.

A Alemanha hitlerista vinha desrespeitando o Tratado de Versalhes e se rearmando. O primeiro ato aberto de provocação foi a ocupação militar da Renânia, que pelo tratado deveria se manter desmilitarizada. A URSS exigiu medidas drásticas dos membros da Liga das Nações. Mas, as potências ocidentais se contentaram com simples protestos diplomáticos. Nem mesmo uma ameaça de sanção foi aprovada contra o governo de Hitler. Isso soou quase como uma autorização para que continuasse a militarização e expansão do Estado alemão.

A Espanha, Áustria e Tchecoslováquia sacrificadas

Em julho de 1936, o general Franco organizou um levante reacionário contra a jovem República Espanhola. A Itália e a Alemanha, dirigidas por fascistas, se apressaram em apoiar os golpistas. Enviaram-lhe homens e modernos armamentos. Começava assim uma sangrenta guerra civil. Era um sinal sombrio do que ainda estava por vir.

O governo legítimo espanhol reclamou a solidariedade das democracias ocidentais. A resposta inglesa, francesa e estadunidense foi aprovar a vergonhosa política de “não-intervenção”. Apenas a URSS saiu em socorro da República Espanhola. A esquerda mundial, encabeçada pelos comunistas, organizou as Brigadas Internacionais para combater as tropas fascistas na Espanha. Essa é uma das páginas mais belas do internacionalismo proletário no século 20.

Enquanto dezenas de milhares soldados italianos ainda combatiam ao lado de Franco para derrubar o governo constitucional, a Inglaterra assinou um tratado de amizade com Mussolini. Este acordo, além de cuspir sobre a farisaica política de não-intervenção, ainda acabava por reconhecer a ocupação na Etiópia realizada alguns anos antes sob protesto inócuo da Liga das Nações.

No mesmo ano, 1938, Hitler anexou a Áustria ao 3º Reich. Novamente as potências ocidentais responderam à agressão militar nazista com simples protestos protocolares. O governo soviético lançou uma declaração conclamando a cooperação internacional contra a ofensiva nazista: “A presente situação faz avivar em todos os Estados pacíficos, e em particular nas grandes potências, o problema de sua responsabilidade pelo destino dos povos da Europa, e não só da Europa. O governo soviético está consciente da parte da responsabilidade que lhe corresponde e posso declarar que está disposto, como antes, a participar de ações coletivas que tenha por finalidade deter o desenvolvimento da agressão e eliminar o crescente perigo de uma nova guerra mundial”. A resposta da França, da Inglaterra e dos EUA foi o silêncio. Um silêncio eloqüente.

Com as mãos livres, Hitler se tornou ainda mais ambicioso. Dois meses depois da anexação austríaca, tropas alemãs se concentraram nas fronteiras da Tchecoslováquia. O Füher agora exigia todos os territórios habitados por descendentes de alemães, os sudetos. Nessas regiões, grupos nazistas provocavam desordens e confrontos com a polícia visando criar pretexto para uma invasão.

Dessa vez as coisas pareciam se complicar para Hitler, afinal a França tinha um pacto de assistência mútua com a Tchecoslováquia e a Inglaterra com a França. A URSS – conforme estabelecia o pacto assinado anos antes – se comprometia a apoiar militarmente à Tchecoslováquia caso a França também fizesse o mesmo. Mas, o Ocidente não estava disposto a ir à guerra por um pedaço sem importância da Europa.

Um editorial do Times, porta-voz do conservadorismo inglês, daria o tom da capitulação ocidental diante de Hitler. Ele sugeria que para resolver a crise internacional e evitar a guerra os Tchecos deveriam abrir mão de alguns de seus territórios. Era preciso apaziguar os nazistas dando a eles o que queriam e os direcionando para o leste, rumo a URSS. Assim pensava a maioria dos liberais ocidentais.

Em 15 de setembro de 1938, Chamberlain encontrou-se com Hitler. Ouviu as reivindicações descabidas do ditador e as aceitou. Passou então a pressionar os tchecos, que, sem alternativas, foram obrigados a ceder. Alguns dias mais tarde, Hitler disse aos ingleses estupefatos que as concessões feitas eram agora insuficientes. A Alemanha queria mais territórios. O governo inglês novamente capitulou, mas, dessa vez, não encontrou a mesma receptividade dos tchecos. Hitler então ameaçou com a guerra imediata.

Poucos dias depois – entre 29 e 30 de setembro – os governos da Alemanha, Itália, Inglaterra e França se reuniram numa conferência em Munique e firmaram um tratado. Através dele a Tchecoslováquia deveria ceder a região dos sudetos, com todos os bens neles existentes. Ao saber dos resultados, exclamou Edouard Benes, presidente da Tchecoslováquia: “fomos abandonados”. A multidão chorava e protestava pelas ruas de Praga. Mas, segundo Chamberlain, a paz estava salva.

Seis meses depois do Acordo de Munique e da anexação dos sudetos, Hitler ocupou todo o território da Tchecoslováquia e o dilacerou. A Eslováquia foi declarada “independente” e outra região foi entregue a Hungria, governada pelo fascista Horthy. Novamente o que se viu foi a covardia dos governos britânico e inglês. Em ato contínuo Hitler exigiu a cidade polonesa de Dantzig, atual Gdansk.

A proposta soviética contra o eixo nazi-fascista

O governo soviético, diante da ameaça de ocupação da Polônia e Romênia, propôs uma conferência emergencial entre os representantes da Inglaterra, França, URSS, Romênia, Turquia e Polônia para debater e estabelecer mecanismos de resistência ao avanço nazista. Contudo, Chamberlain se apressou em dizer que se opunha a formação de blocos militares de países contra outros blocos militares. Portanto, nada de frente-única contra Alemanha e Itália. A Polônia, governada por reacionários, por sua vez, recusava-se a assinar qualquer acordo com a URSS. Nem mesmo uma declaração conjunta desses países conseguiu ser aprovada. Hitler pressentiu a fraqueza e vacilações de seus adversários.

Diante das ameaças reais que pairavam sobre a Grécia, Polônia e Romênia, a proposta inglesa e francesa foi oferecer garantias unilaterais a esses países. Essa foi a forma encontrada para fugir de qualquer compromisso militar explicito com a URSS. Ironicamente os três países a serem protegidos unilateralmente não tinham fronteiras com a Inglaterra e França. Dois deles, Polônia e Romênia, tinham divisas territoriais com a Rússia. Sendo assim, todo e qualquer apoio militar efetivo, necessariamente, deveria passar por um acordo com o próprio Stalin.

A URSS não aceitou essas garantias unilaterais e, em março de 1939, propôs um pacto de assistência mútua entre todos os países ameaçados pelas potências nazi-fascistas. Um ataque a qualquer um, inclusive à Rússia, seria considerado uma agressão a todos e respondido como tal. Essa era a única maneira de barrar o avanço da Alemanha, da Itália e do Japão. Estabelecia a proposta soviética:

“1. A França, a Inglaterra e a URSS prestar-se-ão, mutuamente, ajuda imediata e eficaz, se qualquer uma delas achar-se envolvida em operações militares com uma potência européia no seguinte casos:

a) agressão dessa potência a qualquer um dos signatários do pacto;

b) agressão dessa potência à Bélgica, Grécia, Turquia, Romênia, Polônia, Letônia, Estônia e Finlândia, países que os signatários se comprometem a defender ante a agressão; e

c) ajuda de um dos signatários do pacto a qualquer Estado europeu (mesmo os não garantidos) que solicite essa ajuda para luta contra a violação de sua neutralidade.

2. No caso de se iniciarem operações militares conjuntas, em virtude da aplicação do pacto, os três países signatários se comprometem a firmar o armistício ou a paz de comum acordo

Diante de uma proposta tão clara, só restou aos governos ocidentais tergiversar e tentar protelar qualquer acordo, esperando que Hitler, finalmente, se decidisse continuar sua marchar para o Leste até a URSS. O anticomunismo atávico não os permitia ver que, naquele momento, a principal contradição era entre o imperialismo anglo-francês e o alemão e não entre este e a URSS. A política externa francesa e inglesa cavava a própria cova.

A situação européia exigia atitudes rápidas e enérgicas, como propunha a URSS. Isso era tudo o que não queria Chamberlein. Um exemplo da má vontade inglesa foi a decisão da enviar sua delegação para negociar um tratado com os russo a bordo de um navio comum. Alegou-se que as bagagens não caberiam num avião. “Gastaram cinco dias na travessia, em um momento histórico em que eram extremamente importantes as horas e, inclusive, os minutos”, afirmou Maiski. Pior: a delegação enviada, composta por membros do segundo escalão do governo, não tinha autorização para assinar nenhum acordo político ou militar com os soviéticos. A missão inglesa foi uma grande farsa, visando protelar as negociações.

Em 10 de março de 1939 Stalin pronunciou um duro discurso no plenário do 18º Congresso do PCUS: “Os aliados ocidentais empurram os alemães para o leste, fazendo-lhes ver que os bolcheviques são presas fáceis (...). Não deixaremos o nosso país ser arrastado nesse gênero de conflito por incendiários cujo hábito consiste em fazer com que outros tirem da brasa as castanhas que eles próprios irão comer (...). A política não-intervencionista significa a convivência e o encorajamento à agressão (...). As potências democráticas abandonaram a Áustria, apesar da obrigação de defender-lhe a independência. Deixaram ao desamparo os sudetos e atiraram a Tchecoslováquia à feras (...) e continuam a incentivar os alemães a prosseguir em seus avanços cada vez mais para o Leste, como se quisessem dizer: ‘comecem vocês uma guerra contra os bolcheviques e tudo estará bem”.

A guerra batia as portas da Europa e a situação começou a ficar complicada para o governo da URSS. Ele sentia que estava sendo enrolado. Foi aí que surgiu da parte alemã a proposta concreta de um pacto de não-agressão. Não se tratava de um pacto militar de ajuda mútua, como os soviéticos haviam proposto aos ingleses e franceses.

O acordo foi assinado em 23 de agosto de 1939. Ele dava um tempo maior a URSS para que ela se preparasse econômica e militarmente tendo em vista o conflito que, mais cedo ou mais tarde, iria atingi-la. Stalin não tinha nenhuma ilusão quanto à longevidade dos acordos com Hitler, mas, prudentemente, queria garanti-lo por um maior tempo possível.

No dia primeiro de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia e teve início a 2ª Grande Guerra Mundial. O velho político conservador inglês, Winston Churchill escreveu: “Não há dúvida (...) de que a Grã-Bretanha e a França deveriam ter aceitado a proposta russa (...). A aliança da Inglaterra, França e Rússia, em 1939, teria despertado o mais profundo alarma no coração da Alemanha (...). Hitler não ousaria atirar-se numa guerra em duas frentes (...) Se, por exemplo, Mister Chamberlain, tivesse dito, ao receber a proposta russa: ‘sim, unamo-nos os três e torçamos o pescoço de Hitler” (...) a história poderia ter tido um curso diferente”.

Os erros de Stalin e da Internacional Comunista

Duas grandes críticas ainda são feitas ao acordo. A primeira delas é quanto à cláusula secreta que previa a divisão da Polônia. Poucos dias depois da invasão alemã à parte ocidental daquele país, em 17 de setembro, o Exército Vermelho ocupou o lado oriental. Do ponto de vista geopolítico - e estritamente militar – o ato russo tinha sua razão de ser.

As regiões ocupadas foram a Ucrânia e a Bielo-Rússia ocidentais, que haviam sido arrebatadas da jovem Rússia soviética e entregues à Polônia após a Primeira Guerra Mundial. Por outro lado, a ocupação desses territórios manteria as tropas da Alemanha nazistas numa distância dezenas de quilômetros da fronteira soviética de 1939, melhorando as possibilidades de defesa militar do país num futuro conflito.

Outra crítica, esta coberta de razão, é que o “pacto de não-agressão” conduziu o movimento comunista internacional a arrefecer a luta antifascista entre 1939 e 1941. O imperialismo inglês e francês passou a ser considerado o único responsável pelo conflito europeu e mundial. Isso confundiu, desnorteou e isolou os comunistas em muitos países, facilitando a ação de seus inimigos. Na França, por exemplo, o PCF foi colocado na ilegalidade e taxado de traidor da nação.

O que era justo do ponto de vista da defesa do Estado e mesmo do socialismo soviético passou a ser algo incorreto e perigoso quando aplicado nos demais países do mundo. As políticas adotadas pelos partidos comunistas acabaram se subordinando, unilateralmente, aos interesses do Estado Soviético, que eram evitar qualquer movimento que desse pretexto para Hitler começar uma nova ofensiva para o Leste. Não seria a primeira nem a última vez que ocorreria essa subordinação. Os resultados foram sempre negativos para luta democrática, nacional e socialista dos trabalhadores.

Por Augusto Buonicore
Fonte Vermelho

Nenhum comentário: