segunda-feira, 4 de maio de 2009

Violência contra grafiteiros expõe o crescimento das milícias de extrema direita no Rio de Janeiro.

O mês de janeiro no Rio é novamente cenário de expressões da cultura política da extrema direita. Organizações milicianas continuam atuando em defesa dos «cidadãos de bem» em nome da «ordem social e moral». No dia 18 do referido mês artistas que estavam grafitando um muro do Jockey Clube da referida cidade foram abordados por indivíduos que se apresentaram como os «Anjos da Guarda». Os Guardians Angels do Brasil agindo de forma truculenta tomaram os utensílios dos artistas e acionaram a polícia, segundo informação veiculada pelo site Viva Favela.

Os rappers Emerson Facão e Alexandre Tigrão, e o grafiteiro Carlos Esquivel, o Acme, grafitavam o muro do Jockey desde às 8h da manhã. Às 21h, o trabalho artístico foi censurado após abordagem de uma brigada uniformizada trajando calça e bota pretas, camiseta branca e boina vermelha, todos integrantes da ONG Guardian Angels. Eles acionaram a Guarda Municipal e levaram os artistas para a 15ª DP [Distrito Policial, uma esquadra].

A vigilância e manutenção voluntária do muro do Jockey são feitas pelos Guardian Angels, ONG que afirma atuar «na luta contra a criminalidade», com autorização da direção do Jockey. O gerente de Marketing do clube Urubatan Medeiros informou ao site Viva favela que os Guardian Angels procuraram o clube para fazer a manutenção do muro gratuitamente.

A ONG Guardian Angels foi criada em fevereiro de 1979, em Nova Iorque, com o objetivo de combater a criminalidade no bairro do Bronx. Atualmente, possui núcleos em 67 cidades dos Estados Unidos, além de representações no Canadá, México, Japão e Brasil. No Brasil, há 22 voluntários da organização, todos no Rio. Eles atuam em bairros da Zona Sul e no Centro e se dividem em dois grupos, os adolescentes trabalham com ecologia e preservação ambiental e os integrantes maiores de idade fazem uma espécie de patrulha policial na mesma área.

No site oficial da ONG, em inglês, eles dizem estar prontos para «lutar contra as forças do mal». Os integrantes da Guardian Angels do Brasil, dizem que estão preparados e argumentam que passaram por uma capacitação realizada por integrantes da sede americana.

Os milicianos, segundo informações da comunidade do Orkut do grupo no Brasil, são preparados através de cursos que vão desde Direito, onde aprenderam sobre o código penal, além de emergência médica e defesa pessoal e se submetem a rígidos padrões de conduta.

Segundo entrevista do site Viva favela com membros do grupo, uma das lideranças da milícia afirmou: «Sempre que vemos alguém cometendo um delito, como assalto, ou depredando um bem público, damos voz de prisão e encaminhamos às autoridades. Somos os olhos e os ouvidos da polícia na rua» […]. «Vamos lutar contra o tráfico, somos uma resposta rápida ao Comando Vermelho».

«Os Guardian Angels se encaixam muito bem no papel que alguns, principalmente aqueles que defendem o porte de armas, querem. O fim do monopólio do Estado sobre o uso da força. É proibido que eles o façam por enquanto, mas isso abre uma brecha para a formação de milícias como as que existem no campo, criadas pela UDR [União Democrática Ruralista, um partido de extrema-direita de fazendeiros e latifundiários]. Eu já vi esses caras também, moro no Rio também, só que no subúrbio, mas eles andam assim mesmo, semifardados, estufando o peito e com o nariz para cima, ficam agradando as pessoas e vigiando a saída na porta das escolas. São arredios a conversa, a não ser que eles venham falar com você».

As formações milicianas tornaram-se parte dos cenários da «cidade maravilhosa» há algum tempo e possuem perfis distintos. É notória também a atuação de organizações paramilitares que controlam parte expressiva das regiões periféricas da cidade, recrutando desempregados e policiais como paladinos da ordem, fatos constantemente noticiados pela grande imprensa.

O controle dos sistemas econômicos (oficiais e paralelos) das comunidades pobres de favelas e bairros apresenta-se como interessante campo de empreendedorismo. As milícias obtêm muitas vezes o apoio de segmentos da população que acreditam no controle da criminalidade por parte de tais organizações, muitas vezes, controladas por políticos também empreendedores, como foram destacados pelo noticiário televisivo brasileiro nos últimos meses os vínculos entre vereadores da cidade do Rio de Janeiro e organizações milicianas que sob ameaças intimidavam as comunidades a votarem em candidatos envolvidos com o crime organizado, fato que colocou o exército em algumas favelas para garantir a normalidade das eleições municipais.

A lógica do lucro norteia a maior parte das milícias urbanas e rurais no Brasil, grupos armados também fazem a proteção de muitas fazendas, sob a sombra da União Democrática Ruralista (UDR), organização de produtores rurais brasileiros em oposição aos movimentos sociais no campo. A economia da proteção privada por grupos paramilitares gera empregos e estimula uma economia paralela em defesa da ordem.

Existe também a disposição de certos segmentos da sociedade em defesa da «ordem moral e social» mesmo de forma não remunerada, compromissados com a vigilância e a manutenção da funcionalidade societária para os «cidadãos de bem».

Nesse sentido, também é notória a presença em muitos países de determinados segmentos milicianos autodenominados skinheads que também colaboram com a manutenção da higienização social. Desde a crise econômica da década de 1970 no ocidente, «cabeças raspadas» acreditam estarem prestando serviços as suas comunidades agredindo e expulsando de suas áreas mendigos, migrantes, homossexuais, usuários de entorpecentes [consumidores de estupefacientes] e, tratando-se especificamente de segmentos skinheads White Power, caçando os «não brancos».

O movimento skinhead é multifacetado, nem todos os grupos são racistas, mas em sua maioria prestam culto ao uso da força e a cultura militarista. No Brasil surgiram no início da década de 1980 e a cidade do Rio de Janeiro destaca-se atualmente pelo número de organizações, segundo dados obtidos pela internet. Uma rápida pesquisa através do Google, Orkut e You Tube evidencia a articulação entre grupos skinheads no Brasil e, em muitos países da América Latina, com destaque para a Argentina e Chile, sendo Portugal e Espanha também destaque pelo número de organizações.

Neste mesmo mês de janeiro o Rio de Janeiro também sediou o denominado «III Congresso Integralista para o século XXI» entre os dias 22 a 25, ocasião em que apresentaram seu novo manifesto político, o denominado Manifesto da Guanabara. Os integralistas são também notórios personagens da cultura política de extrema-direita no Brasil; atuando desde 1932 os integralistas tornaram seu movimento um partido de massas até 1937, quando foram colocados na ilegalidade por Getúlio Vargas; naquele contexto as milícias integralistas armadas e sob treinamento militar prestaram serviços às elites na repressão a militantes comunistas e o partido tinha explícitos vínculos com o partido fascista italiano.

Os herdeiros do integralismo no Brasil contemporâneo também se apresentam como defensores da «ordem moral e social» e antigos e novos militantes pleiteiam possibilidades para a reestruturação de sua militância articulando organizações por todo o país, impulsionados pelas tecnologias de comunicação. Fato destacado em recentes pesquisas acadêmicas que apontam as relações de integralistas com organizações skinheads, como os Carecas do ABC, atuantes na região metropolitana de São Paulo, com ramificações também em cidades do interior do país. Os «Carecas do ABC» apresentam-se como skinheds integralistas e cultuam o mesmo lema dos integralistas da década de 1930: «Deus – Pátria – Família».

Os últimos dois «Congressos Nacionais» dos integralistas, segundo dados obtidos em pesquisa de doutorado em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), contaram com a presença de outras organizões políticas de direita, como militantes do Partido de Reeestruturação da Ordem Nacional (PRONA) e da organização Tradição Família e Propriedade (TFP), organização existente em vários países.

As milícias civis, em sua diversidade, são um componente característico das organizações de extrema direita na contemporaneidade e deram sustentação para elites reorganizarem a ordem moral e social em momentos de agravamento de conflitos sociais. No Rio de Janeiro as milícias existem desde a década de 1970, controlando algumas comunidades da cidade onde comerciantes locais se organizaram para pagar proteção contra a criminalidade.

No início século XXI, estes grupos paramilitares começaram a competir pelas áreas controladas pelas facções do tráfico de drogas. Em dezembro de 2006, segundo dados disponíveis na internet, as milícias controlavam 92 das mais de 500 favelas cariocas.

Entre o caos e a violência que marcam a «cidade maravilhosa», os «cidadãos de bem» no mês de janeiro de 2009 podem ficar mais tranquilos, pois os paladinos da ordem, os «cães de guarda da burguesia» estão atuantes, por interesses materiais ou ideológicos, organizando-se e articulando-se com congêneres sob a égide do conservadorismo.

Para extremistas de ontem e hoje a ordem é pressuposto fundamental, velhas bandeiras se confundem com novas siglas e adereços estéticos e, como colocou em evidência o grupo Guardian Angels do Brasil, alguns ainda acreditam em arte degenerada, como o fizeram antigos nazistas na também notória exposição ocorrida na Alemanha na primeira metade do século XX.

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