segunda-feira, 27 de abril de 2009

BNDES compra R$ 3 bi de empresas na crise

Banco deve aumentar neste ano os investimentos em títulos da dívida e em ações de companhias em dificuldades no país
Aportes do banco desde setembro concentram-se em cinco empresas: VCP, Independência, LLX, Bom Gosto e PDG Realty.
Desde o agravamento da crise financeira, em setembro, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) já investiu R$ 3,2 bilhões na compra de participações acionárias e títulos de dívidas de empresas. As operações foram feitas via BNDESPar, o braço do banco que atua no mercado de ações.O valor supera, por exemplo, o montante aplicado em empréstimos nos últimos 12 meses até fevereiro para a área social, de R$ 2,98 bilhões. Em relação ao volume total de empréstimos do banco no período de setembro a fevereiro, as compras de participações representam menos de 10%.O BNDES tem uma carteira de ações com mais de 140 empresas. A participação acionária funciona como um instrumento de rentabilidade para o banco com papéis de grandes empresas, como Vale e Petrobras. Pode ser também um instrumento de apoio à reestruturação de companhias em dificuldade, mas com perspectiva de recuperação. Mas especialistas ouvidos pela Folha afirmam que o banco deveria explicitar melhor o critério de escolha das empresas.Para alguns, a compra de ações num momento de baixa no mercado representa uma boa opção de investimento. Quando a Bolsa voltar a subir, os ganhos podem ser altos. "O banco tem patrimônio hoje porque apostou em participações no passado", diz Júlio Gomes de Almeida, da Unicamp.Outros avaliam que a escolha de um número limitado de companhias em um cenário de crise remonta ao papel de hospital de empresas do banco nos anos 1980. Na época, um grupo de empresas selecionadas pelo governo teve acesso a recursos com juros mais baixos.Na semana passada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse que 20 empresas necessitaram de operações de reestruturação após a crise. "Em geral, a atuação da BNDESPar é feita em condições de mercado", ressaltou.Questionado sobre as operações de compra de ações, o banco afirma que cumpre papel anticíclico na crise e que deverá investir mais na compra de debêntures (títulos de dívida) conversíveis em ações.A compra de participações acionárias desde setembro foi concentrada em cinco empresas: VCP, Independência, LLX, Bom Gosto e PDG Realty (neste caso, compra de debêntures). O banco diz priorizar a compra de participações em movimentos de fusões e aquisições que podem gerar empresas nacionais fortes.Em valor, a maior operação foi a compra da Aracruz pela VCP (Votorantim Celulose e Papel). A aquisição criou a maior empresa de celulose do mundo e impediu que a Aracruz fosse vendida a uma empresa estrangeira, mas foi alvo de críticas porque as duas companhias haviam acabado de anunciar perdas bilionárias com operações atreladas ao câmbio e a derivativos. A participação do BNDES no negócio chegou a R$ 2,4 bilhões. Desde 15 de setembro, as ações da Aracruz já caíram mais de 70% e as da VCP tiveram queda superior a 50%.No caso do frigorífico Independência, um dos maiores processadores de carne do país, a injeção de recursos do banco não foi suficiente para evitar os efeitos da crise. Em 2008, o banco aprovou uma compra de ações de até R$ 450 milhões. Em novembro, fez o primeiro aporte, de R$ 250 milhões.No início de março, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial. O banco cancelou a segunda parcela.Com foco em infraestrutura, a LLX, empresa de logística do empresário Eike Batista, recebeu aporte de R$ 150 milhões e o BNDES se tornou acionista com 12,05% do capital. A empresa já havia assinado neste ano um contrato de empréstimo com o BNDES de R$ 1,32 bilhão para investimentos.Já a incorporadora PDG Realty, com foco no mercado imobiliário de classe média-baixa até alto luxo, recebeu R$ 155 milhões do BNDESPar.

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